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v. 4, n. 01, jan. 2026
Editorial: A metafísica do racismo: ontologias feridas e a gramática invisível do mundo moderno, por Patrick de Oliveira

Editorial: A metafísica do racismo: ontologias feridas e a gramática invisível do mundo moderno, por Patrick de Oliveira

A metafísica do racismo: ontologias feridas e a gramática invisível do mundo moderno

Patrick de Oliveira
patrickpsicanalise@gmail.com

O debate sobre o racismo, embora amplamente tematizado nas ciências sociais, na psicologia social e na teoria política, permanece limitado quando não alcança a dimensão ontológica na qual o fenômeno se enraíza. Falar de racismo apenas como estrutura, representação, comportamento ou violência é permanecer na superfície de um problema cuja profundidade excede o domínio do empírico. O racismo, no contexto moderno, estabelece uma gramática do ser: define quem pode existir, quem deve ser controlado, quem é reconhecido como humano e quem é lançado à zona do não-ser. Ele é, por isso, menos um fenômeno moral ou jurídico e mais um projeto metafísico — um modo de organizar a realidade e suas hierarquias.

A modernidade ocidental, ao instituir a separação entre corpo e espírito, sensibilidade e razão, natureza e humanidade, elaborou uma cosmologia cujo funcionamento exige um corpo sacrificial. Essa cisão, frequentemente apresentada como avanço racional do Ocidente, foi acompanhada pela eleição do corpo negro como o lugar onde essa separação se tornaria visível e reiterável. O corpo negro se converteu, assim, no limite ontológico do humano: um corpo disposto ao manejo, à mercadoria, ao trabalho compulsório, à violência disciplinar e ao controle estatal. A branquidade, por sua vez, foi investida da função de transcendência secular, transformada em signo de pureza, racionalidade e legitimidade universal.

O racismo, portanto, não deve ser compreendido apenas como uma formação discursiva ou como ideologia de dominação, mas como arquitetura metafísica que orienta a maneira como o Ocidente compreende o mundo. Ele opera antes das instituições, antes dos sujeitos e antes das práticas discursivas. Constitui o modo pelo qual o ser é distribuído: abundante para alguns, escasso para outros, negado para muitos. Essa distribuição ontológica antecede a história; ela configura o horizonte antropológico no qual a própria história se tornou possível.

Tal constatação exige que o debate contemporâneo avance além das categorias tradicionais de inclusão, representatividade ou políticas compensatórias. Tais ferramentas permanecem inscritas dentro da mesma cosmologia que produziu a exclusão, uma vez que atuam sem desestabilizar o fundamento metafísico que habilita a branquidade como transcendência e o negro como exterioridade. Superar o racismo, portanto, não é apenas corrigir sua função social; é desmontar sua função ontológica.

Para isso, é indispensável descolonizar a imaginação. A modernidade se instituiu como uma narrativa de purificação: expulsou o mistério, o invisível, o relacional e o plural para construir o império do sujeito isolado, proprietário, calculador e desencantado. Esse sujeito não se constituiu sozinho; ele exigiu a criação simultânea do não-sujeito, aquele cuja existência sustentaria a ficção da universalidade branca. O racismo é a sombra da modernidade, mas é também sua condição de possibilidade. É a linha de força que permite ao Ocidente se imaginar universal enquanto permanece particular.

Essa crítica, entretanto, não basta. Para além da desconstrução, torna-se necessário elaborar um novo regime ontológico que não reproduza a lógica da separação. É nesse terreno que cosmologias africanas e afro-diaspóricas — como a Tradição de Ifá — oferecem contribuições irredutíveis. Em Ifá, o mundo é uma totalidade viva, uma rede de relações entre seres, forças e princípios em contínua circulação. A realidade não é pensada como objeto, mas como encontro; o conhecimento não é posse, mas comunhão; o corpo não é obstáculo, mas altar; e a existência não se define por escassez, mas por reciprocidade.

A partir dessa cosmologia, torna-se evidente que o racismo não é apenas violência, mas empobrecimento ontológico. Ele empobrece quem o sofre, mas também — de modo estrutural e profundo — quem o pratica, pois destrói a possibilidade de relação, sufoca a respiração do mundo e reduz a realidade ao que é administrável pelo olhar branco. A ontologia moderna é, nesse sentido, inabitável: ela depende de hierarquias para funcionar, exige sacrifícios para se manter e transforma o outro em matéria-prima para a construção do “eu”.

O corpo negro, nesse contexto, emerge como arquivo metafísico. Nele se inscrevem tanto a história da violência quanto as possibilidades de uma outra humanidade. O corpo negro revela que o mundo é mais do que o que a modernidade descreveu; ele testemunha a insuficiência da ontoteologia branca e aponta para um princípio de realidade que não cabe no cálculo. Ele é ferida, mas é também anúncio: anuncia uma ontologia por vir, fundada na relação, no sopro vital e na dignidade múltipla dos corpos.

Pensar a metafísica do racismo é mais do que examinar a violência: é perguntar que tipo de mundo permite essa violência. É investigar as condições ontológicas que autorizam a distribuição desigual do ser. É compreender que a luta antirracista não é apenas uma luta por direitos, mas uma luta por mundos — por outros modos de habitar o real, de constituir o vínculo, de conceber o humano. A verdadeira alternativa ao racismo não é uma política de inclusão, mas uma cosmopolítica da comunhão; não é um humanismo renovado, mas uma pluralização radical do humano.

Essa tarefa exige coragem intelectual e imaginação cosmológica. Requer abandonar a crença de que o universal se constrói pela eliminação das diferenças. Requer reconhecer que a pluralidade não é obstáculo para a unidade, mas sua condição. Requer aceitar que não existe humanidade sem relação. O racismo só persiste porque a modernidade insiste em uma ontologia da separação; sua superação exige uma ontologia do encantamento, capaz de recuperar o sopro vital que a modernidade mutilou.

A urgência é evidente. Ou reformulamos o terreno metafísico que sustenta o mundo moderno, ou permaneceremos prisioneiros da lógica sacrificial que fez do negro a condição de possibilidade da branquidade. A desracialização do mundo — se é que ela pode ocorrer — depende da reconstrução ontológica do próprio mundo. Trata-se de instaurar uma metafísica planetária onde nenhuma vida seja resto, nenhuma existência seja descartável e nenhuma humanidade seja constituída às custas da desumanização de outras. A metafísica do racismo não é um campo abstrato da filosofia: é o nervo exposto da modernidade. Compreendê-la é compreender o próprio Ocidente. Superá-la é inventar outro mundo.

Sobre o autor:

Patrick de Oliveira

Psicólogo, antropólogo e pesquisador das cosmopolíticas africanas e afro-diaspóricas. Doutor pela Universidade Federal de Goiás, investiga interfaces entre ontologia, teologia secular, branquidade e sistemas filosóficos grego-romano e africanos, especialmente Ifá. Autor de “Peregrinação: reconhecer Ifá nas pequenas coisas” e “Sabedoria: viver Ifá em tempos de desfaçatez”. Em andamento para publicação: “A Metafísica do Racismo” e “Ifá: a Metafísica do Invisível” e outros trabalhos sobre metafísica, epistemologias cosmológicas, medicina ancestral e encantamento.


Redação: Patrick de Oliveira
Fotografia: Patrick de Oliveira
Diagramação: Ana Júlia Pereira de Souza

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