
Onde publicar na era pós-Qualis na Área de Comunicação, Informação e Museologia, por Mateus Rebouças

Onde publicar na era pós-Qualis na Área de Comunicação, Informação e Museologia
Mateus Rebouças
mateus.reboucas@ufr.edu.br
A avaliação da pós-graduação brasileira realizada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) passou por mudanças significativas nas últimas quadrienais. Os critérios passaram a incorporar diferentes dimensões, como impacto social, internacionalização, formação de recursos humanos e qualidade da produção intelectual dos programas.
Durante muitos anos, quando nós, pesquisadores, precisávamos decidir onde publicar nossos artigos, a pergunta era quase automática: qual é o Qualis da revista? O sistema Qualis Periódicos tornou-se uma das principais referências para orientar estratégias de publicação, influenciando a escolha dos periódicos, políticas institucionais e até ranqueamentos de pesquisadores.
Entretanto, essa centralidade sempre foi alvo de críticas. Como destacam Gabardo, Hachem e Hamada (2018), muitos autores pontuam que o Qualis não foi concebido como base de indexação de periódicos, nem como instrumento para avaliar pesquisadores individualmente ou estabelecer uma classificação universal da qualidade das revistas. Seu objetivo original era subsidiar a avaliação dos programas de pós-graduação conduzida pela CAPES.
Com as mudanças recentes no modelo de avaliação, especialmente com maior atenção à qualidade do próprio artigo, muitos pesquisadores passaram a enfrentar uma nova dúvida: como escolher onde publicar?
Nesse contexto, a CAPES estabeleceu que cada área do conhecimento poderá adotar ou combinar três procedimentos para a classificação dos artigos: (1) análise do artigo por meio dos indicadores bibliométricos do periódico; (2) análise por critérios qualitativos do periódico e classificação do artigo por meio de seus indicadores bibliométricos diretos de citação; e (3) análise qualitativa do artigo, por meio dos considerados destaques.
Os dois primeiros procedimentos lembram bastante o “finado Qualis”, pois continuam inferindo a qualidade do artigo a partir do periódico. Já o terceiro desloca o foco para a própria produção científica. Com essa possibilidade de escolha, cada área definiu, em seu Documento de Área, os procedimentos adotados. No entanto, essa informação nem sempre aparece de forma explícita, exigindo leitura atenta e interpretação por parte dos pesquisadores.
Na Área 31 intitulada Comunicação, Informação e Museologia, o primeiro passo para escolher periódicos é consultar o Documento de Área e a Ficha de Avaliação disponíveis no site da CAPES. Esses documentos indicam que a produção intelectual deve ser observada para além da quantidade de publicações, considerando a qualidade da produção de docentes, discentes e egressos, bem como sua aderência às áreas de concentração e às linhas de pesquisa dos programas.

A Área 31 sinaliza a adoção da análise direta da produção intelectual, com uso de índices de repercussão e avaliação qualitativa por amostragem. Os programas deverão indicar até quatro produtos bibliográficos por docente permanente, incluindo artigos em periódicos, livros, capítulos de livros e organização de obras. Ou seja, a avaliação qualitativa não será feita sobre toda a produção, mas a partir dos chamados produtos destaques.
Isso torna a escolha de onde publicar ainda mais estratégica. Não basta escolher uma revista “bem classificada”: é preciso pensar se aquele artigo poderá ser considerado uma produção relevante, aderente ao programa e capaz de representar sua contribuição científica. A avaliação qualitativa poderá considerar a qualidade intrínseca do trabalho, sua adequação às linhas de pesquisa, sua contribuição para o campo e sua relevância intelectual. Ainda assim, o Documento de Área não detalha todos os pesos e procedimentos, o que mantém dúvidas em aberto.
Os indicadores bibliométricos continuam relevantes. Ao escolher um periódico, ainda precisamos observar métricas como H5, JCR, CiteScore, fator de impacto, percentis, impacto das colaborações e outros indicadores. Esses “outros indicadores” deixa implícitos, no documento, caminhos que podem ser considerados na avaliação. Também é necessário observar o escopo da revista, sua indexação, circulação, política editorial, revisão por pares e reconhecimento no campo.
