
Sexualidades, vivências LGBTQIAPN+ e formação humana – Entrevista com Rudson Luz

Sexualidades, vivências LGBTQIAPN+ e formação humana – Entrevista com Rudson Luz
Rudson Adriano Rossato da Luz
rudsonadrianor@yahoo.com.br
Sobre o entrevistado
Em 2025, Rudson Adriano Rossato da Luz defendeu sua tese pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade de Caxias do Sul, sob orientação do Prof. Dr. Vanderlei Carbonara e coorientação do Prof. Dr. Fernando Pocahy.
Natural de Passo Fundo (RS), Rudson tem formação em História e atua na Sincroniza Educação, onde trabalha com coordenação de projetos educacionais. Entre seus hobbies está jogar vôlei.
Sua tese, intitulada “Eu sou a bicha que vos fala! Diálogos e devaneios sobre gêneros, sexualidade e outras formações possíveis”, desenvolve uma pesquisa teórica sobre gêneros, sexualidades e formação humana, articulada à sua vivência como pessoa LGBTIAPN+. O estudo dialoga com autores como Michel Foucault, Judith Butler, Paul B. Preciado e Megg Rayara Gomes de Oliveira, além de outras pessoas LGBTQIAPN+ que pesquisam e produzem conhecimento sobre o tema. A pesquisa organiza-se entre diálogos com referenciais teóricos e devaneios reflexivos, nos quais o autor elabora possibilidades de pensar outras formações humanas.
Divulga-CI (DC): O que te levou a fazer o doutorado e o que te inspirou na escolha do tema da tese?
Rudson Luz (RL): Ingressei no mestrado 14 anos depois da conclusão da graduação. Como pessoa que morava na periferia de Passo Fundo, acreditei que a graduação era o ponto final da minha formação acadêmica. Ao concluir o mestrado, em 2020, entendi que esse lugar também era meu, e que iria dar continuidade, cursando o doutorado. Pesquiso esse tema desde o mestrado, o que me auxiliou a reelaborar as agressões verbais e psicológicas constantes que sofri na escola, durante o Ensino Fundamental, por não atender as expectativas de masculinidade. Utilizei o termo “bicha”, como forma de contrapor aquilo que fui por muito tempo chamado. A bicha que era agredida e motivo de deboche, aqui é a bicha que fala e escreve uma tese.
DC: Em qual momento de seu tempo no doutorado você teve certeza que tinha uma “tese” e que chegaria aos resultados e conclusões alcançados?
RL: No último ano do doutorado, entendi que meu texto tinha coesão, coerência e seguia um fio lógico. Em relação a ter uma tese, eu tive certeza realmente, quando a banca assim o disse.
DC: Citaria algum trabalho ou ação decisiva para sua tese? Quem é o autor desse trabalho, ou ação, e onde ele foi desenvolvido?
RL: A obra “O diabo em forma de gente: (r)existências de gays afeminados, viados e bichas pretas na educação”, oriunda da tese da profa. Dra. Megg Rayara Gomes de Oliveira (UFPR), foi fundamental para a construção da minha tese. Através da sua abordagem, consegui entender a importância de se colocar dentro do texto, não apenas escrevendo ele em primeira pessoa, mas também construindo essa lógica narrativa-argumentativa, que entrecruza os textos das pessoas autoras com a minha própria vivência.
DC: Por que sua tese é um trabalho de doutorado, o que você aponta como ineditismo?
RL: O que valida a tese como tal, por si só, já é o seu elemento inédito. No meu caso, entendo que o inédito está na estrutura da tese – os diálogos e os devaneios, bem como nos próprios diálogos que estabeleço, com as pessoas autoras.
DC: Em que sua tese pode ser útil à sociedade?
RL: Para ampliar o conhecimento sobre gêneros, sexualidades, educação e a formação humana.
DC: Quais são as contribuições de sua tese? Por quê?
