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v. 4, n. 06, jun. 2026
Ciência da Informação amplia debates sobre gênero e sexualidades LGBTQIA+ no Brasil

Ciência da Informação amplia debates sobre gênero e sexualidades LGBTQIA+ no Brasil

Ciência da Informação amplia debates sobre gênero e sexualidades LGBTQIA+ no Brasil

Pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul analisa teses e dissertações e aponta avanços, lacunas e desafios relacionados à diversidade, inclusão e justiça epistêmica no campo da Ciência da Informação

A Ciência da Informação passou, ao longo das últimas décadas, por importantes transformações epistemológicas, deixando de lado uma perspectiva exclusivamente técnica para incorporar questões sociais, culturais e políticas em seus estudos. É nesse contexto que um estudo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) analisa de que forma a Ciência da Informação tem incorporado debates sobre gênero e sexualidades LGBTQIA+ na produção acadêmica brasileira.

Desenvolvida por Ana Vargas, egressa do curso de mestrado em Ciência da Informação da UFRGS, a pesquisa analisa teses e dissertações produzidas no país e aponta que, embora haja crescimento nos estudos relacionados à diversidade, ainda existem lacunas significativas na representação de identidades LGBTQIA+ na produção científica no campo.

A Ciência da Informação surgiu fortemente influenciada pelas ciências exatas e por abordagens positivistas, voltadas para aspectos técnicos e mensuráveis da informação. Durante a década de 1960, os estudos da área concentravam-se em questões semânticas, pragmáticas e tecnológicas, priorizando aspectos fisicamente observáveis e excluindo dimensões subjetivas e sociais dos processos informacionais.

Nesse período, predominava uma lógica de racionalidade positivista, na qual os fenômenos humanos eram analisados a partir de metodologias semelhantes às utilizadas pelas ciências naturais. Como consequência, experiências sociais, culturais e identitárias permaneceram afastadas do centro das discussões da área.

Ao longo do século XX, entretanto, movimentos epistemológicos ampliaram o caráter interdisciplinar da Ciência da Informação e aproximaram o campo das ciências humanas e sociais. A partir da década de 1990, o chamado Paradigma Social fortaleceu uma compreensão da informação como construção coletiva, interacionista e dialógica.

Capa da dissertação “A Ciência da Informação e os estudos de gênero e sexualidades”, de Ana Vargas

A pesquisa destaca ainda a chamada “virada sociocultural”, consolidada após o I CoLIS – International Conference on Conceptions of Library and Information Science, realizado em 1991, na Finlândia. Essa mudança permitiu superar perspectivas estritamente técnicas e compreender a informação a partir das relações sociais e culturais.

“A informação não deve ser vista como ‘processo, matéria ou entidade separada das práticas e representações de sujeitos vivendo e interagindo na sociedade, e inseridos em determinados espaços e contextos culturais’”, afirma a pesquisa.

Com base no conceito de injustiça epistêmica, desenvolvido pela filósofa Miranda Fricker, o estudo analisa como determinados grupos historicamente marginalizados enfrentam dificuldades tanto para acessar quanto para produzir conhecimento reconhecido como legítimo.

Capa do livro “Injustiça Epistêmica”, de Miranda Fricker / Imagem: EdUSP

A análise demonstra que pessoas LGBTQIA+, especialmente pessoas trans e travestis, ainda aparecem de forma reduzida nas pesquisas em Ciência da Informação. De acordo com o levantamento realizado no Catálogo de Teses e Dissertações da CAPES, embora discussões sobre gênero estejam presentes desde os anos 1970, o primeiro trabalho identificado sobre identidades de gênero dissidentes em teses e dissertações da Ciência da Informação surgiu apenas em 2018.

Quantidade de trabalhos recuperados no levantamento / Fonte: Vargas, 2024, p. 44

“A ausência de uma produção acadêmica robusta sobre as temáticas LGBTQIA+ e a disparidade na representação de identidades de gênero distintas reforçam a necessidade de um olhar mais atento a essas questões”, aponta a autora.

A pesquisa também dialoga com o sociólogo Pierre Bourdieu ao discutir como estruturas de poder e mecanismos simbólicos contribuem para a exclusão de determinados grupos dos espaços de produção científica. A injustiça epistêmica se manifesta quando grupos marginalizados têm suas experiências desvalorizadas enquanto fonte legítima de conhecimento.

“A injustiça epistêmica, um conceito que reflete a negação de certos grupos como legítimos produtores de conhecimento, é central para a compreensão das barreiras enfrentadas por pessoas LGBTQIA+ e grupos racializados no acesso e na produção de conhecimento”, destaca Ana.

Além das questões relacionadas à sexualidade e identidade de gênero, o estudo identificou baixa presença de pesquisas interseccionais envolvendo raça, colonialidade e memória. Apenas um dos trabalhos encontrados aborda explicitamente relações entre raça, gênero e perspectivas decoloniais.

Ampliar pesquisas interseccionais e fortalecer políticas de inclusão acadêmica são passos fundamentais para enfrentar desigualdades estruturais no campo científico. O estudo defende ações afirmativas voltadas à inclusão de grupos historicamente marginalizados nas universidades, além do incentivo à produção científica de pesquisadores LGBTQIA+, negros e indígenas.

Tese “Patrimônios e Matrimônios” de Vitória Gomes Almeida, aborda questões de raça, gênero e perspectivas decoloniais

Entre as propostas apresentadas estão o fortalecimento de grupos de pesquisa, programas de incentivo à produção acadêmica, ampliação de bolsas de estudo e inclusão de conteúdos relacionados a gênero, sexualidades e relações étnico-raciais nos currículos universitários. Segundo a pesquisa, essas medidas podem contribuir para ampliar a diversidade de perspectivas dentro da produção científica.

A pesquisa também ressalta que a produção científica possui papel importante na redução das desigualdades sociais e na valorização de experiências historicamente invisibilizadas. Nesse sentido, a autora defende uma Ciência da Informação mais plural, inclusiva e comprometida com a justiça social.

“A informação, neste contexto, pode e deve ser vista como uma ferramenta de justiça social, contribuindo para a diminuição dos desequilíbrios sociais, para o reconhecimento das pluralidades identitárias e para a construção de uma sociedade mais inclusiva”, conclui a pesquisadora.

Acesse a dissertação: 

VARGAS, Ana Elisa de Abreu. A Ciência da Informação e os estudos de gênero e sexualidades: uma análise à luz da injustiça epistêmica. 2024. 75 f.  Dissertação (Mestrado em Ciência da Informação) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2024. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/handle/10183/285229 . Acesso em 19 de maio de 2024.


Redação:  Vanessa Forte e Pedro Andretta
Revisão: Marcos Leandro Freitas Hübner
Diagramação: Naiara Raíssa da Silva Passos

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