
Avaliação de desempenho em biblioteca universitária – Entrevista com Edonéia Miranda

Avaliação de desempenho em biblioteca universitária – Entrevista com Edonéia Miranda
Edonéia Sampaio da Silva Miranda
edoneia.sampaio@unir.br
Sobre a entrevistada
Em 2025, Edonéia Sampaio da Silva Miranda defendeu sua dissertação pelo Programa de Mestrado Profissional em Administração Pública (PROFIAP), em Porto Velho, sob orientação da Profa. Dra. Estela Pitwak Rossoni.
Natural de Campo Grande (MS), Edonéia é bibliotecária junto ao Sistema de Bibliotecas da Universidade Federal de Rondônia (SIBI/UNIR). Atualmente, Edonéia realiza o doutorado em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente da Universidade Federal de Rondônia. Entre seus hobbies estão a leitura e o interesse por documentários.
Sua dissertação, intitulada “Avaliação de Desempenho em Biblioteca Universitária: proposta de modelo”, parte da compreensão de que a biblioteca universitária existe para conectar pessoas ao conhecimento. Desenvolvida no SIBI/UNIR, a pesquisa propõe um modelo de avaliação composto por 13 indicadores, elaborados com base nos instrumentos do MEC/INEP, na norma ISO 11620:2023 e nas diretrizes da IFLA. Esses indicadores estão distribuídos em seis áreas – pessoas, acervo, infraestrutura, usuários, finanças e processos – e buscam mensurar a qualidade dos serviços, bem como seu impacto no contexto acadêmico. Com as devidas adaptações, espera-se que o modelo possa servir de referência para outras instituições.
Divulga-CI (DC): O que te levou a fazer o mestrado e o que te inspirou na escolha do tema da dissertação?
Edonéia Miranda (EM): O desejo de cursar o mestrado estava latente há algum tempo. Foi a amiga Naiara quem primeiro me incentivou a acreditar que era possível, e o Marcelo que seguiu me motivando a cursar o PROFIAP. Quando passei na seleção em 2023, sabia que queria pesquisar algo com aplicação prática no meu trabalho cotidiano. Como bibliotecária do SIBI/UNIR, percebia que avaliávamos o desempenho das bibliotecas quase exclusivamente para atender às exigências do MEC — e não para nos melhorarmos por iniciativa própria. Esse incômodo se transformou na pergunta de pesquisa e, depois, na dissertação
DC: Quem será o principal beneficiado pelos resultados alçados?
EM: O beneficiado mais imediato é o próprio SIBI/UNIR — gestores que passam a contar com um instrumento para tomar decisões mais informadas, e servidores que podem se engajar num processo real de melhoria contínua. Mas o benefício se expande: estudantes, professores e técnicos que dependem da biblioteca no dia a dia ganham quando ela funciona melhor. E, de forma mais ampla, outras bibliotecas universitárias brasileiras podem adaptar o modelo à sua própria realidade.
DC: Quais as principais contribuições que destacaria em sua dissertação
para a ciência e a tecnologia e para a sociedade?
EM: Para a ciência, a dissertação reúne, em um único modelo, indicadores de três referenciais distintos — a norma ISO 11620:2023, as diretrizes da IFLA e os instrumentos do MEC/INEP — aplicados ao contexto de uma biblioteca universitária pública da Amazônia. São ainda poucos os estudos que fazem essa articulação no Brasil. Para a tecnologia, vale destacar que o mestrado profissional exige a entrega de um produto técnico-tecnológico — e o modelo de avaliação de desempenho é exatamente isso: um instrumento aplicável, pronto para ser testado e adaptado. Para a sociedade, uma biblioteca bem gerida tem impacto direto na qualidade do ensino superior — e um modelo de avaliação ajuda a evidenciar esse impacto e a fundamentar cobranças por melhorias.
DC: Seu trabalho está inserido em que linha de pesquisa do Programa de Pós Graduação? Por quê?
EM: O trabalho está inserido na linha voltada à gestão de organizações públicas e melhoria do desempenho institucional,. A escolha faz sentido porque o SIBI/UNIR é uma unidade organizacional de uma autarquia federal, e as questões investigadas — gestão por resultados, indicadores de desempenho e avaliação organizacional — são temas clássicos da Administração Pública. A interdisciplinaridade com a Ciência da Informação enriqueceu a pesquisa, trazendo perspectivas específicas sobre a gestão de bibliotecas que nem sempre são exploradas no campo administrativo.
