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v. 4, n. 06, jun. 2026
Literatura queer, redes sociais e produção cultural de fãs – Entrevista com Leandra Alencar

Literatura queer, redes sociais e produção cultural de fãs – Entrevista com Leandra Alencar

Literatura queer, redes sociais e produção cultural de fãs – Entrevista com Leandra Alencar

Leandra Alencar Soares Lima de Passo
leandra.alencar.passo@gmail.com

Sobre a entrevistada

Em 2025, Leandra Alencar Soares Lima de Passo defendeu sua dissertação pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal do Ceará, sob orientação da Profa. Dra. Lidia Eugenia Cavalcante.

Leandra é bibliotecária e mestra em Ciência da Informação pela Universidade Federal do Ceará. Atualmente, é estudante de doutorado na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), com bolsa CAPES PROEX. Entre seus hobbies estão a leitura de livros e fanfics, além de ir ao cinema.

Sua dissertação, intitulada “Se a vida imitasse a arte: mediações em rede na cultura participativa dos fãs de literatura queer como estímulo para adaptações audiovisuais”, investigou como fãs de literatura LGBTQIAPN+ realizam a mediação da informação sobre livros e adaptações para filmes e séries nas redes sociais. O estudo analisou a comunidade brasileira fã da obra Vermelho, Branco e Sangue Azul, de Casey McQuiston, analisando como páginas criadas por fãs se constituem como espaços de acolhimento, pertencimento, inclusão e produção cultural. A pesquisa aponta que a mediação da informação realizada por fãs influencia adaptações literárias, fortalece espaços digitais inclusivos para a comunidade LGBTQIAPN+ e evidencia o papel dos fãs nas transformações culturais, políticas e sociais.

Divulga-CI (DC): O que te levou a fazer o mestrado e o que te inspirou na escolha do tema da dissertação?

Leandra Alencar (LA): A minha experiência na graduação como bolsista do Programa de Iniciação à Docência foi, sem dúvidas, o começo de tudo. Quando iniciei o curso de Biblioteconomia, lá em 2019, minhas primeiras paixões foram a Mediação da Leitura e a Editoração. No entanto, quando a UFC retomou as aulas presenciais em 2022, após o período de isolamento social devido à pandemia de Covid-19, tive a oportunidade de ser bolsista remunerada, desenvolvendo atividades de ensino com os alunos da disciplina Linguagens Documentárias Alfanuméricas – CDU. Nessa época, passei a ver a experiência docente com outros olhos, assim como a pesquisa. A partir daí, no meu último semestre da graduação, tentei o processo seletivo para o mestrado, tomada por um misto de incerteza (será que devo ingressar no mercado de trabalho ou seguir a minha intuição?) e a vontade de continuar falando sobre o meu interesse de pesquisa, ou seja, das práticas leitoras das comunidades de fãs de literatura LGBTQIAPN+ na internet. Além disso, minha mãe também foi minha inspiração, pois ela me incentivou a pesquisar algo que amo e que faz parte da minha vida pessoal. 

DC: Quem será o principal beneficiado pelos resultados alçados?

LA: Os principais beneficiados pelos resultados da pesquisa são os leitores, fãs e criadores de conteúdo nas redes sociais, mas acredito que, para além desses públicos, todas, todos e todes que encontram na literatura um espaço para apropriação e acolhimento. Além disso, observo em conversas com jovens pesquisadores da Biblioteconomia e Ciência da Informação o interesse pela oportunidade de unir a paixão por algo de que se é fã, suas vivências pessoais e a ciência, e acredito que estudos como o meu, que evidenciam e dão espaço para discutir a produção dos fãs, podem ser transformadores.

DC: Quais as principais contribuições que destacaria em sua dissertação para a ciência e a tecnologia e para a sociedade?

