• contato@labci.online
  • revista.divulgaci@gmail.com
  • Universidade Federal de Rondônia, Porto Velho - RO
v. 3, n. 11, nov. 2025
A contribuição do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (NEABI)  para o  Aquilombamento bibliográfico – Entrevista com Tatiane Salles

A contribuição do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (NEABI)  para o  Aquilombamento bibliográfico – Entrevista com Tatiane Salles

A contribuição do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (NEABI) para o Aquilombamento bibliográfico – Entrevista com Tatiane Salles

Tatiane Helena Borges de Salles
tatianejph@gmail.com

Sobre a entrevistada

Em 2025, Tatiane Helena Borges de Salles defendeu sua dissertação pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal de São Carlos, sob orientação da Profa. Dra. Luciana de Souza Gracioso

Atualmente, Tatiane — ou Taty, como prefere ser chamada — atua como bibliotecária-documentalista no Instituto Federal de São Paulo. Formada em Biblioteconomia, natural de Campinas (SP), Taty têm como hobbies estão a leitura, o estudo, passeios e viagens, atividades que a conectam à cultura e à descoberta de novos contextos. 

Sua dissertação, intitulada “As contribuições do NEABI (Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas) para o aquilombamento bibliográfico nas bibliotecas do Instituto Federal de São Paulo: reflexões preliminares”, analisa o papel do NEABI no desenvolvimento das coleções das bibliotecas do IFSP, especialmente no que diz respeito ao fortalecimento das temáticas relacionadas à educação das relações étnico-raciais. Sua pesquisa revela caminhos para uma prática bibliotecária comprometida com a representatividade, o pertencimento e o aquilombamento informacional.

Divulga-CI: O que te levou a fazer o mestrado e o que te inspirou na escolha do tema da dissertação?

Tatiane Salles (TS): Estando à frente do núcleo como coordenação, pude evidenciar algumas ações realizadas pelo núcleo, sobretudo com o diagnóstico do acervo bibliográfico realizado em 2016 que identificou que as 36 bibliotecas possuíam somente 69 títulos sobre a educação para as relações étnico-raciais, e a partir disso foram feitas inúmeras ações para fortalecer o acervo das unidades de informação.  Com um novo diagnóstico, evidenciamos um crescimento significativo, o qual merecia ser estudado e divulgado na Ciência da Informação, e o caminho seria um estudo aprofundado acerca dos acervos considerando a potencialidade do NEABI-IFSP.

DC: Quem será o principal beneficiado dos resultados alçados?

TS: Acredito que toda a comunidade do IFSP e a comunidade externa se beneficiem dos resultados acerca do desenvolvimento de coleções antirracistas, pois o acervo torna-se diverso, plural e rico de narrativas de sujeitos que sempre estiveram à margem. Por outro lado, a representatividade no acervo torna-se importante sobretudo acerca dos jovens que ingressam pelas políticas de ações afirmativas e precisam de materiais que dialogam com a sua realidade, assim a produção científica cresce gradativamente, pois os estudantes passam a ter fontes de informações que abordem essa temática.

DC: Quais as principais contribuições que destacaria em sua dissertação para a ciência e a tecnologia e para a sociedade? 

TS: Entendo que a ciência e a tecnologia têm muito a ganhar ao reconhecer a importância dos saberes ancestrais, porque foram nos países do Continente Africano que muita coisa foi produzida, mas pouco se conhece, pois estes conhecimentos foram apagados e silenciados por conta de um projeto. Nesse sentido, um acervo antirracista devolve a possibilidade de reconhecer os conhecimentos advindos de outros grupos.

DC: Seu trabalho está inserido em que linha de pesquisa do Programa de Pós-Graduação? Por quê?

TS: O trabalho está inserido na linha de pesquisa de Conhecimento e Informação para Inovação. Compreendendo as informações discutidas na dissertação, atravessam essa linha de pesquisa, pois esses novos conhecimentos permitem “adiar o final do mundo” e contar uma nova história. Se a informação traz inovação, que seja por meio dos grupos étnicos que construíram este país.

DC: Citaria algum trabalho ou ação decisiva para sua dissertação? Quem é o autor desse trabalho, ou ação, e onde ele foi desenvolvido?

TS: Com certeza, o artigo da Elisangela Gomes, intitulado:  Afrocentricidade: discutindo as relações étnico-raciais na biblioteca, publicado na Revista ACB (2016), foi um trabalho que me ajudou a refletir na potencialidade do trabalho do NEABI no âmbito das bibliotecas, principalmente, refletir sobre a afrocentricidade na biblioteca com ações possíveis sobretudo na comunidade a ser atendida.

DC: Quais foram os passos que definiram sua metodologia de pesquisa?

TS: A metodologia foi pensada a partir dos passos que deveriam ser seguidos para traduzir as ações em texto acadêmico, porque a prática já existia, mas como trazer tudo, a partir das vivências e das experiências. Então, o método foi importante para contextualizar e definir qual caminho deveria seguir para a produção dessa dissertação. 

DC: Quais foram as principais dificuldades no desenvolvimento e escrita da dissertação?

TS: Foi traduzir as vivências para o texto acadêmico, foi compreender que nem sempre a academia está acostumada com a sua escrita e com a sua vivência de mundo. 

DC: Em termos percentuais, quanto teve de inspiração e de transpiração para fazer a dissertação?

TS: Posso dizer que tive mais inspiração em virtude de ter um grupo coeso dos integrantes do NEABI. Este grupo com pesquisadores negros mestres e doutores foi a minha inspiração para prosseguir com a pesquisa, afinal, o trabalho foi resultado de um trabalho coletivo do núcleo tanto na indicação de materiais quanto ao seu uso na instituição, assim como na divulgação do material para o seus pares.

