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v. 3, n. 12, dez. 2025
Catalogador crítico: o que pode significar isso?, por Filipe Reis

Catalogador crítico: o que pode significar isso?, por Filipe Reis

Catalogador crítico: o que pode significar isso?

Filipe Reis

filipereis@ufg.br

A catalogação é fruto de uma constituição cultural. Trata-se de uma criação humana em constante transição, permeada por disputas simbólicas que refletem interesses e objetivos diversos acerca do entendimento do usuário. