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v. 3, n. 05, maio 2025
E assim nasce o Museu da Cultura Hip Hop RS: uma análise a partir do olhar da gestão museológica e da Museologia Social – Entrevista com Giovanna Veiga dos Santos

E assim nasce o Museu da Cultura Hip Hop RS: uma análise a partir do olhar da gestão museológica e da Museologia Social – Entrevista com Giovanna Veiga dos Santos

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E assim nasce o Museu da Cultura Hip Hop RS: uma análise a partir do olhar da gestão museológica e da Museologia Social – Entrevista com Giovanna Veiga dos Santos

Giovanna Veiga dos Santos
giovannaveigamuseologa@gmail.com

Sobre a entrevistada

Em 2023, Giovanna Veiga dos Santos defendeu sua dissertação de mestrado pelo Programa de Pós-graduação em Museologia e Patrimônio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, sob a orientação da Profa. Dra. Marcia Regina Bertotto.

Gaúcha, Giovanna atua como Museóloga no Museu Municipal de Veranópolis (RS). Em seu tempo livre, aprecia fazer bordado e ama uma boa leitura.

Sua dissertação, intitulada “E assim nasce o Museu da Cultura Hip Hop RS: uma análise a partir do olhar da gestão museológica e da Museologia Social”, aborda o processo de criação do Museu da Cultura Hip Hop – RS (MUCHRS), a partir da perspectiva da Museologia Social e da gestão museológica, com o objetivo de entender como se deu esse processo e qual é o seu perfil de gestão. A investigação concluiu que o MUCHRS segue diversas práticas relacionadas à Museologia Social, enquadrando-se na tipologia de museu comunitário. Identificou-se a aplicação da participação comunitária nas etapas de implementação do Museu, em certas ações com mais intensidade que em outras, e constatou-se que o MUCHRS segue um modelo próprio de gestão, que une ideias do campo museal com a identidade do movimento hip hop.

Nesta entrevista, Giovanna compartilha sua trajetória acadêmica e os aprendizados construídos em seu processo de mestrado.

Divulga-CI: O que te levou a fazer o mestrado e o que te inspirou na escolha do tema da dissertação?

Giovanna Veiga dos Santos (GVS): Ao longo da graduação, sempre tive receios ao pensar que chegaria a hora de produzir o trabalho de conclusão de curso, não me via como uma pesquisadora. Mas ao passar por este processo minha perspectiva mudou drasticamente. A área da pesquisa acadêmica me agradou imensamente, percebi que poderia relacionar projetos que admirava com o viés técnico da Museologia. Então, a partir desse momento decidi que queria continuar pesquisando sobre temáticas caras a mim. E como moradora de uma região metropolitana que não possui diversos espaços culturais para vivenciar, conheci o trabalho da Associação da Cultura Hip Hop de Esteio e seu trabalho no município e região, e assim, o início do projeto de criação do Museu da Cultura Hip Hop RS. Ali percebi o potencial de analisar esse processo simultaneamente enquanto ia se formando, a fim de compreender o potencial integrador e de organização do movimento Hip Hop e em que lugar se enquadraria dentro do campo museal. 

DC: Quem será o principal beneficiado dos resultados alçados?

GVS: Acredito que o próprio campo museal, visto que foi possível descobrir novas formas de gestão comunitária e de financiamento e fomento para os museus, trazendo uma percepção muito única apresentada pelo movimento hip hop, que foi se fortalecendo e se transformando desde sua chegada ao Brasil. Além disso, outros grupos ou coletivos culturais podem observar a metodologia utilizada no Museu da Cultura Hip Hop RS para adaptar e aplicar em suas instituições museológicas.

DC: Quais as principais contribuições que destacaria em sua dissertação para a ciência e a tecnologia e para a sociedade? 

GVS: A possibilidade da junção entre campo acadêmico e coletivos organizados da sociedade civil, e o potencial que essa união pode gerar para ambos os lados. Considerando que o hip hop agrega à Museologia novas formas de pensar os museus e sua atuação e a Museologia apresenta para esses agentes, técnicas e métodos que possibilitam a salvaguarda de sua memória. 

