• contato@labci.online
  • revista.divulgaci@gmail.com
  • Universidade Federal de Rondônia, Porto Velho - RO
v. 4, n. 01, jan. 2026
O que aprendi com as representações de um jornal e de uma comunidade sobre o Semiárido, por Ismael Mendonça

O que aprendi com as representações de um jornal e de uma comunidade sobre o Semiárido, por Ismael Mendonça

O que aprendi com as representações de um jornal e de uma comunidade sobre o Semiárido

Ismael Mendonça
ismaelmendonca@gmail.com

A perspectiva aqui alinhavada deriva das conclusões da tese “Peleja da informação com a leitura: um jornal, uma comunidade rural e suas representações sociais sobre o Semiárido cearense” (Mendonça, 2024), que defendi no Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação da UFMG. O jornal e a comunidade indicados no título do estudo são, respectivamente, “O Povo” – principal e mais antigo periódico do Ceará, há 98 anos em atividade – e um grupo de camponeses situados majoritariamente no município de Independência, sertão cearense, ordenados em torno da Escola Família Agrícola Dom Fragoso e da Diocese de Crateús e inseridos no contexto sociopolítico do “cristianismo da libertação” (Löwy, 2016), nas práticas agroecológicas da agricultura familiar e nos movimentos culturais da convivência com o Semiárido local.

De modo geral, para não ferir o escopo deste texto nem cansar você, prezado leitor/ prezada leitora, posso dizer que escolhi trabalhar com “O Povo” dada a inserção longeva desse veículo no dia a dia de Fortaleza, minha cidade natal, e pelas inquietações decorrentes do meu mestrado, encerrado em 2018. Na ocasião, sob olhar antropológico e informacional, me debrucei acerca da estética tipográfica de dois de seus cadernos especiais, “Planeta seca” (2012) e “Sertão a ferro e fogo” (2014), que falam do Semiárido pela insígnia do sofrimento, embora não excluam a poiesis cotidiana, isto é, os modos de resistência e de superação acionados nas adversidades.“Caderno especial” é um termo do jornalismo impresso e se refere às produções feitas em formatos de “grande reportagem” – outra expressão técnica, que significa que uma matéria foi apurada e redigida de forma aprofundada e contextualizada, abrindo-se, intencionalmente, às interpretações do público (Melo; Assis, 2020). Pois bem, “O Povo” tem esta característica de, sistematicamente, falar sobre o Semiárido cearense, compartilhando de uma missão que, direcionada ao leitorado mais amplo, notadamente urbano, traduz-se em noticiar com densidade sobre aspectos da realidade sertaneja. Para isso, a editoria tomava a liberdade de experimentar, nos textos e nas imagens, maneiras de narrar as histórias, gerando uma experiência fruitiva junto aos leitores.

Na foto: Capa dos cadernos Planeta seca (2012) e Sertão a ferro e fogo (2014) / Fonte: Acervo da pesquisa

“Tomava”, ação conjugada no pretérito perfeito do indicativo, porque a editoria em questão foi descontinuada em 2019, e os projetos das grandes reportagens, como os cadernos, com suas experimentações estéticas, migraram da textualidade impressa para a eletrônica e audiovisual – um sintoma das mudanças socioeconômicas que têm afetado os mundos da escrita e da leitura e, com isso, o jornalismo, dentre outras áreas.

Em síntese, estas foram as indagações trazidas do mestrado para o doutorado: nos cadernos especiais, “O Povo” estaria a falar para os sujeitos do campo ou apenas sobre eles? Haveria identificação dos sujeitos do campo com as elaborações do jornal? E no exercício metodológico de definir os participantes da pesquisa, cheguei à comunidade de Independência, me estabeleci no local, conheci uma parte de seus integrantes, dialoguei com algumas de suas lideranças e recrutei dez pessoas camponesas para interagirem, de modo consciente e voluntário, por via da leitura, com uma amostra de cadernos que falavam sobre o Semiárido por diferentes ângulos (violência, convivência, estiagem e intervenção do Estado). No meu imaginário de pesquisador em formação, reunir esses dois universos aparentemente díspares levaria a empiria a se comportar como um “duelo entre gigantes” – daí, em parte, o sentido da “peleja” na tese –, em que cada um sustentaria as representações sociais que regularmente catalizam sobre o Semiárido, permitindo haver a interação e, com essa, a divergência e o confronto necessários às análises.

