
Que biblioteca queremos habitar? Percursos em direção à Biblioteconomia Educativa, por Amanda Leal de Oliveira

Que biblioteca queremos habitar? Percursos em direção à Biblioteconomia Educativa
Amanda Leal de Oliveira
amanleal@gmail.com
Quando escrevi a introdução da dissertação de mestrado, me peguei retomando a primeira biblioteca que acessei: era o corredor estreito da casa onde cresci, forrado por estantes de ferro abarrotadas de livros. Antes de aprender a ler, eu escalava as prateleiras, tirava os livros, abria, fechava, olhava, empilhava, organizava. Depois vieram os bilhetes deixados por minha mãe, as dedicatórias escritas por meu pai, as cartas entre amigas, o diário, os poemas da escola. A escrita estava misturada à casa e à vida.
Meus pais haviam migrado de Salvador para São Paulo durante a ditadura militar, fugindo de perseguições que os obrigaram, ainda estudantes, a abandonar seus cursos. A casa em que encontrei essa primeira biblioteca era também uma casa de histórias contadas, não contadas e de recomeço.
Muitos anos depois, já estudando Ciências Sociais, participei de uma experiência antropológica de leitura com meninas internas da antiga FEBEM. Levamos nossos livros preferidos, imaginando criar um ambiente de encontro, afeto e conversa. Encontramos resistência e desconfiança: “Eu não sei ler direito”; “Livro é sempre muito chato”. Os livros, tão próximos e familiares para mim, eram objetos distantes para algumas delas. Aquela experiência evidenciou uma realidade: a proximidade física com os objetos não necessariamente elimina distâncias culturais historicamente construídas.
Vieram as experiências profissionais em organizações da sociedade civil, constituindo acervos e formando mediadores de leitura em diferentes contextos. Durante oito anos, trabalhei em um projeto na zona rural de Poços de Caldas, Minas Gerais, que começou com ações de leitura em escolas rurais e se desdobrou na criação de um centro cultural com livros, computadores e acesso à internet, em uma comunidade fortemente marcada pela oralidade. Ali vivenciei encontros — e desencontros — entre diferentes experiências culturais.
O que significa formar leitores em realidades marcadas pela exclusão da cultura escrita e, ao mesmo tempo, atravessadas por outras práticas culturais? O que acontece quando livros e propostas de leitura chegam a contextos nos quais ocupam lugares e sentidos diferentes daqueles que ocupavam para nós, mediadores?
Essas inquietações me levaram à Ciência da Informação, ao mestrado e ao doutorado na ECA/USP e às pesquisas orientadas pelo professor Edmir Perrotti, em diálogo com a professora Ivete Pieruccini.
A chegada de livros, novas tecnologias e informações pode ampliar oportunidades e, ao mesmo tempo, conservar relações em que os mesmos selecionam, organizam, falam e ensinam, enquanto a outros cabe receber. A configuração do espaço, os acervos escolhidos e as atividades propostas podem aproximar ou afastar, reconhecer repertórios ou desconsiderá-los, abrir possibilidades de participação ou reiterar lugares previamente definidos.
O conceito de apropriação tornou-se, então, decisivo. Em diálogo com Roger Chartier (1999), apropriar-se é “tornar próprio”, produzir usos e sentidos singulares. Essa perspectiva encontra ressonância na noção de protagonismo cultural desenvolvida por Perrotti (2017) e na proposição de Paulo Freire (1982) de que a leitura da palavra se relaciona à leitura do mundo.
Essa compreensão deslocou também meu olhar sobre a mediação. Jean Caune (1999) foi fundamental para pensá-la para além de uma ação entre alguém que sabe e transfere e outro que recebe e aprende. Mediar é construir uma relação ternária, na qual sujeitos, objetos culturais e contextos se implicam mutuamente. Interessou-me especialmente sua proposição de uma ética da mediação: não apenas o que fazemos chegar às pessoas, mas como construímos a relação com elas. Quem fala? Quem escuta? Que saberes entram em jogo? Quem pode propor, recusar, transformar? A mediação ganha, assim, uma dimensão ética e política (Gomes, 2020).
No doutorado, essas questões ganharam escala. A pesquisa colocou em relação três dispositivos culturais: o Centro Educacional e Cultural Kaffehuset Friele, em Minas Gerais; a Estação do Conhecimento Einstein-Paraisópolis, em São Paulo; e a Biblioteca Pública Louise Michel, na periferia de Paris.
