
Desafio à memória: uma trajetória de formação e experiência, por Leilah Santiago Bufrem

Desafio à memória: uma trajetória de formação e experiência
Leilah Santiago Bufrem
santiagobufrem@gmail.com
Introdução
Diante do desafio de relatar minha carreira, formação e experiência como professora e pesquisadora, volto-me aos marcos da trajetória acadêmica, ao expô-la em síntese confessional. Reconheço a alternância entre “práxis reiterativa” e “práxis inovadora”: a primeira, consensual ao projetado, reproduz-se em múltiplos resultados concretos, com características análogas, enquanto a segunda, cuja criação não se adequa plenamente ao plano, culmina em “produto novo e único” (Sánchez Vásquez, 2011), histórico e fundamental.
A complexa tarefa de reduzir a algumas páginas um processo de quarenta anos de vida acadêmica exigiu-me questionamentos a partir de recortes, delimitações e ênfases, desde a identificação de princípios, influências intelectuais, até o reconhecimento de agentes diversos, cujas contribuições foram vitais para compreender, relatar e transformar a realidade social por meio de propostas e realizações. Impõe-se, portanto, repensar a diversidade de conceitos e princípios, entre os quais nos situamos, quando assumimos a condição de formadores e pesquisadores.
Determinantes teóricos e intelectuais
O contexto e as inter-relações entre os avanços científicos e as formas de produção do conhecimento são destacados por Ladrière (1978), para quem a ciência age sobre a realidade, transformando-a, sobretudo, por meio da tecnologia, face visível de seus resultados. Impõe-se, todavia, a tarefa crítica à prática na busca por modos coerentes de intervenção na realidade, especialmente em programas de formação acadêmica, pois se a pesquisa pode ser considerada um meio de conhecimento integrador de teoria e prática, o seu aperfeiçoamento é a razão pela qual tomamos consciência da necessidade de ampliar a compreensão sobre as possibilidades teóricas e concretas para avaliar e aperfeiçoar formas de aquisição do saber. Portanto, a pesquisa, as preocupações de estudo e a ação concreta na Ciência da Informação (CI) e nos seus interdomínios são aqui ilustradas como exemplos da práxis. Inspirada em pressupostos e princípios determinantes das ações e transformações realizadas nesta trajetória, adotei as concepções de práxis transformadora, a revitalizar o papel da universidade, conforme o critério de que difundir verdades já descobertas, socializar essas verdades, socializar o novo, só é possível quando de fato a sociedade tem acesso ao saber (Gramsci, 1978). Mas esta análise da trajetória inclui a elaboração crítica, a consciência do que realmente somos, um “conhece-te a ti mesmo”, produto do processo histórico até então desenvolvido, marcando-nos com uma infinidade de traços recebidos sem benefício no inventário (Gramsci, 1978). É imperativo, no início, compilar esse inventário. Com esse respaldo, o significado da educação passa a ser vital ao processo, pelo qual instituições voltadas à informação se atualizam. Confirmam-se os indícios evidenciados na literatura sobre o sentido de atender as necessidades de aprimoramento do profissional da informação nos saberes e práticas relativos ao processo ensino-aprendizagem.
E o saber sobre o objeto, com a consciência de quem o constrói (Bourdieu; Chamboredon; Passeron, 1990), diversifica-se ao longo da história, consoante necessidades, transformações e representações do conhecimento adquirido. Essa construção é aqui ilustrada desde a idealização das bases de dados, capazes de reunir fontes de informação de uma área, considerando seus interdomínios ou áreas afins, imprescindíveis enquanto pensamos no “inventário”. Damos destaque ao papel político, social e crítico das relações entre mediação e saberes e seus potenciais de transformação social (Gabriel Junior; Bufrem, 2022). Partimos, consequentemente, da ruptura com o senso comum, enfatizada em Bourdieu, questionando as pré-noções e evidências imediatas oferecidas no cotidiano, redutoras do objeto de pesquisa, como se sua realidade fosse óbvia e acessível sem um esforço de construção teórica. Daí o inventário.
