
TYBYRA: corpos indígenas LGBTQIA+ em resistência, por Danilo Tupinikim

TYBYRA: corpos indígenas LGBTQIA+ em resistência
Danilo Tupinikim
Coletivo TYBYRA
contatotibiras@gmail.com
Existe uma narrativa muito difundida no Brasil de que ser indígena e ser LGBTQIA+ seriam experiências incompatíveis. Essa ideia não surgiu dentro dos nossos povos. Ela foi construída historicamente pelos processos de colonização, pela imposição da moral cristã europeia e pelas políticas de apagamento cultural que tentaram controlar nossos corpos, nossos territórios e nossas formas de existir. Antes da invasão colonial, diferentes povos indígenas reconheciam múltiplas formas de expressão de gênero, afetividade e sexualidade. O colonialismo transformou essa diversidade em perseguição, violência e silenciamento.
É nesse contexto que nasce o Coletivo TYBYRA, uma rede nacional de indígenas LGBTQIA+ criada em 2019 para construir espaços de autocuidado, organização política, formação e incidência dentro e fora do Movimento Indígena. O coletivo reúne parentes de diferentes povos e territórios que compartilham uma experiência comum: viver o cruzamento entre o racismo, a LGBTfobia, a violência territorial e a exclusão social. Nossa luta parte do entendimento de que não existe defesa dos povos indígenas sem defender também a diversidade existente dentro deles.

O nome TYBYRA carrega memória e denúncia. Tybyra foi um indígena Tupinambá assassinado pelos colonizadores franceses no século XVII após ser acusado de “sodomia”, termo utilizado à época para criminalizar existências dissidentes. Segundo registros históricos, foi amarrado à boca de um canhão e lançado ao mar em uma execução pública exemplar. Resgatar essa história é lembrar que a violência contra indígenas LGBTQIA+ não é recente: ela faz parte de um projeto colonial de controle sobre os corpos indígenas.
Ainda hoje, indígenas LGBTQIA+ convivem com diferentes formas de violência. Muitas delas acontecem dentro de um cenário marcado pela ausência de políticas públicas, expulsões familiares, discriminação institucional, racismo estrutural e violações territoriais. Em muitos casos, o preconceito é agravado pela precarização das condições de vida provocada pela invasão de terras indígenas, pela violência do agronegócio, do garimpo, da mineração e pela ausência de políticas públicas desde um olhar interseccional em áreas fundamentais como saúde, educação e proteção social.
Os dados existentes ajudam a demonstrar a gravidade desse cenário. O Brasil segue sendo um dos países mais violentos do mundo para pessoas trans e travestis. O Dossiê Assassinatos e violências contra travestis e transexuais brasileiras em 2025 da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) aponta que, mesmo com oscilações nos números anuais, o país continua liderando os índices globais de assassinatos de pessoas trans, especialmente travestis e mulheres trans negras e pobres. O documento também alerta para o aprofundamento da violência estrutural, da omissão estatal e da ausência de políticas públicas efetivas.
A violência contra indígenas trans e travestis possui especificidades ainda pouco visibilizadas. O próprio dossiê dedica um capítulo à relação entre colonialidade, transfobia e genocídio indígena, destacando como os ataques aos corpos dissidentes caminham junto com os ataques aos territórios indígenas. Não se trata apenas de violência individual, mas de um processo sistemático de apagamento cultural, político e social.
Outro dado alarmante diz respeito à saúde mental. De acordo com estudos publicados na revista The Lancet Regional Health – Americas, os índices de suicídio entre povos indígenas são superiores superiores à média nacional, especialmente entre jovens. Quando olhamos para indígenas LGBTQIA+, esse cenário se torna ainda mais delicado, pois muitas vezes essas pessoas enfrentam simultaneamente racismo, discriminação por identidade de gênero ou sexualidade, isolamento comunitário e ausência de políticas específicas de acolhimento. O sofrimento psíquico não pode ser tratado de forma individualizada; ele está diretamente relacionado às violências estruturais que atingem nossos povos.
Mas falar sobre indígenas LGBTQIA+ não é falar apenas sobre violência. É também falar sobre resistência, cuidado coletivo e construção política. O TYBYRA surge justamente para romper com o silêncio histórico imposto às nossas existências. Ao longo dos últimos anos, o coletivo tem fortalecido processos de formação política, encontros autogestionados, produção de materiais educativos, articulações nacionais e internacionais e espaços de acolhimento para parentes indígenas LGBTQIA+.
Nossa atuação parte do entendimento de que território e corpo estão profundamente conectados. Não existe Bem Viver enquanto corpos indígenas continuarem sendo alvo de violência, perseguição e apagamento. Da mesma forma, não existe possibilidade de existência segura para indígenas LGBTQIA+ sem a garantia dos direitos territoriais dos povos indígenas. Por isso, nossa luta também é pela demarcação das terras indígenas, pela proteção dos territórios e pela defesa da autonomia dos povos.

Seguimos enfrentando tentativas constantes de deslegitimar nossas existências. Discursos antigênero e campanhas de desinformação têm crescido no Brasil e no mundo, articulados por setores conservadores, fundamentalistas religiosos e autoritários. Esses ataques atingem diretamente pessoas LGBTQIA+, mulheres, negros, povos indígenas e outros grupos historicamente vulnerabilizados. Não é coincidência que as mesmas forças políticas que atacam os direitos indígenas também ataquem os direitos LGBTQIA+.
Diante disso, o fortalecimento das redes comunitárias e da organização coletiva se torna fundamental. O enfrentamento à violência passa pela escuta, pelo acolhimento, pela construção de espaços seguros e pelo reconhecimento de que a diversidade sempre existiu entre nossos povos. Também passa pela produção de conhecimento e pela disputa de narrativas a fim de desconstruir nossas imagens vistas apenas a partir dos conflitos, da vulnerabilidade ou da invisibilidade.

O Coletivo TYBYRA existe porque as TYBYRAS seguem vivas. Existe porque nossos corpos carregam memória, ancestralidade e resistência. Existe porque muitos parentes vieram antes de nós e abriram caminhos mesmo diante da violência e do silenciamento. E existe porque acreditamos que o futuro dos povos indígenas também passa pelo reconhecimento da pluralidade de corpos, identidades e formas de existir dentro de nossos territóri

Defender indígenas LGBTQIA+ é defender a vida indígena em toda a sua diversidade. É compreender que o colonialismo continua operando não apenas sobre a terra, mas também sobre os corpos. E é afirmar que nossos povos seguem construindo caminhos próprios de existência, cuidado e luta coletiva.
Sobre o autor:
Cientista Político e indígena do povo Tupinikim.
Atua como Coordenador de Relações Internacionais da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil e pesquisador no projeto “Justiça de Transição para Povos Indígenas no Brasil”, desenvolvido em parceria com o Instituto de Políticas Relacionais. É cofundador do Coletivo TYBYRA.
Graduado em Ciência Política pela Universidade de Brasília.
Redação: Danilo Tupinikim
Fotografia: Danilo Tupinikim, André Guajajara, Webert da Cruz, Thiago Yawanawá e Coletivo Tybyra
Diagramação: Herta Maria de Açucena do Nascimento Soeiro










