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v. 3, n. 2, fev. 2025
Entrevista com Marilia Winkler sobre sua pesquisa que analisou como o tema “feminismo decolonial” aparece nos trabalhos da Ciência da Informação

Entrevista com Marilia Winkler sobre sua pesquisa que analisou como o tema “feminismo decolonial” aparece nos trabalhos da Ciência da Informação

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Entrevista com Marilia Winkler sobre sua pesquisa que analisou como o tema “feminismo decolonial” aparece nos trabalhos da Ciência da Informação

Marilia Winkler de Morais
winklermariliam@gmail.com

Sobre a entrevistada

Em 2022, a bibliotecária Marilia Winkler de Morais defendeu sua dissertação de mestrado pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal de São Carlos, sob orientação da Profa. Dra. Luciana de Souza Gracioso.

Natural de São Paulo, Marilia tem como hobbies jogar xadrez, ler, ir ao cinema e jogar jogos de computador, atividades que considera uma “fuga da realidade”. No âmbito profissional, atua como bibliotecária escolar em Piracicaba, SP.

Sua dissertação, intitulada “A decolonialidade e o feminismo decolonial revistos a partir das categorias PMEST de Ranganathan” analisou como o tema “feminismo decolonial” aparece nos trabalhos da Ciência da Informação. Utilizando o método de facetas de S. R. Ranganathan, a pesquisa organizou esse conceito em diferentes categorias, considerando gênero e raça no contexto latino-americano. O estudo resultou na construção de uma rede semântica conceitual, permitindo identificar e estruturar a presença do feminismo decolonial no contexto da Ciência da Informação.

Convidamos Marilia para nos contar, nesta entrevista, sobre sua experiência com o programa de mestrado e o desenvolvimento de sua pesquisa.

Divulga-CI: O que te levou a fazer o mestrado e o que te inspirou na escolha do tema da dissertação?

Marilia Winkler (MW): Quando eu concluí minha graduação, senti que ainda havia muita coisa que eu não conhecia sobre a Biblioteconomia e sobre a Ciência da Informação. Eu queria ir mais a fundo, mas minha ideia inicial de projeto não era muito clara, eu só sabia que gostaria de ter um repertório maior: quem são os grandes nomes da Biblioteconomia? O que eles defendiam? Sim, são coisas que vemos durante a graduação, mas eu sentia que não havia absorvido o conteúdo porque levava uma rotina muito cansativa: trabalhava durante o dia e fazia o curso à noite. Embora eu sempre tivesse boas notas, ainda assim não havia fixado alguns conteúdos e foi isso que me motivou a continuar os estudos ao ingressar no mestrado. Quando passei no processo seletivo, comecei a trocar ideias com minha orientadora, a professora Luciana Gracioso e foi ela quem me apresentou a possibilidade de trabalhar com o tema decolonial, que eu não conhecia, mas logo pesquisei sobre e me apaixonei. Vi que era esse o tema que faria com que eu me aprofundasse na área de forma crítica.

DC: Quem será o principal beneficiado dos resultados alçados?

MW: Acredito que a comunidade acadêmica da Biblioteconomia e Ciência da Informação são os principais beneficiados dos resultados desta pesquisa. Isso porque foi uma proposta inovadora, que visou oferecer novas possibilidades de interpretação e novos caminhos metodológicos, o que acaba auxiliando no enriquecimento teórico destas áreas.

DC: Quais as principais contribuições que destacaria em sua dissertação para a ciência e a tecnologia e para a sociedade? 

MW: A principal contribuição de minha dissertação para a ciência e tecnologia foi o fato de que, ao abordar os estudos decoloniais, tornou-se possível fortalecer seu entendimento para alcançar maior visibilidade, convertendo essa corrente de pensamento cada vez mais em conteúdos disciplinares, linhas de pesquisa e projetos de intervenção. Agora, para a sociedade, sem dúvidas a principal contribuição da dissertação foi a proposta de repensar conceitos que pensamos já entender plenamente. E isso que é o decolonial por essência: o potencial de reflexão da realidade latino-americana, seja no campo político, econômico, subjetivo, linguístico, das relações sociais, afetivas, na produção do conhecimento…

DC: Seu trabalho está inserido em que linha de pesquisa do Programa de Pós-Graduação? Por quê?

MW: Meu trabalho se insere na Linha de Pesquisa Conhecimento e Informação para Inovação, dentro da área de concentração Conhecimento, Tecnologia e Inovação. Isso porque a proposta do trabalho foi justamente a elaboração de uma rede semântica inovadora, que pudesse servir de base para estudos futuros e mais aprofundados. E por rede semântica, quero dizer uma estrutura que representa as conexões, relações entre os conceitos.

DC: Citaria algum trabalho ou ação decisiva para sua dissertação? Quem é o autor desse trabalho, ou ação, e onde ele foi desenvolvido?

