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v. 4, n. 01, jan. 2026
Diáspora haitiana na Amazônia Brasileira, relações sociais, afetividade e pertencimento  – Entrevista com Charlot Jn Charles

Diáspora haitiana na Amazônia Brasileira, relações sociais, afetividade e pertencimento  – Entrevista com Charlot Jn Charles

Diáspora haitiana na Amazônia Brasileira, relações sociais, afetividade e pertencimento  – Entrevista com Charlot Jn Charles

Charlot Jn Charles
charlotcj03@gmail.com

Sobre o entrevistado

Em 2024, Charlot Jn Charles defendeu o doutorado em Geografia pela Universidade Federal de Rondônia, sob orientação do Prof. Dr. Josué da Costa Silva

Natural de Tiburon, no Haiti, Charlot é graduado em Filosofia pela Faculdade Católica de Rondônia e atua como pesquisador associado ao Grupo de Estudos e Pesquisas Modos de Vida e Culturas Amazônicas e é membro do Instituto Maria e João Aleixo. Atualmente, Charlot é professor de francês, mentor acadêmico e palestrante, seu tempo é dedicado entre a pesquisa acadêmica e interesses pessoais como a leitura, escutar músicas e assistir filmes e documentários.

Sua tese, intitulada “Diáspora haitiana no Brasil: uma análise da construção da lugarização nas cidades de Manaus e Porto Velho”, analisa a diáspora haitiana no contexto amazônico. Fundamentada na história oral e na fenomenologia, a pesquisa insere-se no campo da geografia humana e cultural, investigando os processos de lugarização e os fatores que influenciam a escolha desses territórios. Os resultados evidenciam uma lugarização marcada por relações sociais, afetividade e pertencimento, destacando elementos como língua, acolhimento, solidariedade e resiliência, além da percepção dos haitianos como um povo trabalhador e determinado.

Divulga-CI: O que te levou a fazer o doutorado e o que te inspirou na escolha do tema da tese?

Charlot Jn (CJ): Entrei no doutorado para melhorar minha formação profissional e humana, com o objetivo de contribuir melhor com a sociedade como professor, pesquisador e ativista.

Ao chegar ao Brasil, percebi que muitas pesquisas sobre a migração haitiana se concentram nos grandes centros, como São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina entre outros.

Nessas pesquisas, a região Norte costuma ser vista apenas como um local de passagem para outras cidades, sem destacar que também abriga parte da diáspora haitiana.

Por isso, minha motivação foi investigar se existe uma lugarização dos haitianos em Manaus e Porto Velho. Mesmo não sendo uma pesquisa quantitativa, os resultados mostram que essas cidades não são apenas locais de passagem, mas também espaços onde muitos haitianos vivem e constroem suas vidas.

DC: Em qual momento de seu tempo no doutorado você teve certeza que tinha uma “tese” e que chegaria aos resultados e conclusões alcançados?

CJ: Desde a aprovação do meu projeto de doutorado, soube que tinha uma tese sólida. Essa convicção se tornou ainda mais clara e firme após a minha qualificação de tese, realizada em 03 de julho de 2024.

DC: Citaria algum trabalho ou ação decisiva para sua tese? Quem é o autor desse trabalho, ou ação, e onde ele foi desenvolvido?

CJ: Como ação, destaco a atuação da Associação dos Haitianos em Porto Velho (ASSHAPO), da qual sou membro fundador. É uma organização sem fins lucrativos baseada em Porto Velho, Rondônia, e que trabalha em prol dos migrantes, refugiados e apátridas. Por meio de sua equipe associada, a ASSHAPO oferece serviços à diáspora haitiana no Brasil, particularmente à comunidade que vive em Porto Velho. Visando orientar, acolher e apoiar haitianos recém-chegados a Rondônia, a ASSHAPO realiza atividades de ensino de Língua Portuguesa, organiza atividades culturais e educativas para adolescentes e jovens e facilita o acesso a serviços de documentação, saúde e educação, fornecendo apoio linguístico-cultural. Adicionalmente, a ASSHAPO fortalece a comunidade, disponibilizando aulas de francês com professores do Haiti para pessoas brasileiras.

