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v. 3, n. 10, out. 2025
Docência no Ensino Superior: entre preceitos, expectativas e o que vai além do ensinar, por Mateus Rebouças Nascimento

Docência no Ensino Superior: entre preceitos, expectativas e o que vai além do ensinar, por Mateus Rebouças Nascimento

Docência no Ensino Superior: entre preceitos, expectativas e o que vai além do ensinar

Mateus Rebouças Nascimento
mateusreboucas@gmail.com

Assumir a docência no ensino superior é um compromisso que vai além de transmitir conhecimentos. Ser professor universitário envolve atuar num espaço onde o conhecimento é produzido, compartilhado e, sobretudo, comprometido com o desenvolvimento da sociedade. É, também, compreender que a universidade não é um espaço isolado, mas parte integrante da sociedade, com características, potencialidades e identidades próprias.

Nesse sentido, conhecer a região onde a universidade está inserida é mais do que uma atitude de integração. No caso das universidades públicas brasileiras, que têm entre seus pilares o compromisso com o desenvolvimento regional, esse entendimento torna-se ainda mais urgente, exigindo um mergulho na realidade local, compreendendo as dinâmicas sociais, econômicas e culturais do lugar.

No caso da Universidade Federal de Rondonópolis (UFR), por exemplo, instituição na qual tomei posse no dia 15 de agosto de 2025, essa imersão é fundamental. Situada numa região estratégica do estado de Mato Grosso, com forte vocação em múltiplos domínios, a UFR carrega o potencial de contribuir diretamente para o desenvolvimento sustentável, a inovação social e a inclusão educacional. O professor que aqui atua não pode ignorar esse contexto; ao contrário, deve se apropriar dele para orientar suas práticas nos pilares do ensino superior.

Os cinco pilares que estruturam a missão universitária (ensino, pesquisa, extensão, inovação e internacionalização) devem dialogar com as demandas regionais. Ensinar numa universidade federal pública é mais do que disseminar conteúdos curriculares: é formar cidadãos críticos, capazes de intervir em sua realidade. A pesquisa, por sua vez, precisa estar conectada aos problemas regionais. Há temas que fazem mais sentido em Rondonópolis do que em qualquer outro lugar do país. Valorizar e fomentar essas linhas de investigação fortalece não só a universidade, mas toda a região.

A extensão é o elo mais direto entre a universidade e a sociedade. Projetos de extensão que envolvem escolas, associações, movimentos sociais ou setores produtivos são oportunidades de impacto e de aprendizado coletivo. Não se trata apenas de levar o conhecimento, mas de construir saberes a partir do diálogo com as diferentes comunidades. A inovação e a internacionalização, por sua vez, também ganham novos cenários quando pensadas a partir do local. Inovar pode significar desenvolver soluções tecnológicas adaptadas à realidade regional, enquanto internacionalizar é tanto criar redes globais quanto valorizar os saberes e as experiências locais que podem dialogar com o mundo.

Na foto: Onça-pintada em arte no campus da Universidade Federal de Rondonópolis, um dos símbolos mais emblemáticos do bioma do Pantanal / Crédito: Mateus Rebouças

Neste pouco tempo em que estou como Professor do Magistério Superior, a transição de bolsista para docente fez com que eu repensasse minhas ações, o meu eu enquanto ser humano e meu papel profissional nessas duas vertentes da sociedade. Perceber o que há por trás de cada aluno é uma tarefa complexa, que influencia sua presença, seu desempenho, sua relação com o aprender.

A docência no ensino superior tem me exigido novas reflexões que eu não tinha enquanto bolsista de mestrado e doutorado. Exige reconhecer que muitos dos alunos que recebo em minhas disciplinas na Universidade Federal de Rondonópolis são os primeiros de suas famílias a entrar numa universidade, enfrentam desafios econômicos, emocionais e logísticos para permanecerem, e que precisam ser considerados no meu papel enquanto docente.

Nessas questões mais delicadas, não podemos romantizar a docência e o ensino superior, ainda mais considerando que o acesso é restrito para grande parte da sociedade brasileira. Não podemos romantizar também a sobrecarga que nós, docentes universitários, temos para dar conta dos pilares de ensino, pesquisa, extensão, inovação e internacionalização, muito menos da publicação excessiva que o ciclo de comunicação científica exige.

Ser professor é poder construir e disseminar oportunidades para outras pessoas. É buscar formas de tornar o conhecimento acessível, disponível e prospectado. É saber que o conteúdo importa, mas que ele só ganha sentido quando se conecta com a realidade do aluno e suas vivências. A profissão carrega consigo muitos preceitos metodológicos, éticos e científicos. Há expectativas institucionais, curriculares, administrativas. Mas há também a expectativa de sermos agentes de transformação.

Essa multiplicidade de papéis exige de nós uma postura constante de formação, autoavaliação e parcerias. Estar numa nova casa como a Universidade Federal de Rondonópolis me faz sair da zona de conforto e emergir numa nova região a ser explorada, como o Centro-Oeste. Sair do contexto de onde vim, mas reconectar minhas raízes da Região Amazônica, afinal, o estado de Mato Grosso faz parte da Amazônia Legal, é promissor.

Minhas expectativas para daqui a 10, 20 anos são ter contribuído e contribuir mais com o desenvolvimento regional e com a universidade da qual faço parte. É dar oportunidade para que outras pessoas consigam chegar ao mestrado, doutorado e a outros níveis aos quais apenas um grupo seleto do país possui acesso e oportunidade de ascensão social. 

Ensinar é apenas o pilar superficial do que significa ser docente de uma universidade federal. A verdadeira dimensão da docência se revela quando compreendemos que estamos inseridos numa região, num contexto e com um sentido humano, social e regional. Que cada aula pode ser um ponto de virada na vida de alguém. Que cada pesquisa pode gerar impacto concreto. Que cada extensão pode transformar comunidades.

Conhecer e valorizar a região onde atuamos é, portanto, condição indispensável para uma docência comprometida. Ao olhar para o ambiente no qual a universidade está inserida, escutá-lo e dialogar com ele, a universidade cumpre seu papel de não apenas formar profissionais, mas cidadãos ativos, críticos e sensíveis às realidades que os cercam. A docência, assim, vai muito além do ensinar.

Sobre o autor

Mateus Rebouças Nascimento

Professor do curso de Biblioteconomia e Ciência da Informação do Instituto de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal de Rondonópolis. Pesquisador do Grupo de Pesquisa Gestão da Informação e do Conhecimento na Amazônia (GICA)

Doutor e Mestre em Ciência da Informação pela Universidade Federal de Santa Catarina. Bacharel em Biblioteconomia pela Universidade Federal do Amazonas.


Redação: Mateus Rebouças Nascimento
Fotografia: Mateus Rebouças Nascimento
Diagramação: Iasmim Farias Campos Lima

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