O estágio doutoral na França e o diálogo com o professor Max Butlen (2008) foram importantes para aprofundar o problema que eu encontrava na prática. Butlen chamava atenção para os limites das políticas de oferta cultural. Os três equipamentos pesquisados enfrentavam dificuldades para alcançar novos públicos: livros, atividades e equipamentos estavam fisicamente disponíveis, mas muitas vezes alcançavam os mesmos grupos.
O que oferecemos? A quem? A partir de quais referências? Quem escolhe o acervo e define a programação? Se a ampliação da oferta é uma conquista fundamental da democratização cultural, seus limites aparecem quando o movimento permanece predominantemente unilateral — de quem seleciona e oferece cultura em direção àquele definido como seu destinatário.
Essa problemática conduziu-nos ao conceito de negociação cultural (Oliveira, 2014). Na tese, procuramos compreender dispositivos de mediação capazes de criar condições para processos de apropriação e negociação cultural. Negociar supõe reconhecer divergências, desigualdades, interesses, repertórios e posições diferentes e sustentar, entre luta e cooperação, a relação.
Chegamos, assim, à ideia de uma ordem cultural negociada, observável na ambientação dos espaços, na constituição dos acervos e repertórios, nas atividades e nos diferentes papéis assumidos por mediadores e frequentadores. Autoria, participação e protagonismo constituem-se no interior dessas relações.
Esse percurso teve continuidade no pós-doutorado na UNESP, em Marília, sob supervisão do professor Oswaldo Francisco de Almeida Júnior, aproximando essas reflexões das questões próprias da Biblioteconomia e da Ciência da Informação.
Mais recentemente, fui cursar Biblioteconomia, buscando me aproximar dos saberes e fazeres específicos do campo e participar da formação de bibliotecárias e bibliotecários. A biblioteca, entendida como dispositivo, no sentido trabalhado por Ivete Pieruccini (2004), implica arquitetura, acervos, linguagens documentárias, regulamentos, tecnologias, profissionais, usuários, práticas e discursos. Sua ordem produz sentidos, e o profissional bibliotecário participa diretamente de sua construção, conscientemente ou não. Reconhecer essa dimensão educativa amplia as possibilidades de uma atuação comprometida com a redução de distâncias históricas e com a construção de bibliotecas mais participativas.
É nesse ponto que retomo uma formulação fundadora da Biblioteconomia. Em 1931, Ranganathan apresentou, entre suas cinco leis, a ideia de que “a biblioteca é um organismo em crescimento”. Quase um século depois, a formulação continua provocadora: o que cresce quando uma biblioteca cresce? Os livros? Os públicos? Os repertórios? As memórias? As possibilidades de expressão e participação? Que crescimento desejamos produzir?
É nesse terreno que se situa, hoje, meu encontro com a Biblioteca Educativa e minha participação no Grupo de Pesquisa em Biblioeducação e na Rede de Pesquisadores em Biblioteconomia Educativa. A Biblioeducação interroga a organização, as mediações, os sujeitos, as relações de poder, os saberes que ganham ou perdem visibilidade e as aprendizagens produzidas pela própria forma de existir da biblioteca. Há aí uma perspectiva decolonial importante: se bibliotecas selecionam, classificam e legitimam conhecimentos, sua dimensão educativa exige perguntar quais conhecimentos foram constituídos como universais, quais vozes permaneceram às margens e quem pode se reconhecer na ordem que a biblioteca constrói.
Trata-se de fazer o dispositivo trabalhar para uma ordem cultural negociada e democrática, avançando da democratização cultural, comprometida com a ampliação do acesso, em direção também à democracia cultural: diferentes sujeitos participando dos processos de produção, organização, circulação e apropriação do conhecimento e da cultura. A biblioteca-fórum, proposta por Perrotti (2017), ajuda a pensar a biblioteca como espaço público de encontro, interlocução, negociação e participação cultural.
Em uma sociedade marcada pela abundância informacional, essa dimensão educativa ganha ainda mais importância. O desafio envolve acesso, mas também condições para buscar, selecionar, compreender, avaliar, relacionar e produzir informação e conhecimento. A competência em informação participa desse processo ao fortalecer a capacidade de sujeitos de se relacionarem criticamente com a informação, formularem perguntas, fazerem escolhas e participarem da vida social.
Que biblioteca queremos habitar?
Habitar implica estabelecer relações, produzir sentidos, deixar marcas e construir vizinhanças. Entendo a biblioteca como um dispositivo comprometido com a eliminação de distâncias históricas que afastaram — e ainda afastam — tantas pessoas da cultura escrita e das possibilidades de reconhecer, fazer circular e produzir conhecimentos e participar da ordem cultural.