Já as produções bibliográficas, destaco: “O bem viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos”, de Alberto Acosta; “A Poética do Espaço”, de Gaston Bachelard; e “Diáspora: as dinâmicas da mobilidade haitiana no Brasil, no Suriname e na Guiana Francesa”, de Handerson Joseph.

DC: Por que sua tese é um trabalho de doutorado, o que você aponta como ineditismo?

CJ: Minha tese se caracteriza como um trabalho de doutorado porque atende plenamente às exigências de uma pesquisa doutoral, tanto do ponto de vista teórico quanto metodológico. Seu caráter inédito reside na análise sistemática e aprofundada do processo de lugarização da diáspora haitiana no Brasil, um tema ainda pouco explorado na literatura acadêmica, especialmente no que diz respeito à sua visibilidade e ao seu impacto científico.

A Lugarização, tema central dessa pesquisa, “é o resultado de relações sociais desenvolvidas por um grupo de pessoas ou por um povo numa determinada área ou país específico. Deve haver, portanto, um vínculo de afeto entre as pessoas e o meio ambiente em que vivem. Ressalta-se que a lugarização pode ser provisória e/ou definitiva, visto que o ser humano está sempre em construção.”

Dessa forma, a pesquisa oferece uma contribuição original e relevante para a ciência geográfica, o campo de estudos sobre migração e diásporas; e outras áreas que se dediquem em estudar o ser humano na sociedade. Além disso, como reconhecimento de sua relevância, o trabalho foi agraciado com o Prêmio UNIR de Melhor Tese 2025 no Programa de Pós-Graduação em Geografia.

DC: Em que sua tese pode ser útil à sociedade?

CJ: A tese é útil à sociedade ao ampliar a compreensão sobre o processo de lugarização da diáspora haitiana nas cidades de Manaus e Porto Velho, na região Norte do Brasil. Ao dar visibilidade às experiências, às práticas culturais e às formas de inserção social desses grupos, a pesquisa contribui para o reconhecimento da diversidade cultural amazônica, para o combate a estigmas e preconceitos e para o subsídio de políticas públicas voltadas à migração e à integração social, sublinhando a importância do bem viver e do ubuntu, fundamentados na valorização do outro, das pessoas e da natureza. E, por último, a criação do tema Lugarização.

DC: Quais foram os passos que definiram sua metodologia de pesquisa?

CJ: A pesquisa se concentrou em Manaus e Porto Velho, cidades pouco conhecidas pelos haitianos antes de migrar para o Brasil. Foram entrevistados haitianos com pelo menos cinco anos de residência, brasileiros em contato com a diáspora e moçambicanas em Maputo.

As entrevistas foram abertas, permitindo que os participantes escolhessem entre francês, crioulo, espanhol ou português, respeitando seu conforto linguístico.

O estudo valorizou a diversidade de escolaridade e experiências, incluindo pessoas analfabetas e graduadas, para compreender melhor a integração dos haitianos.

Todos os entrevistados tiveram nomes fictícios, garantindo anonimato e maior liberdade para compartilhar suas histórias, desafios, conquistas e sonhos.

A metodologia buscou promover inclusão, respeito e diálogo ético, alinhando-se aos princípios de ubuntu e bem viver.

DC: Em termos percentuais, quanto teve de inspiração e de transpiração para fazer a tese?

CJ: Posso dizer que tive 100% de inspiração para realizar a tese, pois os estudos de doutorado oferecem grandes oportunidades de contribuir para um mundo mais justo e fraterno em um nível elevado na sociedade.

Quanto às dificuldades, em primeiro lugar destaco a busca constante por uma compreensão mais clara da língua portuguesa.

 Apesar de ter muitos anos no Brasil, nem sempre consigo me expressar totalmente de forma clara nesse idioma.

Em segundo lugar, a limitação de recursos financeiros foi um desafio: terminei a tese em três anos e meio, enquanto poderia ter seguido até março de 2025, seis meses a menos do prazo final. Tive apenas dois anos de bolsa do Programa CAPES Demanda Social, ao qual deixo minha gratidão.

DC: Teria algum desabafo ou considerações a fazer em relação à caminhada até a defesa e o sucesso da tese?

CJ: Apesar da amplitude do PPGG, há poucas bolsas para estudantes de doutorado.