O inventário
Entre os exemplos concretos e históricos de um despertar a partir do inventário, tomei aqui minhas contribuições para o movimento coletivo da criação da Editora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), fundada oficialmente no dia 24 de março de 1987, com o nome Scientia et Labor. Tive o privilégio de dar minha contribuição como sua primeira diretora, após ter assumido como coordenadora duas comissões editoriais pró-tempore. Ocorreu quando da posse do Professor Riad Salamuni, primeiro reitor eleito pela comunidade universitária da UFPR. Fui sua primeira diretora, até o final de uma profícua gestão, em 1990. A experiência foi favorecida pelo dinamismo das editoras universitárias, cujas bases culturais foram ampliadas pelo movimento político de redemocratização da década de 1980.

A conjuntura veio a favorecer, também as primeiras ações resultantes das propostas de pós-graduação lato sensu que exerci como Coordenadora do Curso de Especialização em Biblioteconomia, no ano de 1985 e do Curso de Especialização para Bibliotecários de Instituições de Ensino Superior, de 1992 a 1993, ambos no Setor de Ciências Humanas Letras e Artes. A intenção de iniciar o Mestrado perseverou com o lançamento do Mestrado Interinstitucional (Minter), entre a UFPR e a Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCAMP). Os programas Minter e Dinter (Doutorado Interinstitucional), no Brasil, foram fundamentais para a expansão e interiorização da pós-graduação no Brasil, tendo como maior contribuição a redução de assimetrias regionais na formação de recursos humanos de alto nível, permitindo a instituições consolidadas (promotoras) oferecerem cursos em instituições localizadas em regiões com carência de doutores (receptoras).
Após o trabalho da Comissão para Estudos com vistas à criação de um Programa de Pós-Graduação, no Departamento de Ciência e Gestão da Informação, foi criado o Mestrado em Ciência, Gestão e Tecnologia da Informação do qual fui a primeira Coordenadora, até o ano de 2009.
Essas ações fortaleceram minha convicção sobre o vínculo de ensino com a pesquisa no ambiente institucional de uma universidade pública e, como consequência, o projeto Brapci. O vasto universo de saberes registrados, no qual se destacam as revistas científicas, reiterou minha esperança de construir um instrumento de produção específica, cuja construção representaria a produção intelectual da área de CI e de interdomínios, especialmente para a facilitar a visualização, o manejo, a utilização, a análise e a interpretação da produção nela contida, sob uma visão diacrônica, além de preservar digitalizados os textos de um significativo acervo histórico impresso. (Bufrem, 2006).
Antes desta sigla, uma outra a representou: BRES (Base Brasil Espanha), ideia nascida do convênio interinstitucional de colaboração acadêmica e de pesquisa entre a Universidad Carlos III de Madrid (UC3M), na Espanha, e a UFPR, no Brasil, por mim representada. Formalizado em 2005, teve como principal área a CI e visou, entre outros objetivos fortalecer a cooperação entre as duas universidades, promover a colaboração em pesquisas e a produção acadêmica conjunta entre docentes e pesquisadores de ambas as instituições, mas, sobretudo, impulsionar a implementação e desenvolvimento do projeto que viria a se constituir na Base de Dados Referencial de Artigos de Periódicos em Ciência da Informação no Brasil (Brapci). Envolveu a parceria de outros professores e pesquisadores de ambas as universidades, como José Antonio Moreiro González e Elias Sanz Casado, da UC3M e Wanda Paranhos, professora aposentada da UFPR, resultando em orientações, publicações e atividades conjuntas na área. Foi um processo efetivo de transformação e formação da necessária consciência do que éramos, a idealização e criação da Brapci e a atuação formativa, constante, desde a responsabilidade por disciplinas com foco na Pesquisa em Ciência da Informação, nos anos de 1980, até hoje.
