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v. 3, n. 05, maio 2025
Museologia e museus no metaverso – Entrevista com Charles Martins

Museologia e museus no metaverso – Entrevista com Charles Martins

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Museologia e museus no metaverso – Entrevista com Charles Martins

Charles Douglas Martins
charles.dmartins@ufpe.br

Sobre o entrevistado

Em 2022, Charles Douglas Martins defendeu sua dissertação de mestrado pelo Programa de Pós-Graduação em Museologia e Patrimônio da UNIRIO/MAST, sob a orientação da Profa. Dra. Luisa Maria de Mattos Rocha.

Pernambucano, Charles tem como área de origem a Licenciatura em História e o Bacharelado em Sistemas de Informação. Atua como coordenandor do Centro de Documentação e Pesquisa da TV Universitária da Universidade Federal de Pernambuco. Casado, Charles tem como hobby tocar trompete.

Sua dissertação, intitulada “Museologia no Metaverso: Museus Muito Além de uma Metáfora Digital”, investigou o metaverso como espaço para museus virtuais. A pesquisa envolveu entrevistas e relatos de experiências práticas, destacando como os avatares interagem nesses ambientes e constroem exposições. Além disso, explorou as complexidades e subjetividades desse campo, registrando modelos e práticas antes que sejam substituídos por novas tecnologias. O estudo reconhece os museus virtuais como espaços legítimos de comunicação do patrimônio digital, identificando-os como novos fatos sociais e ativos culturais no metaverso.

Nesta entrevista, Charles compartilha sua trajetória durante o mestrado.

Divulga-CI: O que te levou a fazer o doutorado e o que te inspirou na escolha do tema da tese?

Charles Martins (CM): Esse foi um mestrado interinstitucional entre a UFPE, UNIRIO e MAST. Eu já era mestre em Antropologia pela UFPE, pelo programa do DAM (Departamento de Antropologia e Museologia), cuja sigla evidencia a conexão entre as duas áreas. Quando soube da oferta desse mestrado, vi nele a chance de fechar um ciclo de formação na minha vida. No entanto, não imaginava que ele abriria uma nova perspectiva em minhas práticas cotidianas: a busca por salvaguardar o ameaçado patrimônio universitário. O tema da dissertação surgiu da investigação sobre a cultura digital no início dos anos 2000.O Second Life foi uma das primeiras plataformas a oferecer um ambiente imersivo, permitindo a criação de avatares, a construção de espaços e, no caso da minha pesquisa, a existência de museus dentro desse metaverso. O objetivo era compreender as dinâmicas de museologia nos mundos virtuais, socialização e expografia de acervos. De onde vêm esses acervos? Quem são seus proprietários? Por que criaram esses museus e o que desejam comunicar? E, afinal,descrever como concebíamos os museus virtuais no início do milênio?

DC: Quem será o principal beneficiado pelos resultados alçados?

CM: As formas de museologia nos ambientes virtuais, embora não sejam tão novas, ainda são recentes como campo de pesquisa. Trata-se de fatos sociais protagonizados por usuários, por meio de avatares, simulacros de público, gestores, criadores. A pesquisa beneficia museus virtuais, pesquisadores da área de museologia digital e desenvolvedores que atuam no campo do metaverso. O estudo amplia as discussões acadêmicas sobre o papel do patrimônio digital,que está em constante transformação no mundo virtual.

DC: Quais as principais contribuições que destacaria em sua dissertação para a ciência e a tecnologia e para a sociedade?

CM: Franz Boas afirmou que “a antropologia deve ser realizada antes que as culturas desapareçam”, enfatizando sua preocupação e a importância de registrá-las antes que se percam, a fim de garantir o entendimento e a preservação da diversidade cultural. O Second Life pode ser considerado uma cultura digital altamente sensível às modernizações tecnológicas, e essa afirmação antropológica se aplica à lógica desses mundos virtuais. O patrimônio digital no metaverso não se transforma em ruínas de um passado que pode ser posteriormente evocado por seus vestígios, nem mesmo em suas práticas imateriais. No virtual, a finitude assume uma condição binária — zero ou um — onde um museu pode, de forma abrupta, simplesmente deixar de existir. Não há um tempo fixo em um mundo de devir,de vir a ser. Assim, ainda que a pesquisa não tenha esse foco direto, ela acaba situando o metaverso no contexto cultural e em uma cronologia, documentando-o como vestígio de uma cultura digital de sua época.

