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v. 4, n. 04, abr. 2026
Povos tradicionais, saúde indígena na amazônia acreana e combate às peças de desinformação, por Francisco Aquinei Timóteo Queirós

Povos tradicionais, saúde indígena na amazônia acreana e combate às peças de desinformação, por Francisco Aquinei Timóteo Queirós

Povos tradicionais, saúde indígena na amazônia acreana e combate às peças de desinformação

Francisco Aquinei Timóteo Queirós
francisco.queiros@ufac.br

No livro “A escrita como faca e outros textos”, a romancista francesa Annie Ernaux se pergunta: “Como se questionar sobre a vida sem se questionar também sobre a escrita? Sem se perguntar se esta reforça ou perturba as representações aceitas, interiorizadas, sobre os seres e as coisas?” (Ernaux, 2023, p. 17).

O conjunto dessas questões levantadas por Ernaux se relaciona às reflexões que desenvolvemos no Programa de Pós-graduação em Comunicação (PPGCOM), da Universidade Federal de Rondônia – UNIR, com o projeto de pós-doutorado intitulado “Sociedade e combate às peças de desinformação: povos tradicionais e saúde na Amazônia”. 

O nosso estudo busca compreender como a desinformação sobre a saúde indígena aprofunda a vulnerabilidade das populações originárias, reforça desigualdades históricas e contribui para a reprodução de práticas coloniais contemporâneas (Martins, Queirós, Gomes, Miranda; 2025).

Nesse sentido, o nosso estudo estabelece diálogo constante com o grupo focal composto por 25 indígenas, 15 alunos do mestrado e 10 do doutorado da turma de Políticas Afirmativas, selecionados em 2022 pelo Programa de Pós-Graduação em Letras: Linguagem e Identidade da Universidade Federal do Acre (UFAC). 

Os estudantes aprovados no mestrado e no doutorado pertencem aos povos Huni Kuin (Kaxinawá), Shanenawa, Noke Koin (Katukina-Pano), Manchineri, Puyanawa, Nukini, Shawãdawa (Arara) e Madija. Há também estudantes do Mato Grosso do Sul, pertencentes ao povo Terena; de Roraima, pertencente ao povo Wapichana; do Amazonas, pertencentes aos povos Kokama e Pupykary (Apurinã) e do Peru, que compõem o povo Aimara (Queirós, Souza; 2025). 

Para o entendimento de como as peças de desinformação afetam as dinâmicas sociais e culturais de nosso grupo focal, utilizamos como instrumento metodológico de pesquisa a entrevista em profundidade (aberta e semiestruturada) por meio do registro em smartphone com captação de áudio. 

Para isso, estabelecemos diálogo com o pensamento de Gabriele Rosenthal (2017) para quem a pesquisa de campo possibilita o entendimento abrangente da realidade social a partir da “investigação de grupos sociais, comunidades regionais, mundos da vida ou contextos sociais, organizações, e também de indivíduos, mas sempre em seu ambiente “natural”, isto é, em seus contextos cotidianos” (Rosenthal, 2017, p. 121). 

Desse modo, para o entendimento de como a desinformação afeta os povos originários, levamos em consideração os aspectos relacionados ao cotidiano, às redes familiares e aos fatores psíquicos, cognitivos, sociais e emocionais da realidade dos povos indígenas com os quais estabelecemos diálogo.

Nosso pensamento tensiona as noções de “informante nativo” (tomado da etnografia) e o de foraclusão (derivado da psicanálise) com os quais Spivak (2022) reflete. No livro “Crítica da razão pós-colonial: por uma história do presente fugidio”, a autora aponta que “o informante nativo, no mesmo momento em que surge nesses textos, é foracluído, ou seja, é apagado sem deixar rastros de seu nome, de sua voz” (2022). Isso, segundo Spivak, redunda em um processo simultâneo de sustentação do mecanismo da colonização e dos processos narrativos: 

Por foraclusão, a psicanálise entende o processo no qual se produz a expulsão de um significante fundamental do universo simbólico do sujeito. Tal expulsão não atua apenas como negação, mas como apagamento completo dos rastros que dariam acesso a esse significante incômodo, inclusive aos afetos a ele ligados. (Spivak, 2022, p. 14)

É necessário destacar que não buscamos estabelecer uma hierarquia entre as diferentes formas do fazer científico; mas, pelo contrário, pensamos sob o vértice do que nos aponta Donna Haraway (2009) quando nos fala da busca por uma articulação dos saberes localizados (Queirós, Souza; 2025). Nesse sentido, imbuídos pelo pensamento de López-Pavillard (2018), salientamos que o investigador precisa sair da assépsia da distância e se deixar envolver pelos fenômenos sociais e culturais, promovendo um conhecimento dialógico e intersubjetivo. 