RL: Muitas pessoas LGBTs ainda sofrem diversos tipos de violências, sejam elas físicas, verbais ou simbólicas. Acredito que, produzir conhecimento sobre esse tema, contribuirá para ampliar as discussões sobre gêneros e sexualidades, entendendo que não há nada natural quando falamos disso, há processos sociais que naturalizaram apenas uma forma de existir – a heterocisgeneridade – enquanto tornaram as demais existências anormais, patológicas, e passíveis de serem questionadas.
DC: Quais foram os passos que definiram sua metodologia de pesquisa?
RL: Quando trabalhamos com pesquisas exclusivamente teóricas, a metodologia se resume, basicamente, a leitura e interpretação dos textos das pessoas autoras, e a partir disso, a escrita do texto. Contudo, cabe questionar constantemente qual ou quais conceitos de cada autora serão utilizados, quais obras serão lidas e como interpretar o texto, de modo a não contradizer o argumento da pessoa. Então, apesar de parecer simples, realizar uma pesquisa exclusivamente teórica pode ser um tanto desafiador, pois é necessário descrever de forma muito minuciosa todo o caminho percorrido na pesquisa.
DC: Em termos percentuais, quanto teve de inspiração e de transpiração para fazer a tese?
RL: Inspiração depende de processo criativo, o que depende de tempo livre para ler, escrever, afastar-se do texto por um período e voltar para ele. Isso nem sempre foi possível durante a construção da tese, devido principalmente ao fato de eu ser um estudante-trabalhador. Por isso, entendo que 30% foi inspiração, o restante, precisou ser transpiração mesmo.
DC: Teria algum desabafo ou considerações a fazer em relação à caminhada até a defesa e o sucesso da tese?
RL: O processo do doutoramento não é fácil: pesquisar, cursar as disciplinas, publicar, organizar e participar de eventos… tudo isso conjuntamente com a rotina de trabalhar 40h por semana e tentar ter momentos para descanso e lazer. A pesquisa e construção do conhecimento é, na maioria das vezes, um processo solitário de criação, o que nem sempre é tão fácil.
DC: Como foi o relacionamento com a família durante o doutorado?
RL: Meu marido sempre me apoiou em todo este processo – o que foi fundamental na construção da tese. Então, sempre me senti muito tranquilo em manifestar as renúncias que precisaria fazer (principalmente aos finais de semana), para ficar em casa, estudando. O Robson é a pessoa que sempre está ao meu lado, me apoiando e torcendo pelas minhas conquistas.

DC: Qual foi a maior dificuldade de sua tese? Por quê?
RL: Com certeza, o tempo. Construir a tese trabalhando 40h semanais foi um grande desafio, pois eu precisei utilizar o período da noite e os finais de semana, o que acaba por ser exaustivo. Então, nos últimos anos, praticamente não tive momentos livres, pois sempre estive trabalhando, ou construindo a tese.
DC: Que temas de doutorado citaria como pesquisas futuras possíveis sobre sua tese?
RL: Acredito que há algumas possibilidades. Uma delas, é trabalhar com os conceitos das pessoas autoras clássicas para o tema de gêneros e sexualidades, que trabalhei na tese: o anormal, de Michel Foucault, o abjeto, de Judith Butler e o monstro, de Paul B. Preciado. Também, há uma autora, a qual entendo que pode ser muito explorada: Megg Rayara Gomes de Oliveira. Trabalhei com o conceito de diabo, trazido por ela na sua tese. Contudo, para além desse conceito, ela têm muitas contribuições nas áreas dos estudos trans, da educação e da interseccionalidade, os quais possibilitarão ainda muitos estudos.
DC: Quais suas pretensões profissionais agora que você se doutorou?
RL: Continuar pesquisando e publicando, para ampliar meus conhecimentos na área de gêneros, sexualidades e educação. Além disso, pensar em um pós-doutorado e também retornar para a carreira do magistério do Ensino Superior.
DC: O que faria diferente se tivesse a chance de ter começado sabendo o que sabe agora?