DC: Citaria algum trabalho ou ação decisiva para sua dissertação? Quem é o autor desse trabalho, ou ação, e onde ele foi desenvolvido?
EM: Sim. Nídia Maria Lienet Lubisco é uma referência importante na avaliação de bibliotecas universitárias no Brasil. Em seus trabalhos, especialmente o de 2008, ela discute a necessidade de a biblioteca universitária ir além das exigências do MEC/INEP e desenvolver instrumentos próprios de planejamento, gestão e controle, o que dialoga diretamente com a orientação da minha pesquisa.
DC: Quais foram os passos que definiram sua metodologia de pesquisa?
EM: O primeiro passo foi mergulhar na literatura — levantei o que já havia sido pesquisado sobre avaliação de desempenho em bibliotecas universitárias no Brasil, para entender o problema e construir a base teórica do trabalho. Analisei os documentos institucionais do SIBI/UNIR — regimentos, relatórios, planos de gestão — para entender como as bibliotecas estavam organizadas. Depois, fiz entrevistas com os gestores para ouvir diretamente suas percepções. Por fim, apliquei um questionário a todos os bibliotecários do sistema. Ao cruzar essas três fontes — documentos, entrevistas e questionários —, consegui construir um retrato mais fiel da realidade para poder então selecionar os indicadores apropriados para o modelo proposto.
DC: Quais foram as principais dificuldades no desenvolvimento e escrita da dissertação?
EM: A maior dificuldade foi a ausência de um planejamento estratégico formalizado no SIBI/UNIR. Sem metas e objetivos claramente definidos, fica difícil selecionar indicadores que façam sentido — porque um indicador precisa medir o quanto você está se aproximando de um objetivo. Além disso, a literatura brasileira sobre avaliação de desempenho específica para bibliotecas universitárias ainda é escassa, o que exigiu um esforço maior para dialogar com referenciais internacionais. Conciliar a licença para escrita com a pressão por um resultado rigoroso foi, ao mesmo tempo, um privilégio e uma responsabilidade enorme.
DC: Em termos percentuais, quanto teve de inspiração e de transpiração para fazer a dissertação?
EM: Diria que foi 20% de inspiração e 80% de transpiração. A ideia veio de um incômodo real do trabalho. Mas transformá-la em uma pesquisa exigiu muita leitura, reescrita e revisão. Tive oito meses de licença dedicados exclusivamente à escrita do manuscrito, e mesmo assim houve momentos de dúvida e de não enxergar o fim do túnel. Aprendi que a transpiração faz parte — e que cada etapa vencida fortalece a próxima.
DC: Teria algum desabafo ou considerações a fazer em relação à caminhada até a defesa e o sucesso da dissertação?
EM: O mestrado profissional exige muito de quem trabalha e precisa se afastar temporariamente para escrever. É uma pressão constante para produzir algo academicamente rigoroso sem perder o contato com a prática. Quero destacar que a defesa em fevereiro de 2025 foi um momento muito especial. A dissertação recebeu Menção Honrosa da Profa. Walterlina Brasil e foi sugerido submeter ao Prêmio de Melhor Dissertação do PROFIAP pelo Prof. Rosemar Hall — indicações acompanhadas por unanimidade pela banca. Foi uma confirmação de que o esforço e a escolha do tema tinham sentido.
DC: Como foi o relacionamento com a família durante este tempo?
EM: Meu marido, José Sampaio, foi meu maior incentivador durante todo o processo. Sem o apoio dele, seria muito mais difícil manter o foco nos momentos de cansaço e dúvida. E os meus filhos de quatro patas — Joaquim e Bento — tornaram as longas horas de escrita mais leves, sempre por perto, como só um animal de estimação sabe fazer. A família entendeu os fins de semana dedicados à pesquisa e os momentos de ausência mental. Esse suporte foi fundamental.
DC: Agora que concluiu a dissertação, o que mais recomendaria a outros mestrandos que tomassem seu trabalho como ponto de partida?
EM: Para quem pretende cursar um mestrado profissional, minha primeira recomendação é: observe a rotina do trabalho. As perguntas de pesquisa mais potentes nascem dos problemas que você encontra toda semana e que incomodam sem ter resposta pronta — mas é a teoria que transforma esse incômodo em ciência. Uma coisa não existe sem a outra. Para quem quiser partir do meu trabalho especificamente, recomendo testar o modelo em outras bibliotecas universitárias e, principalmente, avaliar o impacto depois da implementação — algo que minha pesquisa não chegou a fazer por limitações de escopo. Também vale ampliar o olhar para a percepção dos usuários: o que estudantes e professores pensam sobre a biblioteca é um dado precioso que ainda carece de mais atenção na literatura.