LA: Penso que a principal contribuição para a ciência e a tecnologia da minha dissertação é demonstrar que a mediação da informação não ocorre apenas em ambientes tradicionais, mas também em espaços informais, como as redes sociais, a partir da atuação dos fãs. Apesar de muitos destes não serem profissionais como pessoas bibliotecárias, arquivistas, museólogos e agentes culturais, por exemplo, a pesquisa apresenta uma característica interessante, que é justamente a habilidade desses fãs em desenvolverem práticas mediadoras com base nas suas experiências e nas interações dentro das comunidades. Em relação à contribuição para a sociedade, penso que ela se manifesta também no reconhecimento e visibilidade do trabalho realizado por fãs de literatura LGBTQIAPN+, que frequentemente é considerado apenas um hobby ou uma forma de entretenimento pelas pessoas. 

DC: Seu trabalho está inserido em que linha de pesquisa do Programa de Pós-Graduação? Por quê?

LA: No contexto do PPGCI-UFC, meu trabalho está inserido na Linha 2 – Informação, sociedade e cultura, porque investiguei as práticas de mediação da informação promovidas por fãs de literatura LGBTQIAPN+ nas redes sociais digitais, no caso a página VBSA Brasil no X. Minha pesquisa aborda contextos socioculturais, analisa os processos de circulação, apropriação e usos da informação por uma comunidade específica de fãs e apresenta um estudo sobre a produção e disseminação da informação, temas que são contemplados na ementa e nas pesquisas desenvolvidas na linha. 

DC: Citaria algum trabalho ou ação decisiva para sua dissertação? Quem é o autor desse trabalho, ou ação, e onde ele foi desenvolvido?

LA: Na Ciência da Informação, minhas principais referências foram as pesquisas desenvolvidas por autorias como Henriette Ferreira Gomes, Gisele Rocha Cortês, Oswaldo Francisco de Almeida Júnior, Lidia Eugenia Cavalcante, João Arlindo dos Santos Neto e Carlos Alberto Ávila de Araújo, com foco na mediação. Nas áreas afins, destaco como exemplos os trabalhos de Judith Butler, Michel Foucault, Henry Jenkins, Guacira Lopes Louro, Renan Quinalha, Richard Miskolci e Michèle Petit. Contudo, gostaria de acrescentar que a obra Vermelho, Branco e Sangue Azul, de Casey McQuiston, também foi decisiva para minha dissertação. Digo isso porque foi a partir da leitura desse livro e da minha imersão no fandom que surgiu o interesse em investigar as práticas de mediação da informação realizadas pelos fãs na internet. 

DC: Quais foram os passos que definiram sua metodologia de pesquisa?

LA: Sou muito detalhista, então a metodologia inicial, ou seja, a da dissertação na fase de projeto, passou por uma série de alterações. Acredito que o primeiro passo foi definir o objeto da pesquisa, o livro Vermelho, Branco e Sangue Azul, e sua adaptação para filme lançada em 2023. Em seguida, quando finalmente entendi o que a minha problemática e objetivos pediam, consegui estabelecer o desenho metodológico da pesquisa. Eu já sabia que gostaria de fazer entrevistas e aplicar o questionário online, pois queria compreender a visão de quem produz conteúdo (os administradores) e a de quem consome (os seguidores). Então isso me ajudou a decidir alguns aspectos, como, por exemplo, usar a combinação do método fenomenológico com a Análise de Conteúdo de Laurence Bardin (2011), e criar as categorias temáticas de análise (1 – Caracterização do tipo de fã (produtor ou consumidor); 2 – Experiência como fã no fandom; 3 – Práticas de mediação e da cultura participativa na internet; e 4 – Percepções acerca da adaptação audiovisual da obra). Foi a partir dessas categorias, da leitura dos textos que fundamentaram as seções teóricas e da interpretação dos dados coletados que consegui analisar as práticas de mediação da informação sob a ótica dos fãs.

DC: Quais foram as principais dificuldades no desenvolvimento e escrita da dissertação?

LA: Respeitar o meu corpo e entender que às vezes eu precisaria me ausentar da vida das pessoas que amo. Durante a escrita da dissertação, passei por um longo processo de adaptação, por questões pessoais. Então penso que o maior desafio foi o de aceitar que nem sempre conseguiria escrever naquele momento e que é preciso se perdoar por não ser a pessoa presente. A terapia me ajudou bastante, assim como a compreensão e carinho dos familiares e amigos.

