
Inteligência artificial, ética e pesquisa em comunicação e informação na sociedade digital, por Rosilene Paiva Marinho de Sousa e Milton Shintaku

Inteligência artificial, ética e pesquisa em comunicação e informação na sociedade digital
Rosilene Paiva Marinho de Sousa e Milton Shintaku
rpmarinho.ci.jus@gmail.com | shintaku@ibict.br
Introdução
A Inteligência Artificial (IA) representa uma das maiores transformações tecnológicas da contemporaneidade. Em um cenário da denominada Quarta Revolução Industrial, centrada na humanidade, que reconhece a Inteligência Artificial como uma tecnologia disruptiva (Shwab, 2018), evidencia-se pela expansão nos processos de produção, circulação e mediação da informação.
Nesse contexto, discute-se a inteligência artificial como instrumento de desenvolvimento humano, apresentando suas características, examinando-se a ética em sua centralidade nas discussões contemporâneas envolvendo questões fundamentais acerca da produção do conhecimento, da circulação da informação e das formas de interação humana. E ainda, orienta-se diretrizes sobre o uso de IA na pesquisa em comunicação e informação.
Características Da Inteligência Artificial
A literatura apresenta uma multiplicidade de definições sobre Inteligência artificial, que geralmente se relacionam a processos de pensamento e raciocínio, comportamento, desempenho humano e racionalidade (Russell; Norvig, 2021, p. 2). Pode ser entendida como “[…] área da Ciência da Computação cujo objetivo é criar sistemas capazes de realizar tarefas que, até então, só poderiam ser executadas por seres humanos” (Spadini, 2023, on-line). E, ainda, como componente das tecnologias digitais que constituem a quarta revolução industrial, consideradas verdadeiramente disruptivas subvertendo as formas existentes de sentir, organizar, agir e cumprir acordos (Schwab; Davis, 2018, p. 21).
Conforme exposto em Large (2022, p. 39-42), o processo de evolução da IA se inicia com a ideia de neurônios artificiais em 1943, com Warren e Walter ao discutirem a noção de rede de neurônios artificiais e como podem executar funções lógicas simples. Em 1950, no ensaio Computing Machinery and Intelligence, Alan Turing abordava, através do teste de turing, uma indagação: máquinas podem pensar? Porém, a data oficial do surgimento do termo “Inteligência Artificial” surge em 1956, com um estudo sobre IA, na Conferência de Dartmouth, em Hanover nos Estados Unidos. A evolução da inteligência Artificial não se apresenta de forma linear, registra-se dois períodos denominados invernos de IA, no primeiro período (período de 1974 a 1980), ocorre uma mudança de cenário com divulgação em 1973 do Relatório Lighthill, que avaliou o estado da pesquisa em IA com prognóstico pessimista; e, o segundo período (período de 1987 a 1993), em que sistemas especialistas se tornaram muito caro aquisição e manutenção, e úteis apenas em alguns contextos. Houve queda no mercado de IA e aumento na venda de computadores APPLE e IBM. Em 2015, registra-se a utilização de teorias sobre Machine Learning e Deep learning e avanços com produtos de IA. E em 2024, o predomínio de uso de IA Generativa, compreendida conforme exposto pela Unesco (2024, p.8), como uma tecnologia de inteligência artificial (IA) que gera conteúdo de forma automática em resposta a comandos escritos [prompts] em interfaces de conversação em linguagem natural, trazendo diversas vantagens e desvantagens a toda comunidade acadêmica.

Ética Em Inteligência Artificial
Segundo Marcondes (2007, p. 9), etimologicamente, a palavra “ética” origina-se do termo grego ethos, que significa o conjunto de costumes, de uma determinada sociedade ou cultura. Segundo Sanches Vásquez (2024, p. 23), a ética é a teoria ou ciência do comportamento moral dos homens na sociedade. Ou seja, é ciência de uma forma específica do comportamento humano. Através da ética, realiza-se reflexão sobre o comportamento prático-moral do homem, com o escopo de examinar esse comportamento como reflexão dos indivíduos e seus pensamentos, referindo-se a uma moral reflexiva.
Segundo Lyra e Chevitarese (2024, p. 25), a ética se constitui como uma atividade ou disciplina filosófica que procura estabelecer racionalmente critérios e princípios para a conduta humana, propondo-os, sempre, com pretensão de universalidade. Os referidos autores corroboram com o pensamento de Marcondes (2007, p.11), ao esclarecer que a necessidade de reflexão ética mais profunda surge quando o ser humano se defronta com dilemas, situações de conflito, diante dos quais se tem que decidir algo que não é fácil.
Refletir sobre Inteligência Artificial implica, necessariamente, teorizar o comportamento humano a partir das transformações advindas com as tecnologias de informação. Segundo Vechi, Shintaku, Maia e Sousa (2026, p. 23), “[…] no campo acadêmico-científico, o uso de IA repercute no modo como textos são produzidos, avaliados e divulgados, o que tensiona critérios de responsabilidade, transparência e controle social”. Conforme exposto pela Unesco (2024), torna-se necessário discutir responsabilidade, centralidade da transparência, rastreabilidade, explicabilidade e os limites éticos envolvendo também gestão de dados e políticas de autoria e uso.

