
Arquivos como ferramenta de justiça social – Entrevista com Vitor Hugo Teixeira

Arquivos como ferramenta de justiça social – Entrevista com Vitor Hugo Teixeira
Vitor Hugo Teixeira
vitorhugot88@gmail.com
Sobre o entrevistado
Em 2024, Vitor Hugo Teixeira defendeu sua tese pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal da Paraíba, sob orientação da Profa. Dra. Gracy Kelli Martins.
Vitor Hugo Teixeira é arquivista, natural de São José dos Cordeiros (PB) e atualmente é doutorando em Ciência da Informação na Universidade Federal da Paraíba. Artista amador na área de música e literatura, escreve poemas e crônicas, além de integrar o Coral Universitário Gazzi de Sá da Universidade Federal da Paraíba.
Sua dissertação, intitulada “Mediação implícita da informação para a justiça social na Arquivologia: o guia para usuários/as de arquivos como instrumento de interferências transformadoras”, amplia a compreensão sobre a mediação da informação em arquivos ao mostrar que o guia para usuários não apenas informa sobre documentos e serviços, mas contribui para aproximar arquivos e sociedade. Os resultados indicam que seu potencial transformador depende de uma atuação arquivística crítica, intencional e socialmente comprometida. Dessa forma, o guia para usuários/as é compreendido como ferramenta de mediação capaz de ampliar o acesso à informação, promover reconhecimento social e contribuir para a democratização dos arquivos.
Divulga-CI (DC): O que te levou a fazer o mestrado e o que te inspirou na escolha do tema da dissertação?
Vitor Hugo Teixeira (VT): A pós-graduação foi um objetivo que defini ainda na graduação em Arquivologia, motivado pelo meu interesse em atuar na pesquisa e como professor na educação superior. Já a inspiração para o tema surgiu da minha experiência com a elaboração de um guia em um arquivo especializado, na instituição onde estagiei durante a graduação: a Companhia de Água e Esgotos da Paraíba – Cagepa. Aquela vivência inspirou a pesquisa que resultou na minha monografia, na qual pude descrever e discutir o desenvolvimento dessa ferramenta, com base na teoria sobre representação e difusão arquivística e nas impressões dos usuários. No mestrado, por sua vez, decidi aprofundar a discussão teórica por meio dos conceitos de mediação da informação e de justiça social, considerando a contradição entre o potencial do instrumento para a popularização dos arquivos e a baixa atenção que recebe dos arquivistas, tanto na teoria quanto na prática da área.
DC: Quem será o principal beneficiado pelos resultados alçados?
VT: Certamente, as pessoas que fazem uso da informação arquivística, cujo acesso aos guias de arquivos contribuirá para o conhecimento geral sobre as instituições e os acervos representados pelos instrumentos, subsidiando suas pesquisas e fazendo-lhes despertar o interesse por novas pesquisas com finalidades e em contextos diversos. Em segundo lugar, a pesquisa pode trazer benefícios à formação em Arquivologia, uma vez que propõe que a área passe a conceber como prioritárias determinadas condutas até então não atribuídas à responsabilidade do arquivista. Eu incentivo essa “flexibilização do campo” por acreditar que ela não torna o trabalho menos arquivístico: antes, possibilita expandir a compreensão do que vem a ser a Arquivologia, ajudando a constituir, enquanto responsabilidade de todos, uma sociedade mais justa.
DC: Quais as principais contribuições que destacaria em sua dissertação para a ciência e a tecnologia e para a sociedade?
VT: Cientificamente, eu diria que a principal contribuição da pesquisa está em seu aspecto epistemológico, por ter estabelecido, com base em aspirações sociais identificadas a partir do Sul global, uma abordagem metodológica alternativa ao método tradicional. Acredito que a correlação entre a mediação e a representação da informação, com foco na justiça social por meio da atuação do arquivista, refletiu uma articulação consistente entre a Ciência da Informação e a Arquivologia. Já sob a perspectiva social, acredito nos impactos da pesquisa por oferecer uma alternativa relativamente simples para promover o protagonismo social de diferentes grupos. A implementação de guias pode fomentar o enfoque dos arquivos nas comunidades, estimulando o crescimento do interesse pelos acervos e impulsionando a apropriação das informações. Acervos estes que, não raro, são explorados apenas em contextos burocráticos e formais, nos limites das finalidades das próprias instituições que mantêm os arquivos.
