
Entre livros e dedicatórias, Rachel de Queiroz e Manuel Bandeira revelam laços de uma geração literária

Entre livros e dedicatórias, Rachel de Queiroz e Manuel Bandeira revelam laços de uma geração literária
Pesquisa da Universidade Federal do Ceará revela relações de amizade, sociabilidade e memória preservadas na literatura brasileira do século XX
As bibliotecas guardam não apenas livros, mas também vestígios de relações pessoais, trajetórias intelectuais e redes de sociabilidade construídas ao longo da vida. Partindo dessa perspectiva, uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal do Ceará analisa as dedicatórias manuscritas trocadas entre Rachel de Queiroz e Manuel Bandeira, revelando vínculos de amizade, admiração e afeto presentes nos acervos pessoais dos autores.
Desenvolvida por Ana Bastos, egressa do curso de mestrado em Ciência da Informação pela UFC, a pesquisa investiga as dedicatórias presentes em livros das bibliotecas particulares dos dois escritores. O estudo busca compreender como essas mensagens ajudam a reconstruir relações interpessoais, memórias e redes de sociabilidade entre intelectuais da literatura brasileira do século XX.
A investigação documental foi realizada a partir dos acervos da Biblioteca Central da Universidade de Fortaleza (Unifor), responsável pela guarda da coleção Rachel de Queiroz, e da Biblioteca Acadêmica Lúcio de Mendonça, vinculada à Academia Brasileira de Letras, onde está preservada a coleção de Manuel Bandeira.
Por meio da análise de catálogos on-line e visitas presenciais aos acervos, a pesquisadora identificou 23 dedicatórias trocadas entre os escritores: 21 de Manuel Bandeira para Rachel de Queiroz e 2 de Rachel para Bandeira.

As dedicatórias são tratadas como marcas de proveniência, ou seja, elementos capazes de revelar informações sobre quem escreveu, recebeu e preservou os exemplares ao longo do tempo.

Nesse contexto, os livros dedicados passam a ser compreendidos também como documentos históricos e informacionais, capazes de registrar trocas culturais e relações interpessoais entre os escritores.
“A dedicatória manuscrita entendida como informação, e documentada em um acervo de memória, passa a ser uma importante ferramenta capaz de representar um indivíduo nas suas práticas e desvendar suas relações sociais”, destaca a pesquisadora.
Reconhecida como um dos principais nomes da literatura brasileira, Rachel de Queiroz foi autora de obras como O Quinze (1930) e Caminho de pedras (1937), além de ter sido a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras, em 1977. A sua produção literária ficou marcada pela linguagem simples e próxima da oralidade nordestina, bem como pela abordagem de temas sociais, políticos e femininos ligados ao sertão brasileiro.
Já Manuel Bandeira consolidou-se como um dos principais representantes do modernismo brasileiro. Autor de obras como Carnaval (1919) e Libertinagem (1930), destacou-se pela escrita coloquial e profundamente lírica. Um dos marcos de sua trajetória foi o poema Os Sapos (1919), apresentado durante a Semana de Arte Moderna de 1922 e considerado fundamental para sua consolidação como precursor da poesia modernista brasileira.

Apesar de pertencerem a diferentes gerações do modernismo, Rachel de Queiroz e Manuel Bandeira mantiveram uma relação próxima durante décadas. O primeiro encontro entre os escritores ocorreu no início dos anos 1930, no Rio de Janeiro, por meio do grupo literário “Amigos do Curvelo”, do qual Bandeira participava. A amizade foi fortalecida pela convivência intelectual e pelas trocas literárias ao longo dos anos.

Segundo a pesquisa, a relação entre os escritores ultrapassava o reconhecimento profissional e era marcada também por admiração e afeto mútuos. Rachel dedicou a Bandeira a obra As Três Marias, enquanto o poeta escreveu, em homenagem à escritora, o poema Louvado para Rachel de Queiroz, em 1960.
Nas dedicatórias de Bandeira predominam a simplicidade, o coloquialismo e a intensidade emocional, características também presentes em sua poesia. Já Rachel apresenta elementos ligados à oralidade, ao regionalismo e às chamadas “políticas de amizade”.
A pesquisa também destaca a importância da preservação de bibliotecas particulares e coleções especiais para os estudos sobre memória e patrimônio bibliográfico. Segundo a Ana, a manutenção integral desses acervos foi fundamental para possibilitar o mapeamento das relações construídas entre os escritores ao longo do século XX.
Do total de aproximadamente 3,1 mil obras presentes na coleção de Rachel de Queiroz, cerca de um terço possui dedicatórias manuscritas. Foram identificadas aproximadamente 950 mensagens enviadas à escritora por 461 autores diferentes. Entre eles, Manuel Bandeira aparece como o escritor que mais dedicou livros à autora cearense.
Além de investigar a relação entre os dois escritores, o trabalho também amplia discussões sobre memória, documento e patrimônio cultural no campo da Ciência da Informação. O estudo reforça que marcas deixadas nos livros, como dedicatórias, anotações e assinaturas, podem funcionar como importantes fontes para compreender redes intelectuais e aspectos da vida cultural brasileira.
“A frequência da comunicação nas dedicatórias manuscritas entre Rachel de Queiroz e Manuel Bandeira revela o trajeto de uma relação marcada por reconhecimento profissional e afeto mútuo entre os literatos”, conclui a pesquisa.
Acesse a dissertação em:
BASTOS, Ana Wanessa Barroso. Rede de afeto e memórias: uma análise de conteúdo das dedicatórias manuscritas entre Rachel de Queiroz e Manuel Bandeira. 2024. 161 f. Dissertação (Mestrado em Ciência da Informação) – Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2024. Disponível em: https://repositorio.ufc.br/handle/riufc/79999 . Acesso em: 20 maio 2024.
Redação: Vanessa Forte
Revisão: Iasmim Farias Campos Lima
Diagramação: Iasmim Farias Campos Lima