Ao chegar aqui, volto àquela casa e à primeira biblioteca que encontrei. Meus pais haviam chegado a São Paulo depois de terem seus caminhos interrompidos pela perseguição política. Recomeçaram e fizeram dos livros uma presença cotidiana na vida dos filhos. Talvez eu enxergue hoje, naquele corredor de estantes de ferro, algo que só muitos anos depois pude formular como questão de pesquisa: que condições uma sociedade oferece para que todas as pessoas possam contar e fazer circular suas histórias, construir seus próprios caminhos com os livros, a leitura, a literatura, a escrita e as bibliotecas, acessar os patrimônios culturais, produzir novos sentidos, fazer escolhas e participar da vida comum?
Noto que minha familiaridade com a cultura escrita nunca significou que eu tivesse apenas algo a oferecer. Nas bibliotecas e projetos em que atuei, encontrei saberes, práticas e modos de compreender, narrar e conhecer o mundo que ampliaram meus próprios repertórios. Hoje, no Piracaia na Leitura, projeto comunitário que desenvolvo na cidade onde moro, literatura, oralidade, bordado, culinária, memórias e histórias universais e locais se encontram. São linguagens e saberes que não precisam se homogeneizar para construir algo em comum: podem aproximar-se, tensionar-se, negociar e produzir juntos novos sentidos.
Biblioteca, educação, cultura, cidadania e democracia seguem, assim, encontrando-se nas pesquisas que realizamos, tendo a negociação cultural como horizonte.
Há uma aposta que atravessa esse percurso, daquela casa do corredor estreito às bibliotecas que hoje estudo, frequento e ajudo a construir: a esperança em um país mais democrático, justo, culturalmente rico e diverso, em que a convivência, as diferenças, os conflitos e as disputas possam encontrar espaços de expressão, coexistência, negociação e participação. Um país em que mais pessoas possam acessar estantes e participar da constituição de seus acervos, trazendo suas referências, memórias, histórias e modos de conhecer o mundo, sem que participar signifique tornar-se igual ou submeter-se a uma cultura determinada.
Que bibliotecas precisamos construir para o país que desejamos habitar?
Referências
ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Meio sol amarelo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
BUTLEN, Max. Les politiques de lecture et leurs acteurs: 1980-2000. Lyon: Institut National de Recherche Pédagogique (INRP), 2008. 614 p.
CAUNE, Jean. Pour une éthique de la médiation: le sens des pratiques culturelles. Grenoble: Presses Universitaires de Grenoble, 1999.
CHARTIER, Roger. A aventura do livro: do leitor ao navegador: conversações com Jean Lebrun. São Paulo: Imprensa Oficial; UNESP, 1999.
FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. São Paulo: Cortez, 1982.
GOMES, Henriette Ferreira. Mediação da informação e suas dimensões dialógica, estética, formativa, ética e política: um fundamento da Ciência da Informação em favor do protagonismo social. Informação & Sociedade: Estudos, João Pessoa, v. 30, n. 4, p. 1-23, out./dez. 2020. Disponível em: https://doi.org/10.22478/ufpb.1809-4783.2020v30n4.57047 Acesso em: 10 out. 2026.
OLIVEIRA, Amanda Leal de. A negociação cultural: um novo paradigma para a mediação e a apropriação da cultura escrita. 2014. 250 f. Tese (Doutorado em Ciência da Informação) – Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2014.
PERROTTI, Edmir. Sobre informação e protagonismo cultural. In: GOMES, Henriette Ferreira; NOVO, Hildenise Ferreira (org.). Informação e protagonismo social. Salvador: EDUFBA, 2017. p. 11-26.
PIERUCCINI, Ivete. A ordem informacional dialógica: estudo sobre a busca de informação em educação. 2004. 194 f. Tese (Doutorado) – Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2004.
RANGANATHAN, S. R. The five laws of library science. Madras: Madras Library Association; London: Edward Goldston, 1931.
Sobre a autora
Professora em programas de pós-graduação lato sensu “Literatura para Crianças e Jovens”, do Instituto Superior de Educação Vera Cruz e no “Bibliotecas Educativas: Gestão e Mediações”, do Centro Universitário Assunção. Membra do Grupo de Governança do Sistema Estadual de Bibliotecas.
Doutora e Mestra em Ciência da Informação pela Universidade de São Paulo. Realizou estágio doutoral junto à Université de Cergy-Pontoise. Bacharela em Biblioteconomia pelo Centro Universitário Claretiano e em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo. Pós-Doutorado em Ciência da Informação pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho.
Redação: Amanda Leal de Oliveira
Fotografia: Mário Miranda Filho
Diagramação: Marcelly Yasmim Portela Trindade