MW: O que foi decisivo para minha dissertação foi a indicação do tema decolonial, proposto pela minha orientadora. Na época,  ela já estava começando a pesquisar sobre o assunto e me perguntou se eu tinha interesse em pesquisar também. A primeira sugestão que ela me deu foi assistir ao filme biográfico do autor Franz Fanon, um filósofo político de Martinica (uma ilha do Caribe sob domínio francês). Ele foi muito famoso por abordar temas de análise crítica ao processo de colonialismo, sempre em favor de uma “descolonização” dos indivíduos e das nações. Logo que assisti ao filme, comecei a ler os textos desse autor e foi nesse primeiro contato que percebi que era sobre isso que queria pesquisar. Percebi que ainda temos uma mentalidade muito colonial em nosso dia a dia, na forma como produzimos e consumimos informação e conhecimento. E precisamos debater essa questão se, de fato, queremos alguma mudança, se realmente queremos pensar no Brasil e na pesquisa brasileira como autêntica, como algo que tem seu valor para além de parâmetros que foram delimitados por sistemas estrangeiros que nem sempre fazem sentido em nossa realidade.

DC: Quais foram os passos que definiram sua metodologia de pesquisa?

MW: Primeiro, precisei estudar a fundo sobre o bibliotecário Ranganathan. Fui atrás de dados bibliográficos do autor para tentar entender como ele pensava quando ele desenvolveu a famosa Classificação Facetada. Depois de estudar sobre ele e sobre o trabalho dele, pude então começar a explorar a metodologia que ele utilizou e tentar replicar isso em meu trabalho. Além disso, também utilizei um método de pesquisa proposto por outra professora do meu departamento, a professora Luzia Sigoli Fernandes Costa. Ela sugeriu, em sua pesquisa de doutorado, uma forma de ampliar as categorias anteriormente propostas por Ranganathan, o que me permitiu aproximar a metodologia da nossa realidade.

DC: Quais foram as principais dificuldades no desenvolvimento e escrita da dissertação?

MW: O principal desafio que esteve presente durante o desenvolvimento do projeto foi o fato dele ter sido inteiramente feito no contexto da pandemia. Ou seja, não tive a oportunidade de acessar nenhum arquivo, nenhuma biblioteca, nenhuma base, conversar com nenhuma pessoa que não fosse de forma online. É um estudo muito teórico, envolve muita leitura de textos acadêmicos,  que são difíceis, mas pude contar com a ajuda de minha orientadora que sempre me indicou leituras e me forneceu um material muito rico para que eu pudesse consultar online. Pode parecer fácil, mas Ranganathan era indiano e o seu método,  por mais que tenha sido inovador, não é tão difundido no Brasil porque é muito complexo. Então, o acesso às obras traduzidas dele é limitado. Temos muitas pessoas que falam sobre ele, mas nada substitui ler a fonte de um trabalho, ler o que ele escreveu em si e não apenas o que outras pessoas entenderam da escrita dele. 

DC: Em termos percentuais, quanto teve de inspiração e de transpiração para fazer a dissertação? 

MW: É difícil pensar numa porcentagem, mas diria que a inspiração pelo assunto foi o que me fez persistir na pesquisa, mesmo com a dificuldade. Uma vez que pude finalmente acessar o conteúdo que eu precisava, foi uma questão de tempo até compreender com o que eu estava trabalhando. Sempre que eu fazia minhas interpretações, enviava para minha orientadora ver se estava tudo certo, se não estava viajando! E foi graças a essa troca que não transpirei tanto quando precisei escrever. Além disso, o fato de eu ter tido bolsa para fazer a pesquisa adiciona um pouco mais de trabalho, pois tive que sempre estar atenta aos eventos da área, participar e divulgar minha pesquisa, escrever artigos e coisas assim. Eu diria que foi 40% de inspiração e 60% de transpiração!

DC: Teria algum desabafo ou considerações a fazer em relação à caminhada até a defesa e o sucesso da dissertação?

MW: Eu cheguei a pensar que não conseguiria defender no prazo. Não apenas precisei entrar no mundo de Ranganathan, mas também de inúmeros autores e autoras decoloniais! Precisei ler MUITO, comprei livros e mais armazenamento no drive pra dar conta de tanto texto em pdf que fui acumulando! Eu fiquei com medo de não conseguir dar conta e travei. Fiquei meses sem escrever uma frase. Mas aí que a orientação faz a diferença: Luciana sempre me guiou, sempre me disse “Ok, agora mãos à obra, escreva sobre isso primeiro, depois tente falar disso” e, aos poucos, fui conseguindo sair daquela fase de estagnação.

DC: Como foi o relacionamento com a família durante este tempo?

MW: Foi conturbado. Minha família nunca foi presente e, na pandemia, menos ainda, então me senti muito sozinha e isolada o mestrado inteiro. Se não fosse pela família que eu escolhi, meus amigos, eu não acho que teria concluído essa pesquisa.

DC: Agora que concluiu a dissertação, o que mais recomendaria a outros mestrandos que tomassem seu trabalho como ponto de partida?

MW: Eu recomendo que sigam o caminho que segui: leiam meu trabalho para ter uma ideia do que se trata a decolonialidade e a Classificação Facetada. Mas busquem a fonte! Busquem os textos escritos pelo próprio Ranganathan, busquem os autores e autoras decoloniais para realmente saber o que defendem. Busquem pelos eventos em Ciência da Informação, existem bases de dados que sempre colocam as pesquisas apresentadas, é o melhor termômetro para saber o que está sendo produzido na área e entender qual caminho estamos seguindo.