DC: Seu trabalho está inserido em que linha de pesquisa do Programa de Pós Graduação? Por quê?
VT: Está inserido na linha 2 – Organização, Representação e Tecnologias da Informação –, pelo fato do guia do arquivo, bem como os demais instrumentos de pesquisa arquivísticos, ser proveniente de processos de representação da informação (que, na Arquivologia, são contemplados
pela descrição arquivística). Não obstante, a pesquisa também mantém forte relação com a linha 1 – Memória, Mediação e Apropriação da Informação – considerando a discussão que foi empreendida e os resultados alcançados.
DC: Citaria algum trabalho ou ação decisiva para sua dissertação? Quem é o autor desse trabalho, ou ação, e onde ele foi desenvolvido?
VT: Sem dúvidas! No pólo teórico, eu poderia citar o texto “Mediação da Informação: um conceito atualizado”, de Oswaldo Almeida Júnior (publicado originalmente como capítulo de livro, em 2015). Já no pólo extrateórico, gostaria de destacar as contraposições de Natália Duque-Cardona e de Nego Bispo ao colonialismo no Sul global, bem como a discussão empreendida por Natália Tognoli sobre Justiça Social.
DC: Quais foram os passos que definiram sua metodologia de pesquisa?
VT: Uma vez constituído o problema da pesquisa, procurei esquematizar um percurso metodológico que refletisse o seu objetivo geral, abarcando todo o processo. Isto é, classifiquei o estudo quanto à sua natureza básica (e não aplicada), ao seu nível exploratório-descritivo, à sua abordagem qualitativa, aos procedimentos e fontes de dados (bibliográfico-documentais) e, finalmente, à interpretação dos dados, onde adotei a análise de conteúdo. Com todos esses elementos claros na minha mente e no papel, tornou-se mais fácil desempenhar o estudo.
DC: Quais foram as principais dificuldades no desenvolvimento e escrita da dissertação?
VT: Um fator decisivo foi a definição clara do objeto de estudo, isto é, do real fenômeno investigado, em virtude da complexidade presente na problematização, que abarcou vários temas de forma inédita (Mediação, Representação, Justiça social, Epistemologias do Sul).
DC: Em termos percentuais, quanto teve de inspiração e de transpiração para fazer a dissertação?
VT: 40% de inspiração e 60% de transpiração, eu diria.
Aprendi que a inspiração, enquanto ideia súbita que não pode ser forçada e que deve estar presente em todo o processo de investigação, é resultado de uma articulação direta entre paixão pelo tema e especialização no conhecimento sobre ele, possibilitando que o foco se restrinja a um único problema. Assim, quanto menor for a paixão e a especialização, maior será a transpiração despendida na materialização do estudo.
DC: Teria algum desabafo ou considerações a fazer em relação à caminhada até a defesa e o sucesso da dissertação?
VT: Sim. Vou citar três elementos que, a meu ver, estão interligados e merecem igual importância na pós-graduação: a definição clara do objeto de estudo, conforme mencionei antes – diferentemente de componentes como problema, objetivos e justificativas, o objeto de estudo não entra necessariamente no corpo do texto, e a sua indefinição invariavelmente atrasa o processo e compromete os resultados da pesquisa –; o estabelecimento e a observância constante ao cronograma, que atua como um indicador dos estágios do percurso em relação aos prazos; e a relação com o(a) orientador(a), cuja comunicação pode impulsionar ou comprometer o desempenho do estudante.
DC: Como foi o relacionamento com a família durante este tempo?
VT: Minha família – especialmente minha mãe – é minha maior base, onde eu repouso sempre que os voos se tornam exaustivos. Gosto de pensar no seu apoio como fator determinante para o meu sucesso, mas também acho importante pontuar que família é quem a gente escolhe: tem muita gente boa no mundo, e o importante é não permanecer sozinho.
