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v. 3, n. 08, ago. 2025
Desinformação e verificação de notícias no Twitter nas eleições brasileiras de 2022 – Entrevista com Camila Furtado

Desinformação e verificação de notícias no Twitter nas eleições brasileiras de 2022 – Entrevista com Camila Furtado

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Desinformação e verificação de notícias no Twitter nas eleições brasileiras de 2022 – Entrevista com Camila Furtado

Camila Furtado

camiila.melo.f@gmail.com

Sobre a entrevistada

Camila é natural de Belém do Pará e atua como bolsista de projeto de pesquisa no IBICT (baobá – Plataforma Multidisciplinar de Escuta Social Digital, combate à desinformação e promoção aos direitos difusos). Alguns dos seus hobbies são ir à praia, observar o nascer e pôr do sol, ler e assistir conteúdos leves e fáceis.

Em 2024, Camila Furtado defendeu sua dissertação intitulada “A desinformação sob a perspectiva da verificação de notícias: uma netnografia sobre a comunidade online que comentou nas publicações da Agência Lupa no Twitter durante as eleições brasileiras de 2022”, sob orientação do Prof. Dr. Thiago Magela Rodrigues Dias.

Sua pesquisa é sobre a verificação das notícias falsas que foram disseminadas nas redes sociais, feita pela Agência Lupa e compartilhada no X (antigo Twitter) durante o período das eleições presidenciais de 2022. Foram analisados os comentários das publicações e também as ações da agência para combater a desinformação no âmbito eleitoral. Os resultados mostram que as mentiras se infiltram na formação de opinião do eleitorado e geram ameaças à democracia.

Nesta entrevista, Camila compartilha sua trajetória acadêmica e os aprendizados construídos ao longo de seu processo de doutorado.

Divulga-CI (DC): O que te levou a fazer o mestrado e o que te inspirou na escolha do tema da dissertação?

Camila Furtado (CF): O resultado satisfatório do TCC para concluir o curso de Biblioteconomia e o apoio das minhas orientadoras (Djuli e Doyle) foram grandes incentivos para fazer o mestrado, além da oportunidade de mudar de cidade e construir uma carreira em algo que acreditei ser boa. Comecei o mestrado no ano das eleições presidenciais, quando a produção de desinformação que observava nas redes sociais era quase inacreditável até para mim, que já estava familiarizada com o problema. Foi daí que surgiu a curiosidade que me levou à escolha do tema. 

DC: Quem será o principal beneficiado dos resultados alçados?

CF: As iniciativas de combate à desinformação voltada para a política, além das pessoas, instituições e causas envolvidas. 

DC: Quais as principais contribuições que destacaria em sua dissertação para a ciência e a tecnologia e para a sociedade?

CF: Apontaria a análise qualitativa com software. A análise lexical permite observar os diferentes contextos da desinformação e como eles se entrelaçam. É importante conhecer o modus operandi de quem produz as mentiras que penetram as pessoas nas redes sociais. No caso das eleições, os cenários foram construídos a partir de embasamento histórico, semelhantes aos dos golpes de Estado de 1937 e 1964. Às vezes questionamos sobre os porquês dos pedidos de volta da ditadura durante o ocorrido em 08 de janeiro de 2023 e, olhando para relações entre as narrativas do século passado e as de 2022, é possível entender todos.

DC: Seu trabalho está inserido em que linha de pesquisa do Programa de Pós Graduação? Por quê?

CF: Linha 2: Informação, Comunicação Científica e Competência, porque investiga os efeitos nocivos da manipulação da informação direcionada à pessoas com níveis baixos de interpretação crítica. 

DC: Citaria algum trabalho ou ação decisiva para sua dissertação? Quem é o autor desse trabalho, ou ação, e onde ele foi desenvolvido?

CF: Os textos de Manuel Castells e Zygmunt Bauman foram norteadores para entender a sociedade da informação. Assim como o dossiê de conceituação da desinformação de Claire Wardle e Hossein Derakhshan. Livros como ikritika, da autoria de Arthur Coelho Bezerra, Marco Schneider, Ricardo M. Pimenta e Gustavo Silva Saldanha. E também o livro “Desinformação, ingrediente da desordem: um resgate crítico de fake news”, de Suely Figueiredo, que esteve na banca de defesa, Davino Lima e Luís Carlos Ferrari. 

DC: Quais foram os passos que definiram sua metodologia de pesquisa?

CF: Primeiro, olhar o que tinha na literatura para decidir qual abordagem adotar, como a rede social a se trabalhar e a coleta diária de dados do X (na época Twitter). Depois foram os inúmeros testes no Iramuteq para, finalmente, obter resultados consideráveis.

DC: Quais foram as principais dificuldades no desenvolvimento e escrita da dissertação?

CF: A maior dificuldade foi estruturar os dados para que fossem analisados no Iramuteq. Aprender a utilizar o software foi uma tarefa difícil e quase cheguei a desistir. Foi preciso muita insistência para que a proposta de utilizá-lo nesses dados ficasse pertinente. 

DC: Em termos percentuais, quanto teve de inspiração e de transpiração para fazer a dissertação?