DC: Como você avalia a sua produção científica durante o mestrado? Já publicou artigos ou trabalhos resultantes da pesquisa? Quais você aponta como os mais importantes?

MW: Eu reconheço que poderia ter participado de muito mais, mas quando estamos no olho no furacão, fica difícil analisar com precisão se o que está sendo feito é suficiente ou não. Mas participei de eventos importantes, fiz artigos importantes em parceria com minha orientadora, como o artigo “Enunciações do feminismo decolonial a partir das categorias fundamentais ranganathianas”, e o artigo “O Feminismo Decolonial nas Categorias de Shiyali Ramamrita Ranganathan” que virou capítulo do livro “Estudos críticos em organização do conhecimento”, organizado pelo Professor Doutor Carlos Candido de Almeida da UNESP.

DC: Desde a conclusão da dissertação, o que tem feito e o que pretende fazer em termos profissionais?

MW: Como eu fiz o mestrado logo em seguida da graduação, não tive a oportunidade de trabalhar como bibliotecária. Então, eu percebi que saí da graduação querendo conhecer mais a teoria da minha área de formação e fiz o mestrado. Aí concluí o mestrado percebendo que sabia demais da teoria, mas sem nenhuma prática profissional. Logo, vi que precisava aplicar tudo o que havia aprendido em sala agora na realidade, no dia a dia da profissão, onde tudo é posto à prova! Então saí do mestrado, mesmo ouvindo que deveria ingressar num doutorado e fui para o mundo do trabalho. Hoje atuo como bibliotecária em um colégio e tem sido incrível. Tenho desenvolvido tantos projetos, eu nunca pensei que poderia fazer o tanto de coisas que estou fazendo. Já organizei um sarau de música e poesia, organizo clubes de livro, clubes de escrita, faço contações de histórias para crianças, dedico um dia no mês para leitura de contos com adolescentes, participei de concursos nacionais de poesia pois vi que alguns alunos eram muito bons e levei esse talento pra frente… Me sinto impossível!

DC: Pretende fazer doutorado? Será na mesma área do mestrado?

MW: Sim, eu quero e farei um doutorado dando continuação à minha pesquisa de mestrado. 

DC: O que faria diferente se tivesse a chance de ter começado sabendo o que sabe agora?

MW: Eu teria tido calma. Eu tentei abraçar o mundo, mas nunca isso seria possível.  Hoje, eu teria focado no que ler e entender primeiro, ler a fundo um trabalho e depois outro. Antes, eu achava que precisava saber tudo sobre tudo e rápido! Também  tentaria conversar mais com outros pesquisadores, fazer mais parcerias, compartilhar escritas. Me senti tão isolada na pandemia que praticamente não fui atrás da ajuda de mais ninguém além de minha orientadora. 

DC: O que o Programa de Pós-Graduação fez por você e o que você fez pelo Programa nesse período de mestrado?

MW: O programa foi incrível. Me ajudou em tudo que precisei. Lembro que tentei participar de aulas online em uma Universidade no exterior e tive toda ajuda possível em relação à documentação,  prazos, tudo. Infelizmente não deu certo, mas sempre que recorri à secretaria do Programa fui bem acolhida, fora a orientação maravilhosa de Luciana, sempre à disposição para me ajudar, conversar, desabafar. Pelo Programa, eu pude fazer a minha pesquisa recebendo um financiamento tão importante como o da FAPESP, que é umas das instituições mais conceituadas de apoio à pesquisa no Brasil. Também ajudei a divulgar meu grupo de pesquisa Pragma através dos eventos que fiz parte.

DC: Você por você:

MW: Eu não sei me descrever muito bem, mas sei que não sou como a maioria das pessoas do universo acadêmico, não tenho apoio de parentes, não tenho muitos amigos, não sou financeiramente estável… Sofro de depressão há anos. Sempre senti que não pertencia a lugar algum. Mas eu sempre tive uma inquietação em mim, sempre quis transformar toda dor e frustração em algo que eu mesma pudesse me orgulhar e encontrei, nas artes, a forma mais bela de fazer isso. Eu escrevo poemas que talvez nunca leiam, mas que são desabafos da minha alma e me ajudam a seguir em frente. Priorizo o contato com a natureza para além das tecnologias, pois nada substitui o orgânico de nossas vidas. Quando escrevi minha dissertação, foi através dessa lente que tentei enxergar o mundo. Sou apenas uma gota em um oceano, uma tímida luz em um cosmos muito maior, mas do qual sempre fiz parte, do meu próprio jeito.


Entrevistada: Marilia Winkler de Morais

Entrevista concedida em: 16 de dezembro de 2024 aos Editores.

Formato de entrevista: Escrita 

Redação da Apresentação: Herta Maria de Açucena do Nascimento Soeiro

Fotografia: Marilia Winkler de Morais

Diagramação: Herta Maria de Açucena do Nascimento Soeiro

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