
Editorial Rede de Pesquisa em Biblioteconomia Educativa e a construção colaborativa de um campo especializado de conhecimentos e práticas – a Biblioteconomia Educativa, por Edmir Perrotti e Ivete Pieruccini

Rede de Pesquisa em Biblioteconomia Educativa e a construção colaborativa de um campo especializado de conhecimentos e práticas: a Biblioteconomia Educativa
Edmir Perrotti e Ivete Pieruccini
perrotti@usp.br | ivetepie@usp.br
Pesquisadoras e pesquisadores, colegas, senhoras e senhores,
É com grande satisfação que retomamos, neste editorial, as reflexões que compartilhamos na abertura do Simpósio Internacional “Biblioteconomia Educativa: legados e perspectivas”, realizado em 18 de maio de 2026, data de fundação da RPBE – Rede de Pesquisa em Biblioteconomia Educativa. Nesta ocasião, estamos realizando, assim, uma dupla comemoração: os 60 anos de criação da Escola de Comunicações e Artes da USP e de seu então Departamento de Biblioteconomia e Documentação, atual Departamento de Informação e Cultura; e, ao mesmo tempo, o nascimento de uma instância colaborativa, a RPBE, tendo em vista a afirmação e consolidação de uma especialidade não só científica, mas também de ação formativa e cidadã, isto é, de práticas educativo-culturais fundamentais ao nosso tempo e aos tempos futuros.
Por outro lado, é preciso dizer, também, que participar da abertura desse Simpósio, além de uma satisfação, é, sem nenhuma dúvida, uma grande responsabilidade. Tratar do papel central da RPBE na constituição e desenvolvimento de uma especialidade da Biblioteconomia é referir-se ao trabalho de uma coletividade dispersa, parte da qual está certamente presente aqui, mas que é constituída por muitos outros que, por diferentes razões, não se acham entre nós. Não podemos esquecer que é o conjunto de trabalhos acumulados ao longo do tempo e realizados por diferentes pesquisadores em vários pontos do país e de fora do país que nos autoriza e dá legitimidade a essa proposta de criação de um campo científico especializado – a Biblioteconomia Educativa (BE). Saudamos, portanto, todos e todas, presentes e ausentes,
neste momento em reconhecimento do importante papel que desempenharam para que a RPBE e a BE se tornassem propostas a serem desenvolvidas devidamente lastreadas pelo chão social concreto incrustado em suas práticas, e não apenas como formulações abstratas, intenções programáticas ou aspirações dissociadas das condições concretas de sua realização.
Reconhecendo que muitos pesquisadores participantes do Simpósio são parte desse grupo que nos ofereceu elementos essenciais para que pudéssemos participar do lançamento de uma rede científica de larga abrangência, preferimos, a uma conferência tradicional, realizar aqui incitações ao diálogo, oferecer pontos de partida a debates necessários à coconstrução de um campo científico especializado. A complexidade da proposta exige trocas, interlocuções e indagações como condição de criação científica. Dessa forma, buscaremos ser breves e estimular trocas indispensáveis e, certamente, frutíferas em torno dessa proposta.

A Biblioteconomia Educativa é um campo de conhecimentos especializados indispensáveis ao enfrentamento de desafios próprios de nossa época. Nesse sentido, reconhecer sua centralidade coloca-nos diante de uma importante responsabilidade e importante desafio, a ser enfrentado por todos nós inscritos na área. Estamos em um país marcado pelo peso histórico da colonialidade e, ao mesmo tempo, por questões próprias da chamada “era da informação”. A sobreposição de tempos históricos distintos, em muitos pontos convergentes, em outros distintos e irreconciliáveis, nos convoca especialmente, já que as complexidades daí decorrentes experienciam dificuldades provindas não só do passado, como também do momento presente. Em contextos como os brasileiros, que somam características altamente problemáticas herdadas da colonização às urgências produzidas pela atual cultura digital e seus algoritmos, são muitas e de diferentes tipos as exigências com as quais nos deparamos. Estas demandam esforços concentrados e redobrados, sem os quais corremos o risco de sucumbir a elas.
Nesse sentido, em nosso tempo, as inextricáveis relações entre memória, informação, educação e cultura não se tornaram apenas mais volumosas ou diferentes. Tornaram-se, também, mais difíceis e complexas, dificultando, em vários aspectos, por exemplo, a concretização de legítimas aspirações democráticas demandadas socialmente e por cada um de nós. Em nossa área específica, por exemplo, se os modelos tradicionais e gerais da Biblioteconomia, em grande medida estruturados sob perspectivas técnicas e organizacionais, mostram-se insuficientes para dar conta das demandas formativas e participativas que emergem sob a nova ordem mundial, as variadas pressões dessa mesma ordem dificultam, criam obstáculos de várias naturezas a avanços e superações que bloqueiam vivências e experiências cidadãs.