DC: Como você avalia a sua produção científica durante o mestrado? Já publicou artigos ou trabalhos resultantes da pesquisa? Quais você aponta como os mais importantes?
EM: Durante o mestrado, publiquei artigos voltados às ferramentas de gestão aplicadas ao contexto de bibliotecas, além do artigo diretamente derivado da dissertação. Também participei de eventos científicos da área, o que foi fundamental para amadurecer as ideias da pesquisa pelo diálogo com outros pesquisadores.
Um trabalho que destaco com especial carinho é o capítulo “Indicadores para avaliação de desempenho organizacional em unidade de informação“, publicado no livro Gestão de Bibliotecas e Unidades de Informação: práticas e perspectivas contemporâneas (Selo Nyota, 2025), organizado pelas professoras Daniela Spudeit e Valéria Martin Valls. O capítulo foi escrito em parceria com as professoras Aurineide Braga, Ione Gama e Tatiane Gomes, e nasceu de uma iniciativa coletiva de docentes preocupados com a escassez de literatura prática na área de gestão em Biblioteconomia.
DC: Desde a conclusão da dissertação, o que tem feito e o que pretende fazer em termos profissionais?
EM: Após a defesa, em fevereiro de 2025, aproveitei os meses seguintes para descansar e me reorganizar — o que foi muito necessário depois de oito meses de afastamento intenso para a escrita do manuscrito. Esse período de pausa foi importante para recarregar as energias antes do próximo passo.
DC: Pretende fazer doutorado? Será na mesma área do mestrado?
EM: Já estou cursando! Ingressei no PGDRA — Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente da UNIR — em setembro de 2025. É um doutorado interdisciplinar, e é justamente essa abertura que me atraiu: quero levar a Ciência da Informação para dentro dos debates sobre desenvolvimento regional e a realidade amazônica. É uma área diferente do mestrado em Administração Pública, mas o fio condutor continua o mesmo — informação, gestão e território. O endereço mudou, a inquietação é a mesma.
DC: O que faria diferente se tivesse a chance de ter começado sabendo o que sabe agora?
EM: Teria buscado, desde o início, uma aproximação maior com a literatura sobre planejamento estratégico em bibliotecas. Entender que um modelo de avaliação de desempenho precisa estar ancorado em objetivos bem definidos foi uma aprendizagem que veio no meio do caminho. Também teria reservado tempo mais estruturado para a escrita desde o começo. Aprendi que pesquisar é conviver com a incompletude: nenhum trabalho está perfeito quando você o entrega — e tudo bem, é esse o ponto de chegada para que outros partam dali.
DC: O que o Programa de Pós-Graduação fez por você e o que você fez pelo Programa nesse período de mestrado?
EM: O PROFIAP me deu algo que vai além do título: uma forma diferente de olhar para o meu trabalho, de formular perguntas mais precisas e de buscar respostas com rigor metodológico. Da minha parte, espero ter contribuído com uma pesquisa de aplicação direta em uma instituição federal da Amazônia, reforçando a relevância do Programa para a região Norte e abrindo caminho para investigações futuras sobre gestão de bibliotecas universitárias públicas.
DC: Você por você:
EM: Sou uma pessoa entusiasta, que ama conhecer lugares novos e aprende com tudo o que encontra pelo caminho. Gosto de ler e de documentários — talvez por isso a pesquisa me encante tanto: ela é, no fundo, uma forma organizada de satisfazer a curiosidade. Nasci em Campo Grande (MS) e me criei em Porto Velho (RO) — amo essa cidade que me acolheu e me proporcionou muitos frutos. Com 36 anos, sigo aprendendo que cada novo ciclo — seja o mestrado concluído, seja o doutorado que se inicia — é também um convite para conhecer um lugar novo.
Entrevistado: Edonéia Sampaio da Silva Miranda
Entrevista concedida em: 29 de março de 2025
Formato de entrevista: Escrita
Redação da Apresentação: Iasmim Farias Campos Lima
Fotografia: Edonéia Sampaio da Silva Miranda
Diagramação: Iasmim Farias Campos Lima