Também faltam recursos para que pesquisadores e pesquisadoras participem de eventos nacionais e internacionais. Seria muito bom se existisse uma política de apoio nesse sentido. Durante o processo, recebi apenas uma ajuda para um evento e outra para a viagem a Moçambique, quando realizei o doutorado sanduíche, totalizando menos de R$ 2.000. O programa demonstra vontade de ajudar, mas, na minha opinião, faltam recursos para atender a essas necessidades.

DC: Como foi o relacionamento com a família durante o doutorado?

CJ: No Brasil, não tenho família, mas posso dizer que meu relacionamento com a minha família no Haiti foi bom.

DC: Qual foi a maior dificuldade de sua tese? Por quê?

CJ: A maior dificuldade foi estar longe da minha cultura, da minha família e da minha terra, pois a saudade muitas vezes diminuía minha motivação para realizar as tarefas. Isso se somou às dificuldades já mencionadas anteriormente.

DC: Que temas de mestrado citaria como pesquisas futuras possíveis sobre sua tese?

CJ: Possíveis pesquisas futuras poderiam abordar temas como Bem Viver, Ubuntu, Lugarização, a importância da solidariedade na migração, o acolhimento, o respeito e a compreensão do “eu” e do “outro” como elementos fundamentais na lugarização de um grupo ou povo, seja em sua terra de origem ou em terras estrangeiras, como no caso da diáspora haitiana no Brasil.

DC: Quais suas pretensões profissionais agora que você se doutorou?

CJ: Um dos meus sonhos é voltar para o Haiti, meu amado país, e ajudar a construir uma universidade — um centro de formação científica e de pesquisa — para oferecer mais oportunidades àqueles que ficaram com vontade de estudar, aprender e ensinar, mas não puderam por falta de condições.

A educação é a chave para abrir portas para um futuro melhor e deve ser acessível a todas as pessoas, independentemente de seu lugar de origem, classe social, cor da pele, orientação sexual ou outras características.

Antes de retornar, estou à procura de oportunidades de trabalho no Brasil, pois preciso garantir uma condição financeira mínima para custear certas despesas ao voltar. Depois de uma década no Brasil, retornar ao meu país sem recursos e sem uma perspectiva de trabalho seria muito difícil para uma adaptação tranquila.

DC: O que faria diferente se tivesse a chance de ter começado sabendo o que sabe agora?

 CJ: Do ponto de vista acadêmico, eu faria as mesmas escolhas, pois acredito que desenvolvi um trabalho bastante consistente. Minhas viagens para eventos acadêmicos, tanto no Brasil quanto no exterior, foram de grande proveito para mim enquanto pesquisador e professor em formação e, de maneira igualmente importante, também para o programa e para o grupo de pesquisa do qual sou membro. 

DC: Como você avalia a sua produção científica durante o doutorado? Já publicou artigos ou trabalhos resultantes da pesquisa? Quais você aponta como os mais importantes?

CJ: Avalio minha produção durante o doutorado como excelente. Participei de diversas atividades, incluindo o estágio de docência, as atividades desenvolvidas no grupo de pesquisa, a atuação em projetos de pesquisa, o trabalho na produção e editoração de uma revista científica, os trabalhos de campo, as participações em bancas e em eventos internacionais, nacionais e locais (congressos, encontros, simpósios, seminários e oficinas) na América, Europa e África, atuando como palestrante, participante e ouvinte.

Também participei e coordenei grupos de leitura, realizei intercâmbio, publiquei capítulos de livros, artigos em anais e em revistas científicas, além de um livro resultante da minha tese

1. A prática do bem viver para uma justiça social e ambiental: o caso do Haiti, no e-book: América Latina ante los (nuevos) retos de la justicia social y ambiental.

2. Ordenamento territorial da cidade e sua ligação com o bem viver: um olhar sobre a Cidade Les Cayes – Haiti, na revista Geographia Opportuno Tempore.

3. Modo de vida dos haitianos em Porto Velho (RO): língua, pertencimento e religião, na revista Plura.

4. Aménagement du territoire de la ville et son lien avec le bien vivre: um regard sur la Ville des Cayes – Haiti, também na revista Geographia Opportuno Tempore. 

5. Diaspora haïtienne au Brésil: Migração e Humanismo na Amazônia, livro impresso, publicado pela editora Temática em 2025.