DC: Em termos percentuais, quanto teve de inspiração e de transpiração para fazer a dissertação?

LA: Provavelmente 40% inspiração e 60% transpiração. A escolha do tema da pesquisa foi motivada pelas obras LGBTQIAPN+ que li, pelas interações online com outros fãs e pelos meus irmãos, que são as pessoas que mais amo e que me inspiram a lutar por um mundo melhor. Sobre as dificuldades, penso que encontrar material na Ciência da Informação que pudesse dialogar com a Teoria Queer e a cultura de fãs, organizar o meu tempo de estudos e lidar com a autossabotagem. Em alguns momentos, a gente escuta aquela vozinha no fundo da nossa cabeça dizendo que não vamos conseguir dar conta, e por isso travamos. Contudo, é importante persistir e provar que esses pensamentos não são reais, mas nossas inseguranças falando.

DC: Teria algum desabafo ou considerações a fazer em relação à caminhada até a defesa e o sucesso da dissertação?

LA: Depois de certo tempo, a caminhada até a defesa pode ser um pouco solitária, marcada por medos e desafios. Apesar disso, considero que o sucesso da dissertação é resultado não apenas do meu esforço, mas da partilha de cada pessoa que contribuiu para que essa pesquisa pudesse existir. Por isso, sempre vou transbordar gratidão.

DC: Como foi o relacionamento com a família durante o doutorado?

LA: De muito suporte, carinho e amor. Sou a primeira filha e neta com mestrado, e isso tem um peso ainda maior para mim, pois a minha família sempre me incentivou a estudar e lutar pelos meus sonhos. De fato, a maior riqueza que eu poderia herdar, como costumava ouvir na infância e adolescência. É claro que, em muitos momentos, precisei estar ausente, mas saber que a minha família estaria ali para me apoiar foi crucial na minha jornada acadêmica.

DC: Agora que concluiu a dissertação, o que mais recomendaria a outros mestrandos que tomassem seu trabalho como ponto de partida?

LA: É gratificante pensar que minha dissertação possa servir de referência para outras pesquisas. Portanto, gostaria de comentar que os resultados apresentados, apesar de refletirem as vivências de várias pessoas LGBTQIAPN+ que se identificam com a literatura e a cultura de fãs, configuram apenas um ponto de vista dentre tantos outros que podem ser abordados no campo científico, afinal, ainda existem muitas lacunas nos estudos sobre informação, visibilidade e acolhimento LGBTQIAPN+ tanto na Ciência da Informação quanto fora dela. Além disso, indicaria pesquisar aquilo que amam. Embora seja um conselho clichê, acredito que nunca sai de moda, especialmente porque, quando tudo fica mais difícil, lembrar que aquele tema foi escolhido por afinidade ajuda bastante a suavizar as incertezas e bloqueios. 

DC: Como você avalia a sua produção científica durante o mestrado? Já publicou artigos ou trabalhos resultantes da pesquisa? Quais você aponta como os mais importantes?

LA: Considero minha produção bem diversa e alinhada com as temáticas que englobam a dissertação e demais interesses de pesquisa. No mestrado, pude publicar 2 artigos, sendo um deles uma ampliação do texto premiado como 2⁰ melhor trabalho completo do GT 11 no Encontro Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Ciência da Informação (ENANCIB), em 2022. O artigo em questão é intitulado “Que nada nos limite: contemplações acerca da literacia em saúde feminina na Ciência da Informação”, escrito em parceria com Tayssa Nobre Lobo e as professoras doutoras Maria de Fátima Oliveira Costa e Lidia Eugenia Cavalcante, nossas orientadoras na época. Também publiquei 2 capítulos de livros e 4 trabalhos completos nos anais do ENANCIB em 2023 e 2024. Após a defesa da dissertação, continuei trabalhando na produção científica, publicando mais 2 artigos, um trabalho completo e 4 resumos expandidos com docentes e discentes da área. Atualmente estou desenvolvendo os artigos resultantes da pesquisa. 