O estudo de pós-doutorado em desenvolvimento evidencia que a desinformação sobre a saúde dos povos tradicionais atua como um instrumento de violência simbólica e material, não se apresentando como um fenômeno isolado, mas parte de um processo histórico mais amplo. 

Nessa direção, o projeto de pós-doutorado tem como resultados esperados a organização de um livro em português e inglês, em que serão discutidos aspectos como: comunicação e saúde indígena, saúde mental e saberes indígenas, cura e medicina ancestral, parteiras e saberes de mulheres indígenas e rapé e saberes tradicionais. 

Importante salientar que não queremos articular os textos sob o prisma do olhar do pesquisador distante (que observa, pondera e escreve); mas a partir do olhar dos/as pesquisadores/as indígenas, demonstrando, como nos afirma Moriceau (2020) que a “maneira como definirmos o acolhimento não se configura sob a forma de uma ‘inclusão’ do outro em nossas categorias, mas envolve a tentativa e o compromisso de fazer com que essas categorias, de fato, recebam o outro e todas as instabilidades que o acompanham, convidando-nos a nos distanciar de nós mesmos e dos centros de certezas que nos organizam como sujeitos” (Moriceau, 2020, p. 61).

Referências

ERNAUX, Annie. A escrita como faca e outros textos. Tradução Mariana Delfini. São Paulo: Fósforo, 2023. 

HARAWAY, Donna. Saberes localizados: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da perspectiva parcial. Cadernos Pagu, Campinas, n. 5, p. 7-41, 2009. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/cadpagu/article/view/1773/1828 . Acesso em: 05 abr. 2026.

LÓPEZ-PAVILLARD, Santiago. Chamanes, ayahuasca y sanación. Madrid: Editorial CSIC, Consejo Superior de Investigaciones Científicas, 2018.

MORICEAU, Jean-Luc. Afetos na pesquisa acadêmica. Belo Horizonte, PPGCOM/UFMG, 2020. Disponível em: https://seloppgcomufmg.com.br/colecoes/afetos-na-pesquisa-academica/ . Acesso em: 05 abr. 2026.

QUEIRÓS, Francisco Aquinei Timóteo; MARTINS, Allysson Viana; GOMES, Débora dos Santos; MIRANDA, Emanuely. Desinformação e saúde dos povos indígenas: perspectiva histórica e social, da colonização à pandemia da covid-19. CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 48, 2025, Vitória/ES. Anais… São Paulo: Intercom, 2025. Disponível em: https://sistemas.intercom.org.br/pdf/submissao/nacional/23/07072025110255686bd38f67131.pdf. Acesso em: 17 Fev. 2026.

QUEIRÓS, Francisco Aquinei Timóteo; SOUZA, Shelton Lima de. Por uma proposta de reflexão de saberes teórico-metodológicos: subjetividade e afeto na pesquisa acadêmica. In: QUEIRÓS, Francisco Aquinei Timóteo, SOUZA, Shelton Lima de (Orgs.) Metodologias em pesquisas acadêmico-científicas: subjetividades, afetações e práticas. Rio Branco: Nepan Editora; Edufac, 2025. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/389987681_Por_uma_proposta_de_reflexao_de_saberes_teorico-metodologicos_subjetividade_e_afeto_na_pesquisa_academica . Acesso em: 17 Fev. 2026.

ROSENTHAL, Gabriele. História de vida vivenciada e história de vida narrada: Gestalt e estrutura de autoapresentações biográficas. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2017. Disponível em: https://revistaseletronicas.pucrs.br/civitas/article/view/17116 . Acesso em: 05 abr. 2026.

SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Crítica da razão pós-colonial: por uma história do presente fugidio. Traduzido por Lucas Carpinelli. São Paulo: Editora Filosófica Politeia, 2022.

Sobre o autor

Francisco Aquinei Timóteo Queirós

Professor do Curso de Jornalismo e do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Acre. Líder do grupo de pesquisa Narrativa, Literatura e Jornalismo (NALIJOR).

Doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Mestre em Letras e Bacharel em Comunicação Social – Jornalismo pela Universidade Federal do Acre. Realiza o estágio de pós-doutorado junto ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Rondônia. 


Redação: Francisco Aquinei Timóteo Queirós
Fotografia: Francisco Aquinei Timóteo Queirós
Diagramação: Iasmim Farias Campos Lima

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