• contato@labci.online
  • revista.divulgaci@gmail.com
  • Universidade Federal de Rondônia, Porto Velho - RO
v. 4, n. 03, mar. 2026
A biblioteca escolar e seu não-lugar, por Gabriela Pedrão

A biblioteca escolar e seu não-lugar, por Gabriela Pedrão

A biblioteca escolar e seu não-lugar

Gabriela Pedrão
gabriela.bzp@gmail.com

Quando comecei a escrever este texto, motivada pelo convite a refletir sobre minhas preocupações sobre o campo da biblioteconomia, a direção foi para a biblioteca escolar, que é onde me encontro neste momento. 

Fiquei dias pensando sobre isso e quais eram as minhas ‘preocupações’. Não posso dizer que cheguei em uma conclusão, mas as preocupações são principalmente sobre um campo que está no pensamento de muitos e na ação de poucos.

Todo mundo fala sobre a biblioteca escolar e sua importância, todo mundo defende a biblioteca escolar, mas ninguém quer estar nela.

Enquanto eu estava na graduação, as disciplinas relacionadas a BE (que são optativas) eram frequentadas por colegas que precisavam completar créditos, mas que já diziam que ‘nunca trabalhariam em BE’ e, sendo bastante sincera, sabendo dos desafios, eu também não queria.

Salários baixos, a invisibilidade do bibliotecário como profissional da educação e sua frequente assimilação ao setor administrativo; bibliotecas sem verba e sem cuidado institucional; e a sobrecarga do bibliotecário “faz tudo” — responsável por xerox, entrega de material escolar e uniformes, além de substituições na secretaria e na portaria — são apenas a ponta do iceberg.

A oportunidade surgiu para mim assim que me formei, em uma escola que precisava de uma bibliotecária. Fui indicada para o cargo e, recém-formada, não diria não para um emprego que tão gentilmente bateu à minha porta. 

As dificuldades foram muitas, começando pela falta de preparo e formação pedagógica para lidar com estudantes de todas as séries – nosso primeiro grande desafio. Cada docente está em um recorte de formação e turma; já a biblioteca atende a todos sem nenhuma formação pedagógica específica, fora o atendimento a toda comunidade escolar de docentes, colaboradores e famílias.

Fui aprendendo, compreendendo e amadurecendo nesse caminho, que a princípio achei que seria passageiro, apenas um emprego enquanto eu cursava mestrado e doutorado (e que não tinham relação temática alguma com a minha atuação). Nesse processo, fui mergulhando cada vez mais fundo e me apaixonando por esse espaço. 

Ter sido uma leitora ávida ao longo da infância e adolescência e que teve acesso a bibliotecas escolares me ajudou muito, tanto a pensar o conteúdo para o acervo, quanto na ideia que formei sobre esse espaço, mas não tornou a rotina mais fácil. Como montar um acervo que inclua quem não gosta de ler e o leitor mais exigente e experiente? Como parar uma discussão entre estudantes na biblioteca? Como escutar um relato de depressão? Como organizar o acervo de forma simples, mas sem deixar questões técnicas de lado? Todas essas perguntas e muitas mais estiveram e, de alguma forma, ainda estão na minha cabeça. 

Somado a isso vem o fato de que hoje estou em uma biblioteca de uma escola social e periférica, então ainda estamos em constante trabalho de educação sobre, antes de tudo, o que é o objeto livro, pois temos crianças que nunca tiveram a oportunidade de estar em um ambiente como esse. Não podemos ‘dar como certo’ que todos sabem como manusear e tratar o objeto livro. A educação vem de lugares inesperados, incômodos, e, em muitas vezes, precisamos parar para ensinar o que, para nós, é básico: não entrar sem sapatos na biblioteca, não manusear livros com as mãos sujas, não colocar o livro na boca.

Minhas preocupações estão nesse lugar, nesse chão que piso todos os dias, mas também na fase formativa. Nas disciplinas que são por muitas vezes optativas, em docentes que nunca estiveram em bibliotecas escolares conduzindo essas disciplinas (infelizmente a teoria não é tudo) e no crescente desinteresse pelo trabalho na educação. 

Todas as bibliotecas são importantes, mas a escolar está na fase de formação do indivíduo, em um dos momentos mais importantes da vida, de desenvolvimento e de aprendizado. Especialmente quando falamos em contextos periféricos, em que as bibliotecas não são uma realidade, a BE pode ser a única oportunidade de um jovem frequentar esse espaço com assiduidade. Após seu período escolar esse indivíduo pode nunca mais ter a oportunidade de estar em uma biblioteca.

Em muitos aspectos a Biblioteca Escolar ainda é um não-lugar. Poucos sabem o que realmente fazemos no dia a dia, dependemos exclusivamente da boa vontade institucional da escola e estamos sob a gestão de pessoas que quase sempre não fazem ideia do que é nosso trabalho. Nosso esforço diário está em sair desse não-lugar, em construir vínculos, identidade, pertencimento e rotinas e processos que serão implementados e respeitados para além da nossa contratação.

Sei que nossa comunidade é pequena e sei também que poucos entram nesse espaço e ficam – a educação é cansativa e é frustrante, mas ela também é transformadora e a estrutura mais importante para a construção de uma sociedade melhor. Cada livro que vai e volta é uma conquista, uma página lida, mesmo que rasgada, suja e amassada, é uma pequena transformação. E assim seguimos, com essas pequenas revoluções de todos os dias.

Sobre a autora

Gabriela Pedrão

Bibliotecária escolar no Marista Escola Social Ir. Rui, da Rede de Escolas Sociais do Marista Brasil. Membra da Comissão Brasileira de Bibliotecas Escolares junto à Federação Brasileira de Associações de Bibliotecários, Cientistas da Informação e Instituições. Coordenadora e docente do curso de Biblioteconomia do Centro Universitário Claretiano.

Doutora e  Mestra em Ciência da Informação pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. Bacharela em Biblioteconomia e Ciência da Informação pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Foi bolsista da Fundação Biblioteca Nacional. 


Redação: Gabriela Pedrão

Fotografia: Gabriela Pedrão

Diagramação: Iasmim Farias Campos Lima

0

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Translate »