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v. 4, n. 07, jul. 2026
A Sociedade do espetáculo, Cultura do cancelamento e os discursos no Twitter – Entrevista com Dulce Hirli

A Sociedade do espetáculo, Cultura do cancelamento e os discursos no Twitter – Entrevista com Dulce Hirli

A Sociedade do Espetáculo, Cultura do Cancelamento e os Discursos no Twitter – Entrevista com Dulce Hirli

Dulce Hirli Costa Almeida
dulcealmeida@aluno.ibict.br

Sobre a entrevistada

Em 2024, Dulce Hirli Costa Almeida defendeu sua dissertação pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, convênio entre o Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sob orientação do Prof. Dr. Arthur Coelho Bezerra.

Natural de São Luís (MA), Dulce é bacharel em Biblioteconomia pela Universidade Federal do Maranhão. Atualmente, cursa doutorado em Ciência da Informação também pelo Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia, atua na representação discente do doutorado e integra o grupo ESCRITOS – Estudos Críticos em Informação, Tecnologia e Organização Social. Entre seus hobbies estão cantar, tocar instrumentos e passear.

Sua dissertação, intitulada “Cultura do cancelamento nas plataformas sociodigitais: análise do discurso no Twitter Brasil”, analisou os impactos da cultura do cancelamento no X, antigo Twitter, a partir do caso envolvendo o cantor Zé Neto. A pesquisa evidencia como discursos de desqualificação, humilhação pública e ódio atravessam disputas nas redes, compreendendo o cancelamento como fenômeno ambíguo, espetacularizado e alimentado por algoritmos nas dinâmicas contemporâneas de circulação informacional.

Divulga-CI (DC): O que te levou a fazer o mestrado e o que te inspirou na escolha do tema da dissertação?

Dulce Hirli (DH): Eu amo pesquisar e lecionar! Durante toda a graduação, dediquei-me a pesquisas e quis continuar com isso. Logo após a graduação, eu fui para o mercado de trabalho como professora. O meio que eu encontrei para continuar fazendo isso foi mergulhar na Pós-Graduação e entrar para o mestrado. O tema sobre cultura do cancelamento nasce a partir da sala de aula. Eu ministrava uma disciplina de iniciação científica e perdia a atenção dos alunos para pautas de cancelamento que surgiam no Twitter. Mas eu mesma, da área da informação, estava por fora do que acontecia. Daí resolvi me aproximar dos alunos, majoritariamente jovens, para entender o que tanto chamava atenção naquela rede.

DC: Quem será o principal beneficiado pelos resultados alcançados?

DH: Eu sempre vou escrever para a sociedade. Quando eu falo de cultura do cancelamento, a minha intenção é alcançar os jovens, principalmente para que eles tenham uma visão mais crítica em ambientes digitais e consigam perceber toda a lógica algorítmica por trás

DC: Quais as principais contribuições que destacaria em sua dissertação para a ciência e a tecnologia e para a sociedade?

DH: Eu acredito que, para a ciência e a tecnologia, a grande contribuição foi a combinação de técnicas que resultou em uma metodologia para analisar a cultura do cancelamento no X (antigo Twitter). Apenas me dei conta disso muito recentemente.

Combinei mapeamento de trending topics, coleta de tweets, revisitei a análise de discurso de Bakhtin e, a partir disso, apontei quatro marcadores discursivos recorrentes (mimimi, lacração, exposed e sonegação de informação) que ajudam a reconhecer e analisar cancelamentos de forma sistemática. Esse modelo pode ser replicado em outros estudos sobre comportamento digital. Já para a sociedade, destaco tudo o que falei anteriormente sobre os jovens e também a contribuição para debates sobre a necessidade de maior transparência algorítmica e responsabilização das big techs.

DC: Seu trabalho está inserido em que linha de pesquisa do Programa de Pós-Graduação? Por quê?

DH: Meu trabalho faz parte da Linha 2 do Programa: “Configurações Socioculturais, Políticas e Econômicas da Informação.” É um trabalho que permeia a comunicação contemporânea e o regime de informação no qual estamos inseridos. A pesquisa mostra como o X opera sob regras, autoridades e recursos informacionais que definem quem fala, o que é visível e o que não chega a nós, os usuários. Nesse contexto, a cultura do cancelamento é um produto desse regime que acontece dentro de uma estrutura que privilegia certos discursos em detrimento de outros.

DC: Citaria algum trabalho ou ação decisiva para sua dissertação? Quem é o autor desse trabalho, ou ação, e onde ele foi desenvolvido?

DH: Que difícil! Eu preciso citar o Twitter Monitor do Laboratório em Rede de Humanidades Digitais, o LARHUD, que viabilizou a coleta dos tweets, especialmente o Dr. Josir Cardoso Gomes. Sem isso meu trabalho estaria incompleto.

DC: Quais foram os passos que definiram sua metodologia de pesquisa?