É precisamente nesse quadro que se inscreve, assim, a Biblioteconomia Educativa: não como uma subárea instrumental, mas como uma proposta de reconfiguração conceitual e prática da própria Biblioteconomia, orientada por uma compreensão ampliada de seus compromissos educativos.
A criação da RPBE precisa, pois, ser entendida nesse horizonte. Trata-se de uma iniciativa que nasce da necessidade de articular pesquisadoras e pesquisadores, instituições e práticas em torno de um projeto comum: investigar, sistematizar e desenvolver os fundamentos de uma Biblioteconomia que se reconheça, explicitamente, como prática educativa e cultural cidadã.

Fonte: Portal Biblioteconomia Educativa
Nesse aspecto, a RPBE não é apenas uma rede no sentido organizacional. Ela é, antes de tudo, um território de produção coletiva de conhecimento, sustentado por princípios de colaboração e diálogos inter e transdisciplinares procedentes da Biblioteconomia e de outros campos e linhas de trabalho comprometidos com a transformação social de matriz democrática. Sua constituição responde à percepção de que a consolidação de um campo científico, especialmente na hora atual, não se dá de forma espontânea, mas exige intencionalidade, densidade teórica, trabalho contínuo e reconhecimento social e institucional.
A discussão sobre os fundamentos epistemológicos da Biblioteconomia Educativa é, portanto, central. Não se trata apenas de nomear uma nova área, mas de explicitar problemáticas, delimitar objetos, definir e construir abordagens teórico-metodológicas capazes de sustentar sua legitimidade científica, bem como de constituir uma comunidade de pesquisadores articulados, mas autônomos, como condição do próprio desenvolvimento da área. Sem isso, a Rede perde sua singularidade de instância de produção científica, transformando-se em mero operador acadêmico burocrático, sem estatuto e estatura para a realização dos importantes objetivos que levaram à sua criação.
A Biblioteconomia Educativa se constitui na interseção de diferentes campos e objetos, notadamente da própria Biblioteconomia com a Educação, a Ciência da Informação, os Estudos Culturais, mas também a Comunicação, a Sociologia, as Letras, a Filosofia, a Arquitetura, entre outros. Seu objeto especial inclui, portanto, dispositivos especiais e especializados de produção, distribuição e recepção da memória social, em contextos formativos variados e tomados em suas múltiplas dimensões simbólicas, sociais e pedagógicas.
Essa perspectiva desloca o foco da ênfase exclusiva nos acervos já reconhecidos e canônicos, atentando para outras formas e linguagens simbólicas excluídas pelo preservacionismo e pelo difusionismo cultural, mas consideradas pelas práticas de mediação que colocam em relação dialógica e crítica acervos e sujeitos de diferentes procedências culturais.
A Biblioteca, nesse quadro, deixa de ser apenas um locus, um espaço circunstancial de acesso à memória social, e passa a ser entendida como instituição educativo-cultural na qual são produzidas experiências de interpretação e coconstrução de sentidos para si e para o mundo, pautados pela diversidade e pela alteridade.
Ao propor a Biblioteconomia Educativa como campo de conhecimento especializado, é necessário considerar os critérios que caracterizam um campo científico. Entre eles, destacam-se a existência de uma comunidade de pesquisadores, a definição de um objeto comum, a produção sistemática de conhecimento e o reconhecimento institucional. A RPBE atua diretamente, pois, na consolidação desses elementos. Ao promover encontros, simpósios e fóruns, ao estimular a produção acadêmica e ao ser ela própria uma instância de cooperação, ela contribui para a constituição de uma comunidade discursiva capaz de alavancar o campo em formação e desenvolvimento, ao mesmo tempo em que é alavancada por ele.
No plano das práticas, a Biblioteconomia Educativa se expressa em múltiplos contextos e configurações: bibliotecas escolares, universitárias, públicas, comunitárias, sejam elas físicas ou digitais. Em todas essas modalidades, o que está em jogo não é apenas o acesso ao conhecimento e a informações, mas a construção de condições para que os sujeitos possam, além de acessar signos, repertórios e bens culturais, produzi-los, interpretá-los, transformá-los, criá-los e recriá-los de forma significativa, crítica e criativa.
Isso implica reconhecer o papel da biblioteca, do bibliotecário e da bibliotecária como mediadores não só culturais, mas interculturais, agentes formativos especiais e singulares situados entre culturas. Desse modo, suas práticas deixam de ser compreendidas apenas em termos técnicos e passam a ser analisadas em dimensões educativo-culturais, envolvendo intencionalidade pedagógica, sensibilidade cultural e compromisso social e político.