DC: Seu trabalho está inserido em que linha de pesquisa do Programa de Pós-graduação? Por quê?

CM: Meu trabalho se insere na linha de pesquisa “Museu e Museologia”porque aborda os museus no metaverso, alinhando-se aos princípios do Museu Integral. Os museus virtuais expandem as possibilidades de acesso, preservação e mediação cultural, incorporando essa abordagem ao oferecer uma experiência museológica ampliada,interdisciplinar e acessível. Dessa forma, minha pesquisa contribui para a reflexão sobre a digitalização do patrimônio e suas implicações dentro dessa linha de investigação. Os museus virtuais se encaixam nesse conceito porque ampliam o acesso ao conhecimento, promovem interatividade e eliminam barreiras geográficas. Assim, possibilitam uma experiência museológica mais inclusiva, reforçando a proposta de um museu mais aberto e participativo.

DC: Citaria algum trabalho ou ação decisiva para sua dissertação? Quem é o autor desse trabalho, ou ação, e onde ele foi desenvolvido?

CM: A pesquisa de campo descrita em The Making of Second Life: Notes from the New World, de Wagner James Au, aborda a construção e evolução do Second Life e serviu como um estudo essencial para compreender a história, preservação e uso dos espaços digitais. Além disso, utilizei o trabalho de Heaton (2007), Scripting Recipes for Second Life, que ensina o uso de scripts para aplicar a linguagem da programação dentro do Second Life. Adotei a linguagem Linden Scripting Language (LSL) não apenas como um recurso técnico, mas também como um meio de aplicar o método da observação participante no campo de estudo.O scripting, nesse contexto, tornou-se uma forma de imersão e experimentação direta,permitindo-me não apenas observar, mas também atuar no ambiente digital, criando objetos,interações e simulações de museus. Dessa maneira, eu transito entre diferentes papéis que compõem o museu no metaverso — espectador, museólogo, colecionador, antropólogo, entre outros — passando de um mero observador a um participante ativo na dinâmica do espaço virtual. Essa abordagem adapta o conceito tradicional de observação participante,levando-me a cunhar o termo “interação participante”, que enfatiza a ação e a transformação do campo pelo avatar pesquisador. O conceito de “hiperculturalidade e hipertextualidade”, discutido por Scheiner (2020), foi utilizado para destacar como o ambiente museológico digital envolve interação e construção ativa de significados. A filosofia de Pierre Lévy e Merleau-Ponty foi empregada como base para compreender os corpos e mundos virtuais.

DC: Quais foram os passos que definiram sua metodologia de pesquisa?

CM: A metodologia utilizada nesta pesquisa combina a abordagem exploratória com ênfase em observação participante e entrevistas. Trata-se de uma pesquisa exploratória, pois busca investigar um fenômeno ainda pouco explorado que são os museus no metaverso . A dissertação inclui entrevistas com os atores envolvidos no metaverso, mais especificamente com os avatares, cujos relatos e experiências são fundamentais para entender as perspectivas dos usuários e a forma como interagem nos museus virtuais. Além disso, por meio do uso de avatares, adoto uma abordagem de interação participante,inserindo-me no campo de estudo, interagindo e contribuindo para a construção do ambiente digital. Dessa forma, não apenas pesquiso, mas também crio o próprio campo a ser investigado, coletando dados sobre as práticas museológicas virtuais.

DC: Quais foram as principais dificuldades no desenvolvimento e escrita da dissertação?

CM: A pesquisa foi realizada a partir de 2020, durante o pico da pandemia de COVID-19, e isso implicou diretamente numa reação emocional, impulsionada pela busca por uma realidade alternativa em um cenário global de isolamento e incertezas. Esse contexto emocional dificultou o andamento da pesquisa em diversos momentos, pois o distanciamento social e as questões de saúde afetaram minha concentração e bem-estar. Contudo,justamente por se tratar de uma pesquisa realizada no metaverso, esse fator se tornou, paradoxalmente, uma vantagem. Durante a pandemia, observou-se um crescimento considerável no número de usuários que utilizavam metaversos como forma de interação social. Plataformas como o Second Life viram um engajamento maior dos usuários veteranos e uma dinâmica de comunicação intensa, com avatares interagindo constantemente nos mundos virtuais. O metaverso se tornou uma verdadeira “palavra da moda” na cultura digital, uma alternativa ao isolamento físico. Essa aceleração do conceito de “virtual” se refletiu no fenômeno do “vir-a-ser”, no qual o metaverso, como uma potência aristotélica, deu saltos e uniu tecnologias para contornar o isolamento físico, criando um espaço para socialização e interação.