DC: Agora que concluiu a dissertação, o que mais recomendaria a outros mestrandos que tomassem seu trabalho como ponto de partida?
VT: Eu pediria que, em sua problematização, eles empreendessem esforços para idealizar formas alternativas de exploração do guia de arquivos, imaginando como as informações disponibilizadas pelo instrumento podem ser mediadas enquanto estratégia para alcançar públicos diversificados, especialmente na América Latina. Paralelamente, eu recomendaria a reflexão sobre como os cursos de Arquivologia do Brasil podem e devem incorporar a mediação da informação e a decolonialidade em seus projetos político-pedagógicos.
DC: Como você avalia a sua produção científica durante o mestrado? Quais trabalhos você aponta como os mais importantes?
VT: Diria que tive uma produção razoável: participei de mais de 20 eventos, dentre os quais fui organizador de seis; publiquei quatro artigos, três trabalhos em anais de eventos, um capítulo de livro e dois textos em revistas; proferi quatro palestras; ministrei aulas em três turmas da graduação, por meio do estágio de docência; ingressei em três projetos de pesquisa; criei um projeto de extensão; concluí três cursos de formação complementar; tive cinco entrevistas e comentários publicados em diferentes veículos de comunicação; e produzi um website. Dentre as produções, posso destacar o artigo “Aspectos cognitivos da Ciência da Informação no Brasil” e o texto “Mediação da informação para o protagonismo de arquivistas”.
DC: Desde a conclusão da dissertação, o que tem feito e o que pretende fazer em termos profissionais?
VT: No ano seguinte à conclusão do mestrado, ingressei no doutorado no mesmo programa (2025). Nessa nova experiência, assumi como objeto de estudo, sob orientação da estimada Profa. Dra. Gisele Rocha Côrtes, o impacto da mediação da informação sobre políticas públicas arquivísticas para o protagonismo social dos arquivistas no Brasil, no contexto do associativismo exercido por essa categoria profissional.
Tem sido uma jornada instigante, em que teoria e prática mantêm constante interação, uma vez que também tenho atuado como Presidente da Associação de Arquivistas da Paraíba (AAPB) e como Coordenador Geral do Fórum Nacional das Associações de Arquivologia do Brasil (FNArq) – enxergo essa atuação voluntária como um verdadeiro “ativismo arquivístico”! Quanto aos projetos futuros, destaco a atuação docente, a publicação de livros e, falando sobre algo que me define, a prática artística na área da música e da literatura.
DC: O que faria diferente se tivesse a chance de ter começado sabendo o que sabe agora?
VT: Honestamente, eu não esperaria tanto por determinações externas para planejar e executar cada etapa da pesquisa. Por outro lado, entendo que a dificuldade enfrentada me trouxe experiência, pelo que hoje me considero mais independente e confiante.
DC: O que o Programa de Pós-Graduação fez por você e o que você fez pelo Programa nesse período de mestrado?
VT: Sou grato ao PPGCI-UFPB por ter me proporcionado o contato com excelentes professores e pesquisadores, a exemplo da participação no 23º Enancib e da disciplina Epistemologias do Sul para a Ciência da Informação, ministrada pela Profa. Dra. Natália Duque Cardona (Universidad de Antioquia, Colômbia), e por ter angariado, junto à Fapesq, a bolsa de estudos que recebi durante a maior parte da formação. Em contrapartida, considero que fui um estudante participativo, contribuindo propositivamente nas discussões em sala de aula, no grupo de pesquisa Geminas e na luta pela assistência estudantil.
DC: Você por você:
VT: Gosto de me encarar como um menino sonhador que tem fé na humanidade, em sua diversidade e colaboração, e que acredita na espiritualidade e na arte como dimensões intrinsecamente humanas.
Entrevistado: Vitor Hugo Teixeira
Entrevista concedida em: 14 de maio de 2026
Formato de entrevista: Escrita
Redação da Apresentação: Larissa Alves
Fotografia: Vitor Hugo Teixeira
Diagramação: Larissa Alves