Na foto: Capa dos cadernos especiais lidos pelos camponeses / Fonte: Acervo da pesquisa

Sobre a teoria das representações utilizada no estudo, essa foi apreendida de Moscovici (2015), que a estruturou na Psicologia Social, em 1961, partindo da abordagem durkheimiana sobre as representações coletivas. Dos desdobramentos da teoria seminal, um foi tomado para colaborar com a tese: a proposta de Jodelet (2005, 2015), que explora o caráter dialético das representações sociais em âmbito etnográfico. Com isso, ambos os pensadores oferecem polpa para pensarmos em movimentos simbólicos que tanto respeitam a autonomia dos sujeitos, por evocarem seus “mundos de vida”, como desvelam os agenciamentos que conformam a alteridade na qual eles se colocam, evidenciando as artimanhas de dominação, como preconceitos e estereótipos, que habitam o laço social.

Visceral, a teoria moscoviciana impacta, pois, na forma de refletir sobre as relações humanas, já que representar socialmente implica em “converter o não familiar em familiar”, ancorando e objetivando diferenças e estranhamentos em universos consensuais. Nessa medida, mobilizações informacionais, sejam institucionalizadas, como as de “O Povo”, sejam trivializadas, como as dos camponeses de Independência, expressas pelos modos como caracterizaram a si, o outro e o meio onde vivem – além da própria leitura efetivada por eles empiricamente, que também foi de ordem representacional –, mostram-se enviesadas pela inscrição em contextos onde circulam dinâmicas de poder, revelando a face ideológica das operações significantes, por mais corriqueiras que pareçam ser.

Capa dos cadernos especiais lidos pelos camponeses

De fato, a informação tem este potencial de juntar e de dar forma, estando, por vezes, acompanhada por gestos de submissão e de silenciamento. Porém, na investigação, percebi que a pretensa ação ordenadora de mundos não aconteceu restrita à pressão do veículo e sua estratégia midiática materializada nos cadernos, uma vez que a leitura dos camponeses foi o que transformou a suposta discrepância em aproximação. Nove dos dez leitores se identificaram com, ao menos, parte das representações publicadas pela equipe de “O Povo”, e isso não aconteceu pacificamente, como se tivessem sido absorvidos por determinada hegemonia, mas por negociações simbólicas desses sujeitos que encarnaram sentidos por intermédio de seus contextos e transgrediram as objetivações editoriais.

Logo, na peleja experienciada, a leitura serviu como um mecanismo conciliatório de diferenças que em momento nenhum anulou posicionamentos. Ao contrário, assegurou as peculiaridades e as contradições inerentes às maneiras estruturadas de ser, pensar e agir, reunindo apreensões não antagônicas, mas dialeticamente complementares. Assim, a conciliação observada existiu à medida que as interações aconteceram sem a exclusão da qualidade crítica e moral dos envolvidos: uma trégua autorizada e vigilante acionada por eles e localizada na porosidade da fronteira que demarca, culturalmente, o si e o outro.

Tudo isso coopera para que tal mecanismo conciliatório de diferenças não aluda à concordância radical ou irrestrita, mas à competência de quem sabe transitar entre espaços e questões, manifestando a relativa autonomia dos indivíduos nas representações sociais vinculadas ou não ao Semiárido, a jornais ou a comunidades rurais. Uma conciliação cujo caráter não perde o quê de aguerrido. Um aprendizado que pude obter em campo e que compartilho agora com você, caro leitor/ cara leitora, neste alinhavado de signos.

Referências

JODELET, D. Formes et figures de l’altérité. In: SANCHEZ-MAZAS, M.; LICATA, L. L’Autre: regards psychosociaux. Grenoble: Presses Universitaires de Grenoble, 2005. p. 23-47.

JODELET, D. Loucura e representações sociais. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2015.

LÖWY, M. O que é cristianismo da libertação: religião e política na América Latina. 2. ed. São Paulo: Fundação Perseu Abramo: Expressão Popular, 2016.

MELO, J. M. de; ASSIS, F. de (org.). Gêneros jornalísticos: estudos fundamentais. Rio de Janeiro: PUC Rio; São Paulo: Edições Loyola, 2020.

MENDONÇA, I. L. Peleja da informação com a leitura: um jornal, uma comunidade rural e suas representações sociais sobre o Semiárido cearense. 2024. Tese (Doutorado em Ciência da Informação) – Escola de Ciência da Informação, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2024. Disponível em: https://hdl.handle.net/1843/78656 . Acesso em: 26 dez. 2025.

MOSCOVICI, S. Representações sociais: investigações em psicologia social. 11. ed. Petrópolis: Vozes: 2015.

PLANETA seca. O Povo, Fortaleza, 11 nov. 2012. Caderno especial. 16 p.
SERTÃO a ferro e fogo: marcas de gado e gente. O Povo, Fortaleza, 12 ago. 2014. Caderno especial. 20 p.


Redação: Ismael Mendonça
Fotografia: Ismael Mendonça
Diagramação: Iasmim Farias Campos Lima

0

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Translate »