Inteligência Artificial E Pesquisa Em Comunicação E Informação
Manuel Castells em sua obra “Sociedade Digital”, afirma que “[…] a difusão da comunicação digital é mais rápida do que qualquer outra tecnologia”, sendo possível observar um enorme fluxo de dados humanos em crescente ascensão, graças ao avanço da computação em nuvens. Para Castells (2026, p. 25), “[…] a revolução tecnológica focada na informação e na comunicação provoca inevitavelmente efeitos poderosos em toda a experiência humana, em estreita interação com as culturas e instituições da sociedade em toda a sua diversidade.
A crescente circulação de desinformação, deepfakes e conteúdos automatizados também tem transformado práticas na Comunicação e informação tensionado a integridade informacional em ambientes digitais. Relevante se faz considerar o papel da filtragem, tornando-se necessário diferenciar, o que Manuel Castells (2026), denomina de rumores, de fake News ou desinformação.

Na pesquisa em comunicação e informação, a IA pode reconfigurar objetos e metodologias de investigação. Algoritmos, plataformas, cultura de dados, desinformação e comunicação automatizada consolidam-se como novos objetos de estudo em uma sociedade orientada por dados.
Além disso, novas metodologias vêm sendo incorporadas à pesquisa científica, incluindo mineração de dados, análise automatizada de discurso, processamento de linguagem natural e análise de redes. A IA aplicada à pesquisa qualitativa também inaugura possibilidades de tratamento e interpretação de grandes volumes de dados comunicacionais. Assim, a pesquisa em Comunicação e informação passa a demandar abordagens críticas e interdisciplinares capazes de compreender as implicações éticas, epistemológicas, informacionais e sociais da Inteligência Artificial na contemporaneidade.
Considerações Finais
A IA não pode ser considerada apenas uma ferramenta operacional, mas um elemento estruturante da gestão de informação, pois interfere diretamente na produção, organização, circulação e uso da informação.
Na Comunicação e informação, a discussão sobre o uso da inteligência artificial torna-se ainda mais relevante diante das formas de produção do conhecimento, circulação automatizada de conteúdo e validação dos processos informacionais.
A Inteligência artificial passa a influenciar processos de mediação simbólica, recomendação de conteúdos e construção da visibilidade pública, ampliando debates éticos sobre transparência, responsabilidade e poder informacional.
Referências
CASTELLS, Manuel. Sociedade Digital. 1. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2026.
LAGE, Fernanda de Carvalho. Manual de Inteligência Artificial no Direito Brasileiro. 2. ed. São Paulo: Juspodivm, 2022.
LYRA, Edgar; CHEVITARESE, Leandro. Ética: conceitos, fundamentos e aplicações contemporâneas. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2024.
MARCONDES, Danilo. Textos básicos da ética: de Platão a Foucault. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.
RUSSELL, Stuart J.; NORVIG, Peter. Inteligência Artificial. 3. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2021.
SANCHEZ VÁZQUES, Adolfo. Ética. 41. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2024.
SCHWAB, Klaus; DAVIS, Nicholas. Aplicando a Quarta Revolução Industrial. São Paulo: EDIPRO, 2018.
SPADINI, Allan Segovia. O que é IA Generativa? A importância e o uso das Inteligências Artificiais como ChatGPT, MidJourney e outras. 2023. Disponível em: https://www.alura.com.br/artigos/inteligencia-artificial-ia-generativa-chatgpt-gpt-midjourney. Acesso em: 10 maio 2026.
UNESCO. Guia para a IA generativa na educação e na pesquisa. 2024. Disponível em: https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000390241. Acesso em: 18 nov. 2024.
VECHI, Bernardo Dionízio; SHINTAKU, Milton; MAIA; Maria Aniolly Queiroz; SOUSA, Rosilene Paiva Marinho de. Inteligência Artificial na editoração científica em Ciência Aberta: riscos, integridade científica e governança editorial. Brasília: Ibict, 2026. Disponível em: https://doi.org/10.22477/9788570132253 . Acesso em 04 jun. 2026.
Sobre os autores
Rosilene Paiva Marinho de Sousa
Professora do Departamento de Ciência da Informação e do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal da Paraíba, e do Programa de Pós-Graduação em Propriedade Intelectual e Transferência de Tecnologia para a Inovação da Universidade Federal do Oeste da Bahia. Atua como pesquisadora no Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia,
Doutora e Mestra em Ciência da Informação pela Universidade Federal da Paraíba. Mestra em Direito pelo UNIPÊ. Graduada em Ciências Jurídicas e Sociais e História pela Universidade Federal de Campina Grande e em Biblioteconomia pelo Centro Universitário Claretiano.
Coordenador de Tecnologia para Informação (Cotec) do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia. Professor junto ao Programa de Pós-Graduação em Gestão da Informação da Universidade Federal do Paraná.
Doutor e mestre em Ciência da Informação pela Universidade de Brasília. Graduado em Ciências e Habilitação em Matemática pelo Centro Universitário de Brasília.
Redação: Rosilene Paiva Marinho de Sousa e Milton Shintaku
Fotografia: Rosilene Paiva Marinho de Sousa e Milton Shintaku
Diagramação: Iasmim Farias Campos Lima










