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v. 4, n. 10, out. 2026
The Librarians (2025): Biblioteconomia Educativa entre censura e resistência, por Juliana Mendes Santiago

The Librarians (2025): Biblioteconomia Educativa entre censura e resistência, por Juliana Mendes Santiago

The Librarians (2025): Biblioteconomia Educativa entre censura e resistência

Juliana Mendes Santiago
julianamsantiago@usp.br

No juramento profissional feito por bibliotecárias e bibliotecários no Brasil, desde 1966 dizemos: “Prometo tudo fazer para preservar o cunho liberal e humanista da profissão de Bibliotecário, fundamentado na liberdade de investigação científica e na dignidade da pessoa humana”. Nos Estados Unidos, por sua vez, existe o Código de Ética da American Library Association (ALA). Criado em 1939 e atualizado pela última vez em 2021, possui 9 preceitos sobre a excelência no serviço, liberdade intelectual, privacidade e confiabilidade, respeito à propriedade intelectual, respeito no ambiente de trabalho, desenvolvimento profissional e justiça social e racial.

É interessante estabelecer esse preâmbulo diante das histórias apresentadas no documentário The Librarians (2025)  de Kim A. Snyder1. O filme se passa nos primeiros anos da década de 2020 e narra a luta de bibliotecárias diante de movimentos políticos de extrema-direita que as perseguem e censuram livros de bibliotecas escolares no sul dos Estados Unidos2. Mais do que o conflito em torno das obras, o documentário questiona o próprio significado do trabalho bibliotecário e os limites da compreensão da biblioteca como mero espaço de armazenamento, organização e circulação de acervos.

O discurso é antigo e familiar, “nossas crianças precisam de proteção contra exposição à pornografia”, averiguados os títulos, trata-se de literatura LGBTQIA+ e antirracista para públicos e idades variadas. Se também fossem ditos “comunistas”, poderia ser uma lista de livros banidos em qualquer outro regime fascista, totalitário ou ditatorial através dos tempos.

Destaca-se a fala de uma bibliotecária, no início do filme: “Somos administradores de espaço, de recursos, de pessoas, agora acho que passamos para a vanguarda temos que estar na frente, contando a história”. Entre a falácia do bibliotecário estritamente como administrador e a necessidade de mudança de paradigma, prefiro discorrer sobre esta última.

A visão da Biblioteconomia como teoria e prática de preservação, organização, difusão de memórias e informações ultrapassa a administração de espaços, recursos e pessoas, já se trata, portanto, de “estar à frente contando uma história”. Do contrário, não haveria bibliotecários sendo demitidos, perseguidos e criminalizados por defenderem suas bibliotecas, acervos e comunidades. O juramento brasileiro e a ética preconizada pela ALA pressupõem direitos e deveres que preveem a biblioteca como dispositivo (não apenas local) e o bibliotecário como mediador (não apenas administrador).

Divulgação do documentário  “The Librarians” de Kim A. Snyder / Imagem: IMBD

O documentário é feliz em adicionar imagens de arquivo e trechos literários que, além de contrastar com cenas do passado que insistem em se repetir (queimas de livros, discursos fascistas e imagens marcantes do filme Fahrenheit 451), ressaltam cenas que demonstram o potencial educativo-cultural da biblioteca e do trabalho do bibliotecário. Retornar ao arquivo não é mera ilustração, evoca a importância de manter preservada, acessível e em circulação a nossa memória audiovisual.

A narrativa conta com muitas cenas de assembleias, conselhos e debates públicos a partir do movimento político-partidário iniciado por um governador do Texas, ao banir 850 livros. Apesar da defesa da liberdade de expressão, da qual os estadunidenses tanto se orgulham, existe evidente desproporção entre quem defende as bibliotecas e quem atua para restringir seus acervos e punir funcionários.

O movimento Moms for Liberty (MFL), por exemplo, com seu intensivo investimento privado para publicidade e megaeventos (com participação de políticos eleitos e o então candidato à presidência Donald Trump), discursa sobre “exposição à pornografia para crianças”, “quebra do relacionamento heterossexual”, “crianças se sentindo culpadas por serem brancas” e solicita demissão de bibliotecários, recolhimento de livros e fechamento de bibliotecas públicas para averiguação de acervos impróprios.

Trump no palco com a cofundadora do Moms for Liberty, Tiffany Justice / Foto: Mark Schiefelbein/Associated Press

Em oposição, bibliotecárias defendem seu código de ética, estudantes defendem bibliotecas, livros e profissionais que acolhem e promovem espaços de escuta e pertencimento. Diferente do que alertam os panfletos sensacionalistas das MFL, os relatos de alunos e ex-alunos defendem a importância que os livros banidos tiveram em suas vidas, inclusive em processos de reconhecimento, pertencimento e saúde mental.