DC: Seu trabalho está inserido em que linha de pesquisa do Programa de Pós Graduação? Por quê?

GVS: A linha de pesquisa em que ele se insere é a de “Museologia, Curadoria e Gestão”, visto que a pesquisa possui foco na gestão museológica, mais especificamente em uma gestão voltada para museus comunitários. 

DC: Citaria algum trabalho ou ação decisiva para sua dissertação? Quem é o autor desse trabalho, ou ação, e onde ele foi desenvolvido?

GVS: Ação decisiva para a realização da minha pesquisa foi a própria criação do Museu da Cultura Hip Hop RS, encabeçada pela Associação da Cultura Hip Hop de Esteio e desenvolvida principalmente nos municípios de Esteio e Porto Alegre, mas com alcance em todas as regiões do estado do Rio Grande do Sul, ao longo do seu processo. 

DC: Quais foram os passos que definiram sua metodologia de pesquisa?

GVS: Conforme eram realizadas as etapas do desenvolvimento de criação do museu fomos analisando-as. Para isso foi realizado um levantamento das produções científicas relacionadas à temática, foram analisados os vídeos das reuniões com integrantes do hip hop nas diversas regiões do estado. Ademais, foram executadas entrevistas com membros da Associação da Cultura Hip Hop de Esteio e houve também a observação in loco das ações produzidas pelo grupo. 

DC: Quais foram as principais dificuldades no desenvolvimento e escrita da dissertação?

GVS: A principal dificuldade foi analisar um museu que ainda não estava instituído. Então, no início da pesquisa não tínhamos certeza se conseguiríamos finalizar da forma que pensávamos, visto que o museu inaugurou logo após a defesa da pesquisa. E isso também gerou ajustes necessários, que foram surgindo ao longo da jornada de pesquisa. Acabou sendo um processo um pouco incerto, pois não sabíamos exatamente o que teríamos de material para analisar, e quais etapas já teriam sido executadas até o período final da coleta de dados. 

DC: Em termos percentuais, quanto teve de inspiração e de transpiração para fazer a dissertação?

GVS: É sempre necessário enfatizar sobre a importância do apoio financeiro aos pesquisadores da pós-graduação. Eu tive acesso a bolsa CNPQ no segundo ano, o que me auxiliou muito na permanência no programa, e acredito que seja a realidade de muitos pesquisadores no nosso país. Então, mesmo que para alguns familiares, amigos, ou colegas, o trabalho acadêmico e de pesquisa não faça muito sentido, é necessário que tenhamos em mente que projetos ou outros frutos podem surgir desse esforço, além da própria dissertação. 

DC: Como foi o relacionamento com a família durante este tempo?

GVS: Desde o início do desejo de ingressar no Mestrado tive um apoio imenso da minha família, que sempre admirou a dedicação acadêmica. Porém essa dedicação acabou gerando muitas ausências em eventos familiares, pouco tempo de qualidade, gerando a necessidade de muita paciência e compreensão por parte deles.

DC: Agora que concluiu a dissertação, o que mais recomendaria a outros mestrandos que tomassem seu trabalho como ponto de partida?

GVS: Minha maior recomendação para quem está iniciando essa jornada é selecionar um recorte temático que você possua algum tipo de admiração. O trilhar acadêmico é muito trabalhoso, mas acredito que quando estamos analisando um tema ou uma instituição que temos certa admiração, proximidade ou consideração, esse caminho se torna mais prazeroso. 

DC: Como você avalia a sua produção científica durante o mestrado? Já publicou artigos ou trabalhos resultantes da pesquisa? Quais você aponta como os mais importantes?

