
“Conceito de Rua”: A Construção dos Espaços de Memória no Hip Hop Brasileiro – Entrevista com Marlene Moraes

“Conceito de Rua”: A Construção dos Espaços de Memória no Hip Hop Brasileiro – Entrevista com Marlene Moraes
Marlene Vasconcelos Moraes de Oliveira
marlenevmoraes@outlook.com
Sobre a entrevistada
Em 2024, Marlene Vasconcelos Moraes de Oliveira defendeu sua dissertação pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Escola de Ciência da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais, sob sob orientação do Prof. Dr. Rubens Alves da Silva.
Natural do Rio de Janeiro (RJ), tem formação em Biblioteconomia e Gestão da Informação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e atua na área de Ciência da Computação, exercendo a profissão de engenheira de software. Entre seus hobbies estão a leitura, os cosplays, as aulas de improviso, as séries e os jogos de mesa.
Sua dissertação, intitulada “Conceito de rua: a construção dos espaços de memória no Hip-Hop brasileiro”, investigou a influência do Hip-Hop nacional, desde suas origens até os dias atuais, na construção e disseminação do conhecimento, da memória e da identidade cultural. O estudo analisou como o Hip-Hop brasileiro se consolidou como prática cultural, política e informacional, especialmente a partir das intervenções urbanas das décadas de 1970 e 1980, com destaque para espaços como a Rua 24 de Maio e o Largo do São Bento. A pesquisa aponta que o movimento Hip-Hop possui relevância histórica e cultural na valorização da cultura popular brasileira, sobretudo nas periferias urbanas.
Divulga-CI (DC): O que te levou a fazer o mestrado e o que te inspirou na escolha do tema da dissertação?
Marlene Moraes (MM): A dissertação era um sonho pessoal. Eu gostaria de realizar pesquisas na área e gostaria que fosse com um tema que me dê forças todos os dias para levantar. Foi muito fácil escolher este tema após uma apresentação de trabalho na disciplina de “Competência em Informação” durante a minha graduação. Apresentamos sobre rap e funk, mas a professora chamou atenção pelo meu desempenho na apresentação do rap. Este trabalho também foi dedicado a ela no final.
DC: Quem será o principal beneficiado pelos resultados alcançados?
MM: A cena do Hip Hop (B-boys, MCs, grafiteiros, poetas das ruas e muitos outros participantes dessa cultura), sem sombra de dúvidas, mas também: pessoas racializadas; os movimentos musicais também carecem de registros mnemônicos; acadêmicos que possuem o interesse em linhas como black music, memória e identidade social, e a Ciência da Informação.
DC: Quais as principais contribuições que destacaria em sua dissertação para a ciência e a tecnologia e para a sociedade?
MM: Para a ciência, a principal contribuição foi abrir caminhos e mostrar que o Hip-Hop e a cultura de rua são fontes legítimas de conhecimento que a Ciência da Informação precisa estudar, mapear e ajudar a organizar. Para a sociedade, o trabalho evidencia, para as periferias, o valor de sua própria história e saibam como proteger seu patrimônio cultural imaterial, para preservar uma cultura que historicamente é empurrada para as margens.
DC: Seu trabalho está inserido em que linha de pesquisa do Programa de Pós-Graduação? Por quê?
MM: Sim, na linha ‘Memória Social, Patrimônio e Produção do Conhecimento’. Escolhi esta linha, pois já trabalho diretamente com os conceitos de memória, identidade social e cultura.
DC: Citaria algum trabalho ou ação decisiva para sua dissertação? Quem é o autor desse trabalho, ou ação, e onde ele foi desenvolvido?
MM: “A dissertação do Dr. Rosiclei da Silva, “Informação“, cultura e cidadania no coração da periferia pelas batidas do Hip Hop”, foi uma recomendação da professora de quem falei anteriormente, Dra. Marianna Zattar, e foi essencial para me guiar na ponte entre o Hip-Hop e a Ciência da Informação. E, também, os artigos de Reginaldo de Moraes: “New York e o Bronx. A opulência vista pelo outro lado (I)” e “New York e o Bronx. Colapso social e políticas de resistência (II)”. Esses artigos foram fundamentais para compreender o início do Hip-Hop estadunidense. Quem os indicou foi o meu primeiro orientador, o Prof. Dr. Luiz Henrique Assis Garcia.
DC: Quais foram os passos que definiram sua metodologia de pesquisa?
MM: Primeiro que minha pesquisa teve uma reorganização após a qualificação, por eu não estar conseguindo atingir meus objetivos acadêmicos daquele momento, então, eu decidi partir para uma análise de discurso, mantendo uma revisão bibliográfica dos autores e o glossário sugerido pelo orientador. Então, não foi planejado. Foi muito “a pesquisa levou.”