Desde sua concepção, como alvo do projeto de produtividade por mim apresentado em 2000, ao CNPq, “Opções metodológicas em pesquisa: a contribuição da área da informação para a produção de saberes no ensino superior”, a Brapci teve como objetivo subsidiar estudos e propostas na área de Ciência da Informação, fundamentando-se em atividades planejadas institucionalmente. No momento de transição digital, diante da eventualidade de perda do acervo impresso dos periódicos da área de CI no Brasil, visualizei a possibilidade de uma base de dados capaz de representá-los. Com esse propósito, recorri por duas vezes, ao edital Universal de fomento, uma das mais tradicionais chamadas, realizada desde 2001, pelo CNPq, permitindo a maior democratização possível dos recursos que o CNPq coloca à disposição da comunidade científica brasileira.
Com esse propósito, foram identificados os títulos de periódicos científicos da área de CI e indexados seus artigos, constituindo-se inicialmente a base de dados referenciais. A ideia de ampliar o espaço documentário ao pesquisador facilitou a visão de conjunto da produção na CI, revelando especificidades do domínio científico.
Em 2007, apresentei o projeto “Metodologia para criação de uma base de dados on-line de acesso público: modelizando práticas para a socialização de saberes” proposta considerada adequada aos objetivos do Edital MCT/CNPq (2007), às condições e exigências nele estabelecidas como atividade de pesquisa em CI, considerando-se minha produção científica e intenção de criar um modelo compartilhado para divulgação e universalização de conteúdos integrais produzidos na área de CI, mais especificamente na Base Referencial de Artigos de Periódicos em Ciência da Informação (BRAPCI), cujo acesso seria pela rede Internet. O CA recomendou, então, a concessão de verbas para despesas de capital e de custeio, suficientes para o início do projeto.

Idealizada e coordenada por mim, no Departamento de Ciência e Gestão da Informação da UFPR, a base ganhou visibilidade com sua disponibilização na Internet a partir de 2008 (Bufrem et al., 2010). A partir de 2016, foi transferida para a Universidade Federal do Rio Grande do Sul e passou a integrar o projeto de pesquisa “Desenvolvimento de uma metodologia para incorporação dos modelos de web semântica e FRBR na base de dados Brapci”, sob coordenação do Professor Gabriel Junior, incorporando novas funcionalidades e a conversão dos dados da base de dados em uma estrutura Resource Description Framework (RDF). Esta modificação na estrutura da base possibilita integração com ferramentas de Linked data e SPARQL.
A Base de Pesquisadores Bolsistas de Produtividade (PQ) em Ciência da Informação (BPPQ) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico foi construída para abrigar os dados estruturados da produção científica publicada pelos PQ-CI-CNPq. Idealizada e mantida desde 2014 para a realização da proposta anterior e em vigência visa reconhecer, na genealogia intelectual da literatura científica, linhas de influência na produção autoral dos PQ-CI-CNPq. Podemos, também, observar características dominantes da nossa ascendência genética, como as linhas e vertentes intelectuais, objeto privilegiado para investigar a origem, a evolução, a disseminação e a permanência de pesquisadores, áreas ou domínios do conhecimento, em prol de sua memória científica. A orientação aos projetos de pesquisa e o apoio aos respectivos grupos e pesquisadores destacam-se entre os projetos fomentados pelo CNPq, na recorrência ao inventário. Como legado e impacto, além da produção resultante de todos esses anos de trabalho por meio de ensino, pesquisa e formação, penso ter contribuído concretamente à área de CI e à sociedade, como esforço coletivo quando elaborei uma proposta de construção de uma análise não-reducionista, para compreender as dimensões de uma pesquisa: epistemológica, teórica, morfológica, técnica, política e ética. Para essa compreensão, apoio-me na ênfase dada por Marx (1945) ao papel decisivo da prática revolucionária para a compreensão e a transformação do mundo.