DC: Em termos percentuais, quanto teve de inspiração e de transpiração para fazer a dissertação? 

CM: Por se tratar de uma pesquisa exploratória, a inspiração foi constante ao realizar o trabalho de campo no metaverso. Na prática, administrar essa “serendipidade” é complicado. Trata-se do típico processo em que, ao se aprofundar em um determinado tópico, o pesquisador acaba encontrando algo mais relevante ou interessante, que o seduz a mudar o rumo da investigação. No metaverso, isso ocorre de forma contínua. Por isso, fiquei atento para não me perder no caminho. Agora, a transpiração. Mantenho o foco na disciplina para organizar o estado da arte, que compreende tudo o que já foi escrito sobre o Second Life. Para isso, utilizei o software Atlas.ti, que facilitou muito o processo de sistematização das informações. Com ele, organizei entrevistas, artigos, vídeos, imagens e teses, o que reduziu bastante o desgaste na hora da escrita. Durante a leitura das produções sobre o metaverso, adicionava insights no software por meio de seus memorandos. Graças a esses memos, consegui resgatar ideias importantes e minimizar os bloqueios diante da página em branco. Quando isso acontecia, recorria aos meus memos e foi um grande auxílio. Não sei dizer como o Atlas.ti se modernizou com o advento da inteligência artificial, na época, a versão que utilizei ainda não existia essa tecnologia.

DC: Teria algum desabafo ou considerações a fazer em relação à caminhada até a defesa e o sucesso da dissertação?

CM: Durante a pandemia, surgiu outra dificuldade, da qual falo agora na condição de técnico de assuntos educacionais da Universidade Federal de Pernambuco: a criação de ambientes virtuais para a continuidade das aulas. Chegou-se a cogitar o adiamento do curso até o fim do isolamento social, que apresentava horizontes desanimadores. Antes do isolamento, havíamos concluído duas disciplinas presenciais do mestrado. Para não interromper o andamento do curso, desenvolvi um ambiente de EaD utilizando o Moodle,aliado ao Jitsi como ferramenta para telepresença. Atuei simultaneamente como técnico e aluno nesse ambiente virtual. As aulas ainda estão disponíveis no site humanidadesdigitais.com.br. Esse trabalho foi fundamental para evitar o cancelamento do mestrado e, felizmente, conseguimos garantir sua continuidade. Concluímos o mestrado integralmente utilizando essa EaD baseada em software livre. No entanto, para resolver a questão do ensino remoto em um nível macro no sistema educacional, optou-se por adotar ferramentas proprietárias do Google e firmar parcerias que,na minha opinião, são desvantajosas para a autonomia de qualquer instituição pública. Lamentavelmente, a universidade desconheceu ou ignorou soluções desenvolvidas internamente, evidenciando a falta dessa percepção. Certamente, muitos servidores e estudantes estavam buscando alternativas para os desafios impostos pela pandemia. A EaD que desenvolvi continua disponível como prova de que foi possível realizar um mestrado inteiramente online com software livre.

DC: Como foi o relacionamento com a família durante o mestrado?

CM: Quem manteve maior proximidade com o estudo foi minha companheira, que, na época, também escrevia sua tese de doutorado em artes visuais. Nossas conversas sobre pesquisa, em alguns momentos, tornavam-se cansativas. Ao mesmo tempo, ler o que ela escrevia funcionava como uma válvula de escape para o estresse da minha própria pesquisa, nos ajudávamos na revisão dos capítulos. Porém, admito que essa troca era um tanto assimétrica: ela, sendo uma excelente escritora, me ajudava muito mais na minha pesquisa do que eu na dela.

DC: Agora que concluiu a dissertação, o que mais recomendaria a outros mestrandos que tomassem seu trabalho como ponto de partida?