DC: Quais foram as principais dificuldades no desenvolvimento e escrita da dissertação?
MM: Foi conectar todos os capítulos para uma melhor fluidez. Há capítulos que parei por dias para tentar compreender como eles poderiam ser mais fluidos para o leitor.
DC: Em termos percentuais, quanto teve de inspiração e de transpiração para fazer a dissertação?
MM: Foi 70% inspiração e 30% de transpiração, com muita dificuldade! Acredito que a dificuldade maior de todas foi manter o linguajar de fácil acesso para que qualquer pessoa pudesse compreender sem sair da escrita acadêmica.
DC: Teria algum desabafo ou considerações a fazer em relação à caminhada até a defesa e o sucesso da dissertação?
MM: As partes mais burocráticas e estruturais da dissertação são bastante desgastantes para o estudante. Não vou mentir: foram muitas negociações para obtermos o resultado atual e acho que ainda falta muito caminho.
DC: Como foi o relacionamento com a família durante o mestrado?
MM: Minha família sempre me apoiou em tudo que podia, então, foi muito mais doloroso para mim por estar em outro estado, sem a família por perto, mas sempre em contato por ligações, para manter a saúde mental firme.
DC: Agora que concluiu a dissertação, o que mais recomendaria a outros mestrandos que tomassem seu trabalho como ponto de partida?
MM: Mergulhem em mais referências além das que eu obtive! O Hip-Hop é vivo! Sempre há uma novidade, seja na música, seja na cena… Sempre há o que dizer e uma nova entrevista. Aconselho também a buscar outras metodologias de pesquisa como entrevistas. Os pioneiros (os primeiros B-boys, MCs e grafiteiros) são muito receptivos em relação a entrevistas, seria interessante ter trabalhos com essa diversidade.
DC: Como você avalia a sua produção científica durante o mestrado? Já publicou artigos ou trabalhos resultantes da pesquisa? Quais você aponta como os mais importantes?
MM: Tive muita produção durante as aulas e cheguei a apresentar um artigo em um evento, mas nada além disso. Hoje, estou correndo atrás de mostrar e demonstrar mais em artigos e textos menores em eventos e periódicos.
DC: Desde a conclusão da dissertação, o que tem feito e o que pretende fazer em termos profissionais?
MM: Dei uma pausa de um pouco mais de 1 ano para focar no meu trabalho e na minha especialização lato sensu, que não é na área. Estou retornando, aos poucos, ao meio acadêmico. Este ano por interesse em tornar-me pesquisadora (seja independente ou não).
DC: Pretende fazer doutorado? Será na mesma área do mestrado?
MM: Sim, mas não por agora. Estou pesquisando e publicando resumos expandidos e artigos. Gostaria que fosse na Ciência da Informação, mas como tenho dois vieses de estudo (CI e CC), eu temo que possa cair mais para o lado da Computação do que para CI. Contudo, espero continuar pesquisando na área, mesmo que no pós-doutorado.
DC: O que faria diferente se tivesse a chance de ter começado sabendo o que sabe agora?
MM: Teria feito como estudante/aluna especial. É fundamental para o estudante de pós-graduação que vem de outra instituição, para, além de conhecer o seu corpo docente, entender as técnicas de estudo da instituição à qual gostaria de se candidatar. Ficar, pelo menos, seis meses estudando na ECI e conhecendo o meio para ali elaborar o projeto de pesquisa seria muito melhor do que como fiz: pesquisei apenas a instituição, a linha de pesquisa de que gostaria e li o edital.
DC: O que o Programa de Pós-Graduação fez por você e o que você fez pelo Programa nesse período de mestrado?
MM: O PPGCI me forjou como cientista, a ser curiosa, mas também a ser cautelosa. Quando pesquisamos, encontramos um universo de referências infinitas e, ao nos debruçarmos sobre os livros, passamos por diversas áreas. O PPG mostrou que o recorte é importante para a qualidade do trabalho também.
Acredito que contribuí para preencher a lacuna entre o Hip-Hop e a Ciência da Informação, assim como Dr. Rosiclei e espero ainda ver mais trabalhos sobre o tema relacionados a Ciência da Informação. Há muito o que explorar!
Entrevistada: Marlene Vasconcelos Moraes de Oliveira
Entrevista concedida em: 26 de maio de 2026
Formato da entrevista: Escrita
Redação da Apresentação: Iasmim Farias Campos Lima
Fotografia: Marlene Vasconcelos Moraes de Oliveira
Diagramação: Iasmim Farias Campos Lima