DC: Teria algum desabafo ou considerações a fazer em relação à caminhada até a defesa e o sucesso da dissertação?

TS: Foi um trabalho prazeroso de fazer, considerando a sua potencialidade. Fico feliz por poder fazer parte dessa história, tanto do NEABI quanto da UFScar, o programa que me acolheu, em especial, a minha orientadora Dra. Luciana de Souza Gracioso, que aceitou a pesquisa e trilhamos um caminho formidável de pesquisa e produção científica. Com toda a certeza, a educação é o caminho seguro para mudanças de trajetórias e vidas, porque ao longo das encruzilhadas vamos nos encontrando e acolhendo para que as gerações futuras possam conhecer os frutos da nossa pesquisa.

DC: Como foi o relacionamento com a família durante este tempo?

TS: Meus familiares compreenderam a importância do título e da dedicação que seria necessária para a conclusão da dissertação, a qual me custou algumas ausências para dedicação. Contudo, tive colaboração e compreensão de todos durante todo o período. Na escrita do memorial, foi algo desafiador e, ao mesmo tempo, dolorido, momento de revisitar dores e conquistas. Como não tenho mais meus pais, a escrita me auxiliou a conectá-los novamente, pois eles sempre souberam que chegaria no mestrado, mas infelizmente, não puderam estar presentes para compartilhar esse momento, mas sei que, de onde estiverem, estão vibrando por mim.

DC: Agora que concluiu a dissertação, o que mais recomendaria a outros mestrandos que tomassem seu trabalho como ponto de partida?

TS: Os estudos acerca da educação para as relações étnico-raciais no âmbito das bibliotecas são um caminho fértil para novos estudos, mas acredito que os estudos dos usuários são uma possibilidade para compreender o comportamento dos nossos usuários, se tais biografias estão contempladas nos seus estudos e a sua vivência, se há identificação com o conteúdo disponível.  Contudo, acredito que novos pesquisadores da área de CI têm emergido nesse percurso, o que só tem a fortalecer a área com estudos voltados à população negra.

DC: Como você avalia a sua produção científica durante o mestrado? Já publicou artigos ou trabalhos resultantes da pesquisa? Quais você aponta como os mais importantes?

TS: Durante o período do mestrado, publiquei muitos trabalhos em eventos e um artigo científico. Considero todos importantes, pois uns abordam a questão do acervo antirracista, outros a importância de projetos de extensão e o fortalecimento da autoestima de estudantes negros. E outros que versam sobre as ações culturais desenvolvidas nas bibliotecas. Todos, de alguma forma, colaboram para o fazer bibliotecário no âmbito da educação antirracista. Caso os leitores tenham interesse de conhecer a minha produção científica, convido-os a conhecer o meu linktree.

DC: Desde a conclusão da dissertação, o que tem feito e o que pretende fazer em termos profissionais?

TS: Tenho me dedicado aos trabalhos desenvolvidos pelo núcleo, à frente de projetos de extensão na instituição e ao projeto para criação de uma biblioteca afrocentrada dos móveis ao acervo: um diálogo possível com a comunidade que é pensado um projeto arquitetônico considerando os saberes ancestrais, e ao mesmo tempo, o fortalecimento de outras bibliotecas escolares com a temática étnico-racial com o foco dos discentes, mas também na formação docente.

DC: Pretende fazer doutorado? Será na mesma área do mestrado?

TS:  Atualmente, estou no doutorado do mesmo programa e com a mesma orientadora. A tese é a continuação do mestrado, mas com o enfoque na atuação dos NEABI´s nos Institutos Federais nas bibliotecas e na formação dos bibliotecários.

DC: O que faria diferente se tivesse a chance de ter começado sabendo o que sabe agora?

TS: Às vezes penso que poderia ter iniciado antes o mestrado, mas acredito que não teria tanta bagagem de conhecimento da prática bibliotecária e na área em que atuo, porque para além da vivência é necessário estudos sobre os que viveram antes, foi fundamental para a minha formação como pesquisadora. 

DC: O que o Programa de Pós-Graduação fez por você e o que você fez pelo Programa nesse período de mestrado?

TS: O programa me tornou pesquisadora, o meu contributo para o programa é a minha produção científica, resultado de todo o aprendizado durante esse percurso, seja com os colegas de tudo e com as trocas com professores, foram fundamentais para o meu crescimento pessoal.

DC: Você por você:

TS: Sou a primeira da família a concluir o mestrado e a ingressar no doutorado. Há poucos anos, achava que isso era impossível para mim porque uma das facetas do racismo é nos tirar os sonhos.  Como diz a Conceição Evaristo, “o importante não é ser o primeiro ou a primeira, o importante é abrir caminhos”. Espero que muitos se enxerguem na academia, não estamos tomando o espaço de ninguém, só estamos tomando de volta o tirado dos nossos ancestrais, aliás, somos os sonhos deles. Só estamos começando, mas vamos seguindo, abrindo os caminhos para que este lugar represente os 56% da população brasileira. Estamos aqui resistindo para que os caminhos estejam abertos para as gerações futuras.


Entrevistada: Tatiane Helena Borges de Salles
Entrevista concedida em:  23 de outubro de 2025
Formato de entrevista: Escrita
Redação da Apresentação: Iasmim Farias Campos Lima
Fotografia: Tatiane Helena Borges de Salles
Diagramação: Ana Júlia Pereira de Souza

0

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Translate »