Essa reconfiguração traz implicações diretas para a formação profissional. Torna-se necessário e obrigatório repensar os currículos dos cursos de Biblioteconomia, incorporando de forma mais consistente e orgânica as dimensões educativas, culturais, sociais e políticas da profissão. Ao mesmo tempo, a pesquisa assume um papel estratégico, não apenas na produção de conhecimento, mas na orientação das práticas e políticas formativas, oferecendo e recebendo delas não apenas confirmações, mas sobretudo desafios produtores de inflexões e renovações permanentes.
Do ponto de vista social e político, a Biblioteconomia Educativa inscreve-se em um projeto amplo e democrático de justiça educacional e cultural, de participação nos processos de produção, distribuição e apropriação de memória social. Em nenhuma sociedade, mas especialmente nas marcadas por desigualdades profundas, a problemática da educação e da cultura pode ser reduzida a suas dimensões técnicas; ela é e deve ser sempre e fundamentalmente uma questão ética e política de direitos.

Assim, a atuação no campo da Biblioteconomia Educativa implica um compromisso com a inclusão, com a diversidade e com a construção de espaços educativos mais equitativos e onde a dialogia e as diferenças possam prevalecer como critério de produção de identidades pessoais, grupais e sociais. Nesse sentido, as bibliotecas podem desempenhar um papel político estratégico, ao serem tomadas como instituições formativas e de participação cultural e cidadã ao mesmo tempo.
A constituição e consolidação do campo da Biblioteconomia Educativa, ainda que essencial, não está, contudo, isenta de desafios. Persistem nesse processo tensões entre diferentes concepções de Biblioteconomia, disputas por reconhecimento institucional, sem deixar de considerar importantes lacunas teóricas e metodológicas que ainda precisam ser enfrentadas par a par com as dificuldades políticas e institucionais. Acrescentem-se a isso as transformações técnicas e tecnológicas que colocam novas questões, exigindo que o campo se posicione criticamente frente às dinâmicas históricas e contemporâneas, às ordens culturais analógica e digital, à modernidade e à contemporaneidade.
Diante desse cenário, torna-se de fundamental importância a definição de uma agenda de pesquisa que articule diferentes níveis de análise: teórico, metodológico, empírico e aplicado. Essa agenda deve ser construída de forma coletiva e aberta, incorporando contribuições nacionais e internacionais e promovendo o diálogo entre diferentes tradições acadêmicas.
Por fim, é importante destacar que a construção da Biblioteconomia Educativa como campo de conhecimento especializado é um processo permanentemente aberto e em curso. Não se trata, portanto, de um movimento de construção de um produto pronto para o uso, mas de um movimento produtivo e produtor que se faz fazendo, na prática, na pesquisa e na reflexão crítica.
A RPBE desempenha nesse quadro, portanto, um papel fundamental. Ela não é apenas instrumento, mas condição estrutural e estruturante, criativa e criadora do campo especializado da Biblioteconomia Educativa. Aberto ao diálogo e não confinado narcisicamente em si mesmo, o novo campo constitui e, ao mesmo tempo, é constituído pelas matérias-primas da RPBE e, tal como ela, mais do que um organismo institucional. É um projeto intelectual e político que convida à participação coletiva.
Por fim, reafirmamos que pensar a Biblioteconomia a partir de sua dimensão educativa é reconhecer seu potencial transformador e democrático. É afirmar que a mediação de signos é, também e sobretudo, produção de sentidos, de culturas, de possibilidades de existência comum na diversidade.
Nota dos editores
Texto original apresentado no Simpósio Internacional de Biblioteconomia Educativa / Colóquio internacional de biblioteconomia educativa (CIBE26), em 18 de maio de 2026.
Disponível no Canal ECA USP Oficial: https://www.youtube.com/watch?v=7rNfM9TQUL4 .
Sobre os autores:
Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Em parceria com a Profa. Ivete Pieruccini é líder do GPEB – Grupo de Pesquisa em Biblioeducação. Membro do CEIS20 – Centro de Estudos Interdisciplinares, da Universidade de Coimbra, Portugal e da Rede de Pesquisa em Biblioteconomia Educativa.
Graduado em Letras Português e Francês, Mestre e Doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo.
Professora do Curso de Bacharelado em Biblioteconomia e do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Em parceria com o Prof. Dr. Edmir Perrotti é lider do GPEB – Grupo de Pesquisa em Biblioeducação. Membra do CEIS20 – Centro de Estudos Interdisciplinares, da Universidade de Coimbra, Portugal e da Rede de Pesquisa em Biblioteconomia Educativa.
Bacharela em Biblioteconomia, Mestra e Doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo.
Redação: Edmir Perrotti e Ivete Pieruccini
Imagem: Edmir Perrotti, Ivete Pieruccini e Canal YouTube ECA USP Oficial
Diagramação: Iasmim Farias Campos Lima










