
Preservação de documentos de mídias sociais: desafios e melhores práticas

Preservação de documentos de mídias sociais: desafios e melhores práticas
Pesquisa da Universidade Federal Fluminense destaca importância da preservação de documentos nas mídias sociais
Estudo da Universidade Federal Fluminense (UFF) investigou a complexidade dos documentos arquivísticos provenientes das mídias sociais, considerando sua natureza imediata e em constante evolução.
Foram analisados desafios, usos, critérios de identificação e melhores práticas de gestão e preservação em instituições arquivísticas e agências públicas de diferentes países. Um resultado importante da pesquisa foi fornecer orientações para lidar com esses registros digitais, considerando sua importância como fonte de informação e a necessidade de preservação a longo prazo.
“Observou-se que as instituições públicas utilizam rapidamente as mídias sociais, mas enfrentam dificuldades na identificação e tratamento técnico dos conteúdos documentais. Isso muitas vezes resulta em arquivamento inadequado, devido à falta de captura do contexto”, relata Sérgio Silva, autor do estudo.
No entanto, também foram identificadas várias oportunidades para melhorar as práticas de preservação digital, garantindo a autenticidade dos conjuntos documentais ao manter a cadeia de custódia ininterrupta.
As mídias sociais são estruturas que conectam pessoas e organizações, permitindo relacionamentos horizontais e compartilhamento de informações. Elas são usadas para expressar opiniões, compartilhar informações e promover transparência e participação social. Exemplos de mídias sociais incluem: Facebook, YouTube, Twitter e Instagram.
O Orkut e o MySpace foram redes sociais populares, mas enfrentaram problemas de perda de dados. O Orkut saiu do ar em 2014, resultando no desaparecimento de bilhões de fotografias e interações.

Poucos usuários salvaram seus registros, e o MySpace perdeu todas as músicas hospedadas entre 2003 e 2015 devido a um projeto de migração mal-sucedido. Esses casos ressaltam a importância de fazer backup do conteúdo digital e levantam preocupações sobre a falta de aviso prévio aos usuários sobre a remoção de dados.
Os usuários de mídias sociais estão preocupados com a perda de conteúdo devido à efemeridade e falta de garantia de preservação. Os “stories” permitem que fotos e vídeos sejam publicados por até 24 horas antes de desaparecerem, enquanto as transmissões ao vivo podem ser perdidas após o término da transmissão. Problemas técnicos e o encerramento de uma mídia social podem resultar em perda definitiva de conteúdo. A preservação desses tipos de mídia social é uma preocupação para os usuários.
As mídias sociais não possuem obrigações legais de reter ou preservar documentos, resultando em uma falta de suporte interno para arquivamento adequado. Isso leva a uma internet com muito conteúdo, mas pouca ou nenhuma memória, o que preocupa os profissionais da informação.
A capacidade de armazenamento digital é limitada em comparação com a produção global na internet, e apenas uma pequena porcentagem desse conteúdo é preservada. A gestão de documentos de mídia social é um desafio para as empresas, com poucas políticas abrangentes e a falta de inclusão de postagens de mídias sociais em políticas de governança de informações.
Órgãos governamentais têm utilizado cada vez mais as mídias sociais para comunicação e divulgação de informações. Esses registros são considerados documentos de arquivo e refletem as atividades das instituições governamentais.
“À medida que as mídias sociais evoluem, os arquivos precisam adotar novas técnicas para capturar e arquivar o conteúdo web, incluindo metadados, garantindo uma cadeia de custódia digital ininterrupta. Isso é essencial para preservar a autenticidade e confiabilidade dos registros, incorporando-os a sistemas seguros para garantir a continuidade dos conjuntos documentais”, definiu Sérgio.

A pesquisa mapeou as atividades e usos dessas mídias por instituições governamentais e arquivísticas, enfatizando a importância da reputação online e das melhorias nos processos governamentais. Além disso, identificou-se quatro motivações principais para o uso das mídias sociais pelo governo, bem como os focos de atuação das instituições arquivísticas nesse contexto.
“A participação nessas plataformas parece estimular o engajamento da comunidade e reforçar o papel das instituições arquivísticas como não apenas guardiãs de documentos, mas também como agentes educacionais e culturais”, revelou o autor.

Adaptado de Silva (2023, p. 100)
As mídias sociais desempenham um papel importante na sociedade, fortalecendo a sociedade civil e promovendo a participação democrática. No entanto, a interação entre governos e cidadãos nessas plataformas apresenta desafios na gestão de documentos. As agências governamentais precisam estabelecer políticas claras para tratar o conteúdo das mídias sociais como documentos, garantindo conformidade legal, transparência e acesso à informação.

status arquivístico completo / Adaptado de Silva (2023, p. 228)
A gestão de documentos em mídias sociais requer a aplicação de princípios arquivísticos adaptados a esse ambiente dinâmico. A Arquivologia e abordagens interdisciplinares, como a Diplomática e a tecnologia digital, ajudam a identificar e preservar adequadamente os documentos nessas plataformas.
No entanto, definir esses documentos e garantir sua custódia segura são desafios. A falta de ambientes seguros e a incerteza em relação à segurança a longo prazo nas mídias sociais são obstáculos à preservação dos registros arquivísticos. A captura completa do conteúdo das mídias sociais e a preservação digital abrangente são essenciais para garantir a autenticidade e a integridade dos documentos ao longo do tempo.

A metodologia proposta se baseou nos conceitos de modelo OAIS, autenticidade, cadeia de custódia e metadados, visando preservar os documentos de mídia social de forma íntegra, autêntica e acessível.
Para garantir a preservação de documentos digitais produzidos em mídias sociais a longo prazo, é fundamental que os arquivistas se envolvam desde o início do processo de desenvolvimento de sistemas de informação, colaborando com profissionais de tecnologia da informação para criar ferramentas e métodos consistentes de captura e transferência de conteúdo para repositórios confiáveis.
A legislação arquivística, como a Portaria nº 131 de 2021 do CONARQ no Brasil, desempenha um papel importante na definição de políticas de preservação de documentos de mídias sociais. Através da Câmara Técnica Consultiva (CTC) e consulta pública, estão sendo desenvolvidas diretrizes e recebidas contribuições da sociedade sobre políticas e requisitos de preservação.
Essas ações visam aprimorar a preservação desses documentos, abordando desafios tecnológicos e éticos. Sugestões para pesquisas futuras incluem políticas específicas, procedimentos técnicos, acesso público, metadados padronizados, direitos autorais, privacidade e riscos cibernéticos. O foco está na busca de formas eficazes de preservar o conteúdo das mídias sociais.
Acesse a tese em:
SILVA, Sérgio Matias da. O conteúdo de mídias sociais como documento arquivístico e os desafios à sua preservação: uma análise a partir do contexto internacional. 2023. 342 f. Tese (Doutorado em Ciência da Informação) – Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, Instituto de Arte e Comunicação Social, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2023. Disponível em: https://app.uff.br/riuff/handle/1/28128 . Acesso em: 11 jul. 2026.
Redação: Vanessa Forte e Naiara Raissa da Silva Passos
Diagramação: Pedro Ivo Silveira Andretta