CF: 40% inspiração e 60% transpiração. Como precisei aprender algo novo, os dois fatores foram cruciais quase simultaneamente.

DC: Teria algum desabafo ou considerações a fazer em relação à caminhada até a defesa e o sucesso da dissertação?

CF: Mudar de cidade sozinha para fazer mestrado exige muita responsabilidade e coragem. Tive um pouco de dificuldade nos dois anos de curso por ter que lidar com a transição de rotina, ambiente e a solitude de estar longe da família e amigos. O compromisso com os prazos, muitas vezes, faz com que a gente se esqueça de cuidar de si e não perceba os sintomas do declínio da saúde mental. Mas, apesar dos pesares, continuar no caminho e entregar o que foi proposto se tornou um aprendizado que levarei para a vida. 

DC: Como foi o relacionamento com a família durante este tempo?

CF: Apesar de estarem muito orgulhosos e felizes pelas minhas conquistas, meus familiares tiveram que se acostumar com a falta de tempo e comunicação da minha parte. A distância entre cidades contribuiu para uma maior dificuldade nesse quesito. 

DC: Agora que concluiu a dissertação, o que mais recomendaria a outros mestrandos que tomassem seu trabalho como ponto de partida?

CF: Recomendo que conversem bastante com o/a orientador(a) sobre as limitações da pesquisa e cuidem da saúde mental, para que seja possível ler notícias em redes sociais e seus respectivos comentários sem sofrer grandes danos (risos). 

DC: Como você avalia a sua produção científica durante o mestrado ? Já publicou artigos ou trabalhos resultantes da pesquisa? Quais você aponta como os mais importantes?

CF: Acredito que obtive bom resultado para um período de dois anos. Consegui feitos que contribuíram muito para o aprendizado e experiência que desenvolvi e ainda estou desenvolvendo.

DC: Desde a conclusão da dissertação, o que tem feito e o que pretende fazer em termos profissionais?

CF: Antes da data da defesa eu já havia passado no doutorado e no mesmo ano consegui uma bolsa para me dedicar integralmente ao curso. Recentemente comecei a atuar como pesquisadora bolsista de projeto de pesquisa no IBICT. Apesar de entender que meus caminhos podem esbarrar na docência futuramente, a carreira na pesquisa é a que mais desejo. 

DC: Pretende fazer doutorado? Será na mesma área do mestrado?

CF: Estou no segundo ano do doutorado na mesma área e no mesmo programa. Agora pesquisando sobre a desinformação voltada para as questões climáticas e a sua relação com a política. 

DC: O que faria diferente se tivesse a chance de ter começado sabendo o que sabe agora?

CF: Acrescentaria outras análises aplicadas aos resultados do Iramuteq, como análise de rede, por exemplo. Também aplicaria mais refinamento à pesquisa, já que nunca deixei de explorar o software e atualmente o domino e o compreendo mais e melhor. 

DC: O que o Programa de Pós Graduação fez por você e o que você fez pelo Programa nesse período de mestrado?

CF: O PGCIN/UFSC me acolheu e me deu subsídios para viver a experiência transformadora que é fazer um mestrado. Também me proporcionou uma rede de pessoas maravilhosas que foram fundamentais na caminhada. Espero ter conseguido retribuir com as participações em comissões e produção científica para o programa. 

DC: Você por você

CF: Nasci em Belém do Pará e com dez anos de idade me mudei para Porto Velho/RO, onde me formei em 2021. Fui uma criança com algumas dificuldades de aprendizado, não conseguia ficar na escola e repeti a alfabetização por não conseguir aprender a ler e escrever. Nunca sonhei com alguma profissão ou pensei no que queria fazer da vida antes de concluir o ensino médio, apenas sabia que precisava ser bem-sucedida. Caí de paraquedas no curso de Biblioteconomia e me preocupei com as opções de temas para escrever o TCC. Me perguntava frequentemente se essa era mesmo a profissão que eu queria, não conseguia enxergar as possibilidades que genuinamente me empolgavam. As dúvidas só sanaram quando conheci minha orientadora, Djuli, que me apresentou a competência em informação, me incentivou a escrever um artigo, participar do meu primeiro grupo de pesquisa e indicou minha coorientadora, Andréa Doyle, que foi fundamental para que eu aprendesse a escrever um texto acadêmico. Ao estudar esse tema não tive como não observar o problema da desinformação e, durante a escrita do TCC, descobri uma grande paixão que me deu entusiasmo para seguir a carreira de cientista. A pós-graduação aconteceu muito de repente para mim, mudou e ainda muda minha vida em muitos sentidos. Tenho um orientador e uma coorientadora maravilhosos e faço parte de grupos de pesquisas com membros gentis e prestativos, me sinto sortuda por isso. Apesar de muitas inseguranças e sofrer de síndrome da impostora, hoje me sinto orgulhosa pelo caminho que trilhei, pelas dificuldades que viraram aprendizados valiosos e por ter realizado os sonhos da minha versão adolescente.


Entrevistada: Camila Furtado

Entrevista concedida em: 14 de julho de 2025

Formato de entrevista: Escrita 

Redação da Apresentação: Iasmim Farias Silva

Fotografia: Camila Furtado

Diagramação: Iasmim Farias Silva

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