DC: Desde a conclusão da dissertação, o que tem feito e o que pretende fazer em termos profissionais?

LA: Agora estou cursando o doutorado em Ciência da Informação na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) e concluindo uma especialização a distância em Divulgação Científica pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ). Também continuo desenvolvendo meus interesses de pesquisa em artigos, resumos e demais produções acadêmicas. Quanto aos meus planos profissionais, pretendo continuar pesquisando e me aperfeiçoando nas práticas docentes, pois ser professora é um sonho que almejo com todo o meu coração. 

DC: O que faria diferente se tivesse a chance de ter começado sabendo o que sabe agora?

LA: Acredito que teria sido mais gentil e amável comigo. A gente tem a mania de querer “abraçar o mundo”, e no mestrado 2 anos passam voando, né? Temos pouco tempo e maturidade, então é compreensível que, no meio do caminho, apareçam as frustrações. Então aprendi que está tudo bem desacelerar e, principalmente, me priorizar. Às vezes vamos errar, e é importante saber respeitar tais erros e nossos próprios limites. Ser pesquisador envolve entrega, dedicação, criatividade, dias bons e ruins, e tantos outros aspectos que, muitas vezes, exigem tudo e mais um pouco de nós. Por isso, é crucial saber a hora de respirar fundo, entender que algumas coisas levam tempo e que um erro não significa uma derrota, mas uma nova chance de tentar e aprender algo que pode fazer toda a diferença na pesquisa e na trajetória acadêmica. 

DC: O que o Programa de Pós-Graduação fez por você e o que você fez pelo Programa nesse período de mestrado?

LA: A experiência com o PPGCI-UFC foi a melhor possível! A Universidade Federal do Ceará (UFC) foi a minha segunda casa durante a graduação e o mestrado, por isso devo tudo a esta instituição. Minha primeira viagem para fora do estado do Ceará, em 2023, para o ENANCIB em Aracaju-SE, assim como a primeira para outro país, em 2024, só foram possíveis graças ao programa, ao apoio que recebi e às parcerias, como o período que passei na Universität Vechta, na Alemanha, resultado do convênio com a UFC. Nada disso teria sido viável sem o suporte do programa, dos docentes e demais profissionais que trabalham no PPGCI. Como aluna, dediquei-me ao máximo para retribuir todo o suporte recebido. Cito como exemplos a minha atuação como representante discente entre 2023 e 2025, a participação em alguns eventos da área, publicação de artigos e outras produções, e a participação como membro do projeto de extensão e ação de divulgação científica Ciência na Cuca, do ProextPG/UFC, coordenado pela Profa. Dra. Maria Giovanna Guedes Farias.

DC: Você por você: 

LA: Sou a irmã e filha mais velha, então percebi, depois de muitos anos, que três palavras me definem bem como pessoa e pesquisadora: amor, dedicação e persistência. Sempre busquei ser amorosa, tanto pela criação que tive dos meus pais como pela minha vontade de plantar amor em cada aspecto da minha vida, e isso inclui a pesquisa. A dedicação é um reflexo da persistência. Tudo o que faço, seja no âmbito profissional ou pessoal, é feito com atenção e empenho, pois acredito que a constância e o zelo são pontos-chave para se alcançar bons resultados. Tenho muito orgulho da minha dissertação e do que conquistei e continuo conquistando graças a ela, das trocas no ambiente acadêmico e de tudo aquilo que aprendi com cada pessoa que fez parte da pesquisa, direta ou indiretamente. 


Entrevistado: Leandra Alencar Soares Lima de Passo
Entrevista concedida em:  20 de abril de 2026
Formato de entrevista: Escrita
Redação da Apresentação: Marcelly Yasmim Portela Trindade
Fotografia: Leandra Alencar Soares Lima de Passo
Diagramação: Marcelly Yasmim Portela Trindade

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