Na foto: Charlot Jn Charles apresenta o livro resultado de sua tese, disponível à venda na Livraria Leitura do Porto Velho Shopping

DC: Exerceu alguma monitoria/estágio docência durante o doutorado? Como foi a experiência?

CJ: Sim.

Os estágios de docência foram de grande contribuição para minha formação como profissional e futuro professor.

Durante essa experiência, tive o privilégio de trabalhar sob a orientação do meu orientador, Prof. Dr. Josué da Costa Silva, no Curso de Graduação / Licenciatura Plena em Geografia, na disciplina Teoria e Método da Geografia, com carga horária de 60 horas – UNIR, 2024/02.

Ao final dessa experiência, percebi que ser professor exige muita dedicação, amor pelo ensino e capacidade de lidar com diferentes situações em sala de aula.

DC: Elas contribuíram em sua tese? De que forma?

CJ: Sim, as formações contribuíram significativamente para a escrita da minha tese. Além disso, graças às capacitações recebidas durante os estágios, aos debates filosóficos e geográficos no grupo de pesquisa e ao papel formador do pesquisador, entre outras oportunidades oferecidas pela universidade, consegui adquirir as habilidades necessárias para me colocar a serviço dos outros.

DC: Agora que concluiu a tese, o que mais recomendaria a outros doutorandos e mestrandos que tomassem seu trabalho como ponto de partida?

CJ: Recomendo que levem seus estudos a sério, dedicando-se ao máximo, sempre de maneira profissional e ética.

DC: Como acha que deve ser a relação orientador-orientando?

CJ: A meu ver, essa relação é, em parte, subjetiva, pois depende das pessoas envolvidas. No entanto, acredito que ela deve ser sempre baseada no profissionalismo, na responsabilidade, no diálogo aberto e no respeito mútuo. O orientador deve orientar, incentivar e acompanhar o trabalho acadêmico, enquanto o orientando precisa ter compromisso, dedicação e abertura para aprender. Quando há confiança e cooperação, o processo de formação se torna mais produtivo e humano.

No meu caso tive uma ótima relação com o meu orientador.

DC: Sua tese gerou algum novo projeto de pesquisa? Quais suas perspectivas de estudo e pesquisa daqui em diante?

CJ: No momento, a tese ainda não resultou diretamente em um novo projeto específico. No entanto, ela abriu muitas possibilidades de aprofundamento e novas reflexões. Daqui para frente, almejo continuar pesquisando, realizar um pós-doutorado, atuar como professor e seguir produzindo conhecimento científico. Meu objetivo é continuar aprendendo, contribuindo com a pesquisa acadêmica e com a formação de novos estudantes.

DC: O que o Programa de Pós-Graduação fez por você e o que você fez pelo Programa nesse período de doutorado?

CJ: O Programa de Pós-Graduação teve um papel fundamental na minha formação acadêmica, científica e humana. Ele me formou e me preparou para atuar de maneira mais crítica, responsável e comprometida com a construção de uma sociedade mais justa e fraterna.

Em contrapartida, procurei contribuir levando o nome do Programa o mais longe possível, por meio da participação em atividades acadêmicas, eventos científicos, publicações de trabalhos e outras ações realizadas na América, Europa e África, fortalecendo a visibilidade e o reconhecimento do Programa. Aproveito o momento para agradecer o programa por tudo que me proporcionou.

DC: Você por você:

CJ: Bom, como pode perceber até aqui, sou uma pessoa dedicada no que faço, e isso me faz levar meus projetos a sério, buscando sempre superação.

Abraçar a educação não é uma questão apenas do período de doutorado, mas algo que cresceu em mim desde a infância e que, ao longo do tempo, vem ganhando cada vez mais força.

Acredito que saber o que queremos e lutar por isso é uma atitude que faz todos crescerem e se tornarem fonte de inspiração para os demais. Uma coisa que aprendi até agora é que, mesmo sem saber, às vezes somos exemplos para pelo menos uma pessoa. Ao descobrir isso, tenho ainda mais incentivo para fazer bem aquilo a que me proponho.


Entrevistado: Charlot Jn Charles
Entrevista concedida em:  23 de dezembro de 2025
Formato de entrevista: Escrita
Redação da Apresentação: Iasmim Farias Campos Lima
Fotografia: Charlot Jn Charles
Diagramação: Iasmim Farias Campos Lima

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