Além do repensar sobre minha trajetória de vida no ensino e na pesquisa, este texto inclui experiências, perspectivas e preocupações de estudo, com ênfase na atuação na CI, impedindo-me de pensar isoladamente, embora o pensar no coletivo requeira o reconhecimento do que somos, do que podemos, propomos e conquistamos.
Considerações finais
As reflexões inspiradas em princípios orientadores do trabalho obstinado, da integração na luta pela manutenção da educação pública e do respeito ao coletivo geram a expectativa de que esta trajetória, hoje objeto de consciência, seja inspiradora.
Trouxe exemplos práticos ilustrando como propostas e ações cotidianas podem ser soluções para problemas sociais graças à ação concreta dos agentes e grupos e demonstrando como a vida social envolve interações e significados compartilhados entre pessoas. Com a interconexão entre teoria e prática o realizado deve superar o estágio das ideias abstratas.
Daí a importância de colocar o conhecimento em ação para promover mudanças e resolver problemas, criando formas de ensinar e de transformar e contribuindo para, além da reiteração e da reprodução de soluções já existentes, unindo a teoria com a prática e, desse modo, transformando a realidade e nela intervindo.
Referências
BOURDIEU, P.; CHAMBOREDON, J. C; PASSERON, J. C. A profissão de sociólogo, preliminares epistemológicas. Petrópolis: Vozes, 1990.
BUFREM, L. S. Memória e construção social da Base de Dados Referencial de Artigos de Periódicos em Ciência da Informação (Brapci). In: SALDANHA, G. S.; MARTELETO, R. M. (Org.). A mediação dos saberes em perspectiva: V Colóquio Científico Internacional da Rede Mussi. Rio de Janeiro: Ibict, 2022, v. 1, p. 19-29.
BUFREM, L. S. Revistas científicas: características, funções e critérios de qualidade. In: POBLACIÓN, D. A.; WITTER, G. P.; SILVA, J. F. M. (Orgs.). Comunicação e produção científica: contexto, indicadores e avaliação. São Paulo: Angellara, 2006. p. 191-214.
BUFREM, L. S.; COSTA, F. D. O.; GABRIEL JUNIOR, R. F.; PINTO, J. S. P. Modelizando práticas para a socialização de informações: a construção de saberes no ensino superior. Perspectivas em Ciência da Informação, Belo Horizonte, v. 15, n. 2, p. 22–41, maio/ago. 2010. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/pci/article/view/23631 . Acesso em: 29 dez. 2025.
BUFREM, L. S.; GABRIEL JUNIOR, R. F. Da BRES à BRAPCI: memória e construção social da Base de Artigos de Periódicos em Ciência da Informação (Brapci). In: ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISA EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO, 22., 2022, Porto Alegre. Anais […]. Porto Alegre: UFRGS, 2022. Disponível em: https://enancib.ancib.org/index.php/enancib/xxiienancib/paper/view/1180 . Acesso em: 29 dez. 2025.
GRAMSCI, A. Concepção dialética da história. 3. ed. Tradução de Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.
LADRIÈRE, J. Filosofia e práxis cientifica. Rio de Janeiro: F. Alves, 1978.
MARX, K. Teses sobre Feuerbach. Lisboa: Avante! 1945.
SÁNCHEZ VÁZQUEZ, A. Filosofia da práxis. São Paulo: Expressão Popular, 2011.
Sobre a autora
Professora Titular Aposentada do Departamento de Ciência e Gestão da Informação da Universidade Federal do Paraná e docente Permanente do Programa de Pós Graduação em Ciência da Informação da
Universidade Federal de Pernambuco. Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq – Nível A.
Doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo. Mestre em Educação pela Universidade Federal do Paraná. Bacharela em Biblioteconomia e Documentação pela Universidade Federal do Paraná. Graduada e licenciada em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Pós-doutorado pela Universidad Autónoma de Madrid.
Redação: Leilah Santiago Bufrem
Fotografia: Wikipédia / UFPR
Diagramação: Iasmim Farias Campos Lima