GVS: Confesso que tive dificuldades em manter uma produção muito ativa durante este período. Conciliar a própria produção da dissertação, o estágio docente, os estudos para concurso e a vida pessoal não foi fácil, porém comecei a participar como voluntária do Museu da Cultura Hip Hop RS, e posteriormente virei membro da equipe. Além disso, publiquei nos Anais do 5º Seminário Brasileiro de Museologia, o seguinte trabalho completo “MUSEALIZAÇÃO DO HIP HOP: uma análise da implementação do Museu da Cultura Hip Hop-RS”.

DC: Desde a conclusão da dissertação, o que tem feito e o que pretende fazer em termos profissionais?

GVS: Fui membro da equipe do Museu da Cultura Hip Hop RS durante 8 meses, e logo após fui chamada em um concurso para o cargo de museóloga do Museu de Veranópolis, município da Serra gaúcha, onde estou até o momento. Durante todo este período também faço consultorias pontuais relacionadas à gestão, expografia, documentação e pesquisa de acervo. Pretendo continuar adquirindo experiência técnica. 

DC: Pretende fazer doutorado? Será na mesma área do mestrado?

GVS: É um desejo sim, mas que vejo sendo executado mais para frente. Como comentei anteriormente, tenho a intenção de adquirir mais experiência prática no dia-a-dia dos museus para depois dar início ao doutorado. E sou totalmente ligada à Museologia, realmente é uma área que me encanta, então tenho a vontade de seguir nesse campo, ou em algo muito próximo a ele. 

DC: O que faria diferente se tivesse a chance de ter começado sabendo o que sabe agora?

GVS: Teria tentando sofrer menos com coisas que ainda não aconteceram. Há muita cobrança no meio acadêmico, algumas que vêm da gente mesmo, e muitas vezes de forma desproporcional. Então, tentaria passar por esse período aproveitando mais os eventos, as disciplinas em outros programas, e o próprio fazer da pesquisa de forma mais leve.

DC: O que o Programa de Pós Graduação fez por você e o que você fez pelo Programa nesse período de mestrado?

GVS: O Programa me possibilitou aprofundar ainda mais os estudos na área que me interessa. Me proporcionou o contato com tantos outros pesquisadores interessados e entusiasmados com o campo museal e do patrimônio. Me oportunizou participar de eventos com muitas trocas de experiências com outros profissionais em diferentes contextos. Acredito ter ampliado a discussão da Museologia Social dentro do Programa, ainda mais partindo de um viés da gestão museológica, além de ter apresentado ao campo acadêmico essa proposta inovadora como um Museu do Hip Hop. 

DC: Você por você: 

GVS: Desde muito cedo, os estudos tiveram um lugar de grande importância na minha vida. Ao ir estudar Gestão Cultural como técnico integrado ao ensino médio para aproveitar um ensino de qualidade em uma Instituição Federal me abriu possibilidades, novos olhares e um mundo novo ligado à produção cultural, às exposições e aos museus. Após o término desta etapa, não foi fácil me permitir ingressar em uma área como a Museologia, que a alguns anos atrás no meu estado, não parecia ter muitas oportunidades profissionais, mas por acreditar na importância da cultura e em instituições como os museus e suas diversidades não me via em outro espaço. Assim, iniciar a vida no campo museal foi um acerto que me levou a muitos lugares, a conhecer pessoas diversas, a descobrir novas formas de ver o mundo, a entender que todos têm o direito a ter sua memória salvaguardada. Hoje, trabalhando em um museu histórico municipal, percebo na prática que todo museu tem a possibilidade de abrir discussões, apresentar novas perspectivas para o seu público. Hoje entendo a importância da congregação entre os estudos acadêmicos e as práticas profissionais, a relevância em aplicar as propostas, que muitas vezes podem até parecer devaneios, no cotidiano dos museus. 


Entrevistada: Giovanna Veiga dos Santos

Entrevista concedida em: 14 abr. 2025.

Formato de entrevista: Escrita 

Redação da Apresentação: Ana Júlia Pereira de Souza

Fotografia: Giovanna Veiga dos Santos

Diagramação: Ana Júlia Pereira de Souza

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