RL: Teria delimitado o tema de pesquisa com mais tempo. Demorei para tomar essas decisões, o que acabou me deixando com um tempo menor para seguir com a escrita da tese.
DC: Como você avalia a sua produção científica durante o doutorado? Já publicou artigos ou trabalhos resultantes da pesquisa? Quais você aponta como os mais importantes?
RL: Minha produção foi intensa, nesses quatro anos: além de 3 artigos publicados (1 em uma revista A1 e dois em revistas A2), realizo um evento acadêmico intitulado “Diálogos Dissidentes na Educação”, desde 2022 na universidade. Nele, pessoas dissidentes sexuais e de gênero apresentam suas pesquisas e contribuições para a educação. Também participei de muitos eventos, seja apresentando trabalhos, seja coordenando meses de discussão. Contudo, acredito que o maior impacto têm sido nas formações sobre gêneros e sexualidades que realizo com grupos de professores, estudantes de diferentes cursos de graduação, além de profissionais da saúde e da assistência.
DC: Exerceu alguma monitoria / estágio docência durante o doutorado? Como foi a experiência?
RL: Realizei estágio de docência na disciplina de Filosofia da Educação, atuando juntamente com o meu orientador. Apesar de já possuir experiência com estudantes de graduação, foi o momento de estar acompanhando um docente com bastante experiência, bem como de poder apresentar parcialmente minhas pesquisas.
DC: Elas contribuíram em sua tese? De que forma?
RL: Sim, pois foi a oportunidade de apresentar aos estudantes de diferentes cursos de licenciatura uma parte das minhas pesquisas, e entender a importância de trazer para a formação de professores os debates sobre gêneros, sexualidades e educação.
DC: Agora que concluiu a tese, o que mais recomendaria a outros doutorandos e mestrandos que tomassem seu trabalho como ponto de partida?
RL: Minhas sugestões vão no sentido de sempre pensar: qual é a função social da minha pesquisa. Dizendo de outro modo, quem vai se beneficiar com ela? Além disso, não tenham medo de ousar, de colocar-se dentro do texto e escrever uma dissertação ou tese que estejam realmente encarnadas.
DC: Como acha que deve ser a relação orientador-orientando?
RL: A partir da minha relação com orientador e coorientador, posso dizer que precisa ser uma relação pautada pelo respeito, liberdade e confiança. Assim foi a minha relação com eles, o que possibilitou as melhores condições possíveis para a construção da tese.
DC: Sua tese gerou algum novo projeto de pesquisa? Quais suas perspectivas de estudo e pesquisa daqui em diante?
RL: Não gerou, mas contribui para ampliar o projeto de pesquisa do meu orientador. A partir de agora, pretendo dar seguimento aos estudos, sejam através de publicações, ou até mesmo de um pós-doutorado, investigando mais sobre política queer.
DC: O que o Programa de Pós-Graduação fez por você e o que você fez pelo Programa nesse período de doutorado?
RL: O PPGEdu da UCS me acolheu, acolheu o meu tema de pesquisa e acreditou em mim – mais do que eu mesmo. E isso fez toda a diferença, pois me deu segurança para pesquisar um tema que gera muitas críticas (inclusive, no meio acadêmico). De minha parte, trabalhei para realizar a melhor tese possível, sempre levando o nome do PPGEdu junto, além de ter convidado um coorientador de outra instituição, estreitando os laços entre o PPG com outros pesquisadores.
DC: Você por você:
SN: Como escrevo na minha apresentação da tese “um sobrevivente”. Alguém que tem pulsão por viver, e que, continuará lutando, até que todos os armários (inclusive, os epistemológicos), sejam derrubados!
Entrevistado: Rudson Adriano Rossato da Luz
Entrevista concedida em: 24 de abril de 2026
Formato de entrevista: Escrita
Redação da Apresentação: Marcelly Yasmim Portela Trindade
Fotografia: Rudson Adriano Rossato da Luz
Diagramação: Marcelly Yasmim Portela Trindade