CM: Comecem explorando novos dispositivos de experimentação com o metaverso. Os óculos VR estão cada vez mais acessíveis e com resoluções excelentes, proporcionando experiências altamente imersivas. Além disso, é fundamental continuar pesquisando o Second Life antes que ele se transforme ou desapareça. Metaversos de código aberto, como o Kitely, também são bastante interessantes e podem ser acessados por meio do Firestorm Viewer.

DC: Como você avalia a sua produção científica durante o mestrado? Já publicou artigos ou trabalhos resultantes da pesquisa? Quais você aponta como os mais importantes?

CM: Nesse tempo, publiquei os trabalhos:

DC: Desde a conclusão da dissertação, o que tem feito e o que pretende fazer em termos profissionais?

CM: O mestrado em museologia ampliou meus horizontes, permitindo-me dedicar ao acervo do meu local de trabalho. Sou coordenador do CEDOC – Centro de Documentação e Pesquisa da TV Universitária. Trabalho com audiovisual desde 1998, em produtoras de vídeo e emissoras de televisão, mas, de forma indireta, me dedicava aos acervos da televisão sem muito incentivo. Com o mestrado, adquiri a segurança e a certeza de que preciso ser o agente ativador desse processo. Assim como crio o campo de pesquisa no metaverso, também crio o campo de trabalho para a salvaguarda da memória da comunicação pública.

DC: Pretende fazer doutorado? Será na mesma área do mestrado?

CM: Sim, pretendo fazer o doutorado na mesma área.

DC: O que faria diferente se tivesse a chance de ter começado sabendo o que sabe agora?

CM: Eu acrescentaria um capítulo à dissertação sobre metaversos desenvolvidos em código aberto, como o Kitely, para compreender como os avatares migram para esses mundos, os motivos que os levam a abandonar suas coleções digitais e a viver em outros metaversos.

DC: O que o Programa de Pós Graduação fez por você e o que você fez pelo Programa nesse período de mestrado?

CM: Os professores foram muito dedicados ao primeiro mestrado de museologia entre a UFPE e a UNIRIO/MAST, buscando garantir o sucesso do projeto para permitir futuras turmas. Contribuí como servidor, montando uma EaD durante a pandemia para continuar os estudos, e me dediquei a uma pesquisa exploratória em um campo novo,saindo da minha zona de conforto e aceitando o risco de cometer erros e mudar de ideia.

DC: Você por você: 

CM: Sou graduado em Licenciatura Plena em História e bacharelado em Sistemas da Informação. Minha formação acadêmica inclui uma Especialização em Estudos Cinematográficos pela Universidade Católica de Pernambuco, mestre em Antropologia pela Universidade Federal de Pernambuco e mestre em Museologia pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Tenho experiência nas áreas de multimídia, com foco no desenvolvimento de museus digitais e produção audiovisual.

Ao longo da minha trajetória profissional, participei ativamente de projetos que envolvem a utilização das tecnologias no campo da museologia e da preservação do patrimônio cultural, explorando principalmente a vertente digital desses campos. Sou servidor público e trabalho na Televisão e Rádio Universitária da Universidade Federal de Pernambuco, onde atualmente coordeno a produção audiovisual e desenvolvimento de conteúdo para a emissora.

Minha pesquisa acadêmica tem focado principalmente na área de museus virtuais, com ênfase em temas como patrimônio digital e a repatriação de acervos. Participei de diversos congressos, seminários e exposições, coordenei e produzi vários eventos relacionados à arte e à cultura digital.

Ao longo da minha carreira, também fui reconhecido com prêmios importantes, como o Prêmio Delmiro Gouveia de Economia Criativa – Patrimônio, em 2020, e o Prêmio Ayrton de Almeida Carvalho de Preservação do Patrimônio Cultural de Pernambuco, em 2017. Além disso, sou autor e coautor de diversas publicações acadêmicas e produções audiovisuais. Minha paixão por integrar as artes e as tecnologias me motiva a continuar contribuindo para o desenvolvimento de projetos inovadores, buscando sempre novas formas de preservar e compartilhar o patrimônio cultural de maneira acessível e envolvente.


Entrevistada: Charles Douglas Martins

Entrevista concedida em: 08 de março de 2025 aos Editores.

Formato de entrevista: Escrita 

Redação da Apresentação: Alex Sandro Lourenço da Silva

Fotografia: Charles Douglas Martins

Diagramação: Alex Sandro Lourenço da Silva

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