DH: Antes de tudo, eu realizei uma leitura aprofundada sobre a cultura do cancelamento e sobre os outros conceitos para saber quais pesquisas já tinham sido realizadas sobre isso. Depois, defini que iria analisar os assuntos do momento entre abril e novembro de 2022, por se tratar de um ano de eleição e, nesse período, as redes sociais tendem a ficar mais hostis. Usei um site chamado Get Day Trends, que guarda o histórico dos assuntos mais comentados no Twitter por data, hora e região e diariamente verificava quais nomes estavam nos trending topics e investigava se o caso correspondia a um cancelamento. Para  essa verificação, eu lia os comentários e via o que as pessoas estavam dizendo. Dentre os cancelamentos que apareceram, o do Zé Neto se desdobrou em temas como machismo, política, briga de fãs e até investigação de dinheiro público. Com a ferramenta Twitter Monitor, coletei os tweets e, com base em uma amostragem, extraí as ocorrências das palavras-chave que escolhi. Dividi os tweets em cinco grupos: discursos de ódio, neutralidade, a favor do cancelado, contra o cancelado e exposed (tweets que mostram algo vergonhoso). Depois de tudo isso, escolhi os quatro marcadores discursivos: mimimi, lacração, exposed, sonegação. Só então, fiz a análise do discurso usando a teoria de Bakhtin.

DC: Quais foram as principais dificuldades no desenvolvimento e escrita da dissertação?

DH: Lidar com vários conceitos de cultura do cancelamento e com as várias mudanças do Twitter durante a pesquisa. Além disso, senti a necessidade de ter cautela redobrada ao apresentar evidências, fundamentar minhas análises e deixar claro que meu papel não era tomar partido de nenhum lado.

DC: Em termos percentuais, quanto teve de inspiração e de transpiração para fazer a dissertação?

DH: Não sou boa com porcentagem. Eu chutaria 30% de inspiração, que veio dos autores utilizados, do meu orientador, dos meus colegas de pesquisa, dos meus professores, e 70% de transpiração. Eu tive que mergulhar em várias leituras complexas, embora Bakhtin seja da área de Linguagens, tive muita dificuldade para entender e adaptar à minha pesquisa. Ler uma grande quantidade de tweets que tinham conteúdos desagradáveis cansa mentalmente, além de optar por um único caso,já que o período de dois anos passa muito rápido.

DC: Teria algum desabafo ou considerações a fazer em relação à caminhada até a defesa e o sucesso da dissertação?

DH: Não foi fácil deixar tudo no meu estado para fazer uma pós-graduação no Rio. Minha avó faleceu durante esse tempo e eu não pude dar o último adeus. Peguei Covid-19 no segundo mês de curso, me perguntei várias vezes se não era melhor largar tudo e voltar ao mercado de trabalho, já que eu estava sobrevivendo numa cidade somente com bolsa de pesquisa… Mas ainda assim, quando entreguei o texto dentro do prazo, foi uma sensação de “UFA! Consegui.

DC: Como foi o relacionamento com a família durante este tempo?

DH: Eu tive todo o apoio da minha irmã, tornou-se a única família que eu tinha, e que acabou vindo para o Rio. Então, fiquei mais tranquilo com ela aqui.

DC: Agora que concluiu a dissertação, o que mais recomendaria a outros mestrandos que tomassem seu trabalho como ponto de partida?

DH: Aprofundem as diferenças de gênero e etnia em suas pesquisas, isso ficou faltando na minha. Façam terapia, se possível, porque estudar discurso de ódio nos suga. Busquem bons orientadores e uma rede de apoio para ler, tomar café, surtar e chorar juntos.

DC: Como você avalia a sua produção científica durante o mestrado? Já publicou artigos ou trabalhos resultantes da pesquisa? Quais você aponta como os mais importantes?

DH: Eu acho que deveria ter escrito mais. Foquei na dissertação e deixei de escrever artigos para revistas, por exemplo. O trabalho que eu deixo como mais importante dessa pesquisa até aqui é “Dinâmicas de desinformação no cancelamento de Zé Neto: um estudo de caso na plataforma X” que pode ser encontrado na BRAPCI. 

DC: Desde a conclusão da dissertação, o que tem feito e o que pretende fazer em termos profissionais?

DH: Ingressei no mercado de trabalho e no doutorado ao mesmo tempo, mas optei apenas pelo doutorado agora. Agora estou na fase de escrever a  tese e pretendo publicar artigos fazendo outras análises com a metodologia da dissertação. 

DC: Como está o doutorado? É na mesma área do mestrado?

DH: Estou seguindo com o doutorado, com a mesma linha, com o mesmo programa e com o mesmo orientador. Agora, deixei o X de lado para focar em discursos de ódio nas escolas.

DC: O que faria diferente se tivesse a chance de ter começado sabendo o que sabe agora?

DH: Eu pararia de escrever só quando estivesse inspirada e me disciplinaria para sentar para escrever, mesmo que fossem parágrafos soltos. Quanto antes você começar a escrever, melhor.

DC: O que o Programa de Pós-Graduação fez por você e o que você fez pelo Programa nesse período de mestrado?

DH: O PPGCI me ofereceu suporte desde a minha chegada ao Rio. Foi um ambiente de crescimento, acolhimento e desafio. Me ofereceu referencial teórico sólido, infraestrutura de pesquisa e orientação de excelência. Eu produzi pesquisa inédita e inseri o Programa em um debate contemporâneo. Levei, e continuo levando, o nome do PPGCI para outros espaços, cidades e até países.

DC: Você por você: 

DH: Resiliente: começo quantas vezes forem necessárias. Aprendi mais sobre minhas limitações, mas também sobre minhas procrastinações. Meu corpo não é uma máquina. Quando ele pede para descansar, tenho que parar mesmo que o cérebro recuse. Continuo amando pesquisar, mesmo com todas as dificuldades.


Entrevistada: Dulce Hirli Costa Almeida
Entrevista concedida em:  30 de maio de 2026
Formato de entrevista: Escrita
Redação da Apresentação: Marcelly Yasmim Portela
Fotografia: Dulce Hirli Costa Almeida
Diagramação: Marcelly Yasmim Portela

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