É justamente nesses relatos que o documentário evidencia uma das maiores forças da biblioteca como dispositivo educativo-cultural. Não se trata apenas de disponibilizar livros ou permitir acesso à informação, mas de produzir condições para que diferentes sujeitos possam reconhecer a si mesmos, conhecer outras experiências e construir relações com memórias, discursos e modos de vida diversos.

Ainda assim, esses espaços permanecem institucionalmente frágeis. Uma bibliotecária escolar premiada por um projeto realizado durante a quarentena de Covid-19 foi demitida, perseguida on-line e offline. No mesmo distrito, 20 dos 40 bibliotecários foram demitidos por se recusarem a esconder ou desbastar livros. O jovem expulso de casa por sua orientação sexual volta à cidade, diante de sua mãe, para tentar defender as bibliotecas escolares em assembleia. Em outra escola, o aluno que não frequentava a biblioteca passa a visitá-la regularmente quando os pais pedem que ele procure livros “subversivos” nas estantes para que possam denunciar a bibliotecária (como de fato ocorreu).

Novamente, a discussão do paradigma difusionista se faz necessária. Mesmo quando esses dispositivos são espaços de acolhimento onde grupos conquistam certo tipo de empoderamento, quando não há articulação com toda hierarquia institucional e governamental, excelentes projetos podem tornar-se ilhas: experiências transformadoras para seus participantes, mas isoladas dentro de um arquipélago institucional que, diante de uma ameaça externa, pode facilmente abandoná-las ou discriminá-las.

Agradecimento as bibliotecárias que colaboram com o documentário “The Librarians” / Perfil no Instagram @thelibrariansfilm

Mais grave ainda, quando esse arquipélago precisa produzir inimigos em comum para permanecer politicamente mobilizado e manipulável. Nesses contextos, as ilhas de bibliotecas, livros, bibliotecários e determinadas comunidades tornam-se alvos particularmente convenientes. Pensar o paradigma de mediação cultural para bibliotecas e adentrar o campo da Biblioteconomia Educativa é essencial para que o sistema educacional (hierárquico) se torne uma rede (interconectada).

Aqui, me lembro do caso da primeira biblioteca infantojuvenil do Brasil, criada e coordenada por Cecília Meireles, em 1934. O Estado Novo de Vargas mandou fechar a biblioteca e perseguiu Cecília por conta de “As aventuras de Tom Sawyer”. O clássico, recomendado até hoje no ensino fundamental estadunidense, foi considerado comunista.

A distância histórica e geográfica entre os casos talvez seja menor do que parece. Mudam os títulos, os argumentos e os inimigos produzidos, mas permanece a disputa sobre quem pode ler, o que pode circular e quais experiências merecem ocupar o espaço público. Quase noventa anos antes de The Librarians, já censuramos livros infantis covardemente por aqui. É preciso lutar para que atravessem décadas e fronteiras os livros, filmes, as memórias e resistências como o “Clube do Livro Banido” visto no documentário. Se a censura e o autoritarismo insistem em ressurgir e se renovar, que encontrem a Biblioteconomia Educativa, bibliotecas, bibliotecários e bibliotecárias no caminho.

Notas da autora

[1] The Librarians (2025) foi exibido no Festival de Sundance e no Festival de Documentários de Sheffield. No Brasil, participou da 49ª  Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (2025). Em setembro de 2026, foi premiado com o Emmy Award na categoria de Mérito Excepcional em Produção de Documentários. 

[2]   Ressalta-se que este é o segundo documentário indicado a prêmios internacionais sobre a mesma temática, visto que, o curta-metragem documental “O ABC da Proibição de Livros” (2023) de Sheila Nevins, Trish Adlesic e Nazenet Habezghi concorreu ao Oscar de Melhor Documentário de Curta-Metragem em 2024.

Sobre a autora

Juliana Mendes Santiago

Bibliotecária e Biblioeducadora. Integra o Grupo de Pesquisa em Biblioeducação. Membra da Rede de Pesquisa em Biblioteconomia Educativa.

Mestranda em Ciência da Informação e bacharela em Biblioteconomia pela Universidade de São Paulo.


Redação: Juliana Mendes Santiago
Fotografia: Juliana Mendes Santiago, Mark Schiefelbein/Associated Press, IMBD e The Librarians Film
Diagramação: Marcelly Yasmim Portela Trindade

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