Outro ponto central é a repercussão científica e social da pesquisa. Além das citações, a Área 31 menciona métricas alternativas, as altmetrics, que medem a circulação e o engajamento dos trabalhos em ambientes digitais. Assim, publicar na era pós-Qualis envolve também pensar em como o artigo será encontrado, lido, compartilhado e utilizado pela comunidade acadêmica e pela sociedade.
A Ciência Aberta também entra nesse debate. O documento destaca que os resultados das pesquisas devem estar disponíveis de forma ampla e gratuita, mencionando diferentes modalidades de acesso aberto: verde, dourada, diamante e híbrida. O modelo diamante merece atenção especial por não cobrar taxas nem de autores nem de leitores.
Nesse cenário, o pesquisador deve priorizar periódicos comprometidos com boas práticas editoriais, acesso aberto, uso de DOI e ORCID, transparência sobre taxas, preservação digital e políticas éticas claras. Também deve evitar periódicos predatórios, além de alinhar a produção com as linhas de pesquisa e a identidade do programa de pós-graduação.
Assim, publicar na era pós-Qualis significa perguntar menos “qual é o estrato da revista?” e mais “esta revista é adequada ao meu artigo, ao meu público e ao campo científico com o qual desejo dialogar?”. Para pesquisadores da Comunicação, Informação e Museologia, sugiro que leiam o Documento de Área com foco no item produção intelectual e no item impacto para se inteirarem efetivamente e alinharem as práticas numa perspectiva crítica, estratégica e alinhada à qualidade, à circulação e à contribuição social da pesquisa.
Referências
COORDENAÇÃO DE APERFEIÇOAMENTO DE PESSOAL DE NÍVEL SUPERIOR (Brasil). Diretrizes comuns da avaliação de permanência dos programas de pós-graduação stricto sensu. Brasília, DF: CAPES, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/capes/pt-br/centrais-de-conteudo/documentos/avaliacao/19052025_20250502_DocumentoReferencial_FICHA.pdf . Acesso em: 04 jul. 2026.
COORDENAÇÃO DE APERFEIÇOAMENTO DE PESSOAL DE NÍVEL SUPERIOR (Brasil). Documento de área: Comunicação, Informação e Museologia: área 31. Brasília, DF: CAPES, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/capes/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas/avaliacao/sobre-a-avaliacao/areas-avaliacao/sobre-as-areas-de-avaliacao/colegio-de-humanidades/ciencias-sociais-aplicadas/COMUNICACAO_DOCAREA_2025_2028.pdf/@@display-file/file . Acesso em: 04 jul. 2026.
COORDENAÇÃO DE APERFEIÇOAMENTO DE PESSOAL DE NÍVEL SUPERIOR (Brasil). Fichas de avaliação acadêmico e profissional: Comunicação, Informação e Museologia: referente ao quadriênio 2025-2028: área 31. Brasília, DF: CAPES, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/capes/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas/avaliacao/sobre-a-avaliacao/areas-avaliacao/sobre-as-areas-de-avaliacao/colegio-de-humanidades/ciencias-sociais-aplicadas/COMUNICACAO_FICHA_2025_20283quadrienios_2.pdf . Acesso em: 04 jul. 2026.
GABARDO, Emerson; HACHEM, Daniel Wunder; HAMADA, Guilherme. Sistema Qualis: análise crítica da política de avaliação de periódicos científicos no Brasil. Revista do Direito, Santa Cruz do Sul, v. 1, n. 54, p. 144-185, 2018. Disponível em: https://doi.org/10.17058/rdunisc.v1i54.12000 . Acesso em: 04 jul. 2026.
Sobre o autor
Professor do curso de Biblioteconomia e Ciência da Informação do Instituto de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal de Rondonópolis. Pesquisador do Grupo de Pesquisa Gestão da Informação e do Conhecimento na Amazônia (GICA).
Doutor e Mestre em Ciência da Informação pela Universidade Federal de Santa Catarina. Bacharel em Biblioteconomia pela Universidade Federal do Amazonas.
Redação: Mateus Rebouças
Fotografia: Mateus Rebouças
Diagramação: Naiara Raíssa da Silva Passos










