
OBiblioteco: o diferente que deu certo, por Rafael Silva

OBiblioteco: o diferente que deu certo
Rafael Antonio da Silva
rafaelantonio.dasilva@yahoo.com.br
A presença no mundo digital, especialmente nas mídias sociais, tornou-se quase uma obrigatoriedade para quem precisa ser conhecido pelo que é, faz ou produz. Com o profissional bibliotecário não é diferente. Em um ambiente no qual a informação é extremamente dinâmica e, muitas vezes, informal, surge o questionamento: como esse profissional se apresenta?Sempre cercado por textos complexos, artigos científicos, livros, regras, normas e padrões, o bibliotecário parece enfrentar ainda mais dificuldades para ser notado e valorizado em espaços nos quais vídeos de 30 segundos já são considerados longos e textos com mais de seis linhas são vistos como extensos a ponto de merecerem um resumo. Esse paradoxo acaba culminando na invisibilidade ou no desconhecimento de uma profissão que já é cercada de preconceitos quanto à sua atuação, importância e até mesmo existência.

A ideia do “OBiblioteco” foi traduzir a biblioteconomia engessada e erudita em uma biblioteconomia leve e descontraída, semelhante a um “papo de boteco”. Assim surgiu o nome, em um jogo de palavras (boteco + biblioteconomia = OBiblioteco). Dessa forma, a proposta é apresentar a área ao grande público que, inevitavelmente, está na internet, sobretudo nas mídias sociais.
O perfil foi ao ar pela primeira vez em 15 de março de 2023, depois de uma série de frustações em manter ativa as mídias sociais da biblioteca a qual sou responsável. Decidi usar a experiência e as boas práticas que acumulei em anos para falar diretamente com meus pares e divulgar a profissão. Para criar algo inovador, busquei referências fora da biblioteconomia que dialogassem com o público jovem e adulto, mirando os profissionais de bibliotecas, e também os estudantes de biblioteconomia. Das referências podemos citar os “south america memes” perfil consagrados em criar memes que ditam moda e criam personalidades na internet desde 2015, e o “cenas lamentáveis” perfil de humor especializado em futebol que tem uma linguagem cômica e, ao mesmo tempo, rebuscada para tratar do esporte e a conduta dos jogadores.
OBiblioteco nasce da necessidade de a biblioteconomia dialogar com o popular, com a proposta não apenas de militar pela causa dos bibliotecários e das bibliotecas, mas também de funcionar como uma grande porta de entrada para o universo da Ciência da Informação. A aposta do perfil é humanizar o profissional e as situações de seu cotidiano, não apenas reforçando o que ele não é “a senhorinha de óculos e coque”, mas, sobretudo, mostrando, muitas vezes de forma cômica ou irônica, quem ele é, o que sente, suas frustrações, tristezas, alegrias e expectativas.

O perfil coleciona alguns memes virais de grande repercussão que une o dia a dia do profissional bibliotecário com assuntos do momento ou ícones populares da TV e internet brasileira e internacional. O inusitado cativa e surpreende o público quando surge uma paródia do programa “casos de família” como “casos de biblioteconomia”, ou na escolha do papa em uma postagem em que o conclave lança uma fumaça da cor roxa, que faz menção ao bibliotecário e a biblioteconomia. São mais de 3 mil postagens, seguindo a mesma dinâmica de humor e sátira que passam de Ranganathan e vão até o pastor investigador de peruca que trazem a biblioteconomia como temática central.

A comunidade bibliotecária (seguidores do perfil) também é convidada a participar do OBiblioteco, como no último quadro de sucesso com o título de “Não é cópia, é inspiração (2026)” que propôs que bibliotecas e bibliotecários divulgassem suas boas práticas no perfil “OBiblioteco”.
Existem excelentes trabalhos em bibliotecas como projetos de incentivo à leitura, decoração, murais e atividades que não tem a visibilidade que merecem, o quadro veio para dar voz e vez a essas iniciativas e foi um grande sucesso. OBiblioteco recebeu e publicou trabalhos do Brasil todo de bibliotecas escolares, públicas e universitárias que ajudaram a inspirar quem busca realizar um trabalho diferente com idéias inovadoras e simples.

Com mais de 32 mil seguidores entre bibliotecários, profissionais de bibliotecas e simpatizantes em seu perfil principal no Instagram (@obiblioteco), o conteúdo apresenta variações de memes autorais, memes adaptados, trends, vídeos (reels), dicas e reflexões biblioteconômicas.

O perfil também aborda temas correlatos, como livro, leitura e literatura. Entre as chamadas “fórmulas de sucesso”, destaca-se a máxima de que “nenhuma experiência é individual”, aplicada a situações utilizadas no conteúdo e que se repetem na grande maioria das bibliotecas brasileiras.
A boa avaliação do público também é verificada pelas métricas que a plataforma meta oferece, além de um número expressivo de seguidores, Obiblioteco teve seu ápice de contas alcançadas em meados de 2025, com mais de 3 milhões de contas alcançadas em 30 dias. Existe uma preocupação com metas e relação de produtividade e alcance orgânico. Com o algoritmo da plataforma sempre mudando, não existe uma única fórmula de ser visto ou que o conteúdo seja entregue aos usuários. Por isso, manter o perfil sempre atualizado e com bons resultados de visualizações é uma estratégia para o crescimento do perfil. Ainda sobre as métricas e interação em relação a quantidade, ao contrário do que se acredita, a maioria dos posts que chamam atenção não são vídeos (reel), e sim, imagens ou carrossel de fotos. Essa percepção ao longo da execução do projeto também interferiu no processo de criação, onde a curadoria aposta mais em priorizar imagens e textos, deixando os vídeos com segunda opção.
Os resultados ainda extrapoloraram as mídias sociais e inesperadamente renderam convites para dialogar com colegas em podcasts, palestrar e participações em aulas. Recentemente participei do ROTA (Circuito de Bibliotecas Rio-pretanas) 2025, a convite dos profissionais bibliotecários do SENAC (SP) e também no II Encontro Anual das Bibliotecas Públicas do Rio Grande do Sul a convite do Sistema de Bibliotecas do Estado do Rio Grande do Sul, ambas para falar da experiências e da construção do perfil Obiblioteco. De certo, a experiência mais inusitada de longe e a qual não me acostumei é ser parado para tirar foto como aconteceu no Seminário Internacional Biblioteca Viva (2025) em São Paulo.
Em março de 2026, o OBiblioteco completará três anos. É consenso que é preciso se reinventar, fazer e ser diferente, além de apostar na divulgação das boas práticas e ações que acontecem nas bibliotecas. A perspectiva é que o projeto ao longo de 2026 expanda para novos produtos e conteúdos.
Alguns profissionais buscam o perfil para aprender e isso abre possibilidades para novas ações. Ainda um objetivo mais ousado é a capitalização através de patrocinadores. Com a grande aceitação do público bibliotecário seria interessante ter marcas ou até editoras que trabalham com produtos para bibliotecas anunciando através das possibilidades de postagens.

De forma orgânica, o perfil criou uma comunidade pulsante, participativa e que acredita na biblioteconomia, apesar das dificuldades. Da mesma forma, existe a expectativa e a esperança de que este, seja apenas o primeiro OBiblioteco entre tantos outros, maiores, melhores e mais fortes, que ainda surgirão.
Ranganathan agradece!
Sobre o autor
Bibliotecário da Biblioteca Pública Terezinha França de Mendonça Duarte da Prefeitura Municipal de Hortolândia.
Bacharel em Biblioteconomia pela Universidade Federal de São Carlos
Redação: Rafael Antonio da Silva
Fotografia: Rafael Antonio da Silva
Diagramação: Iasmim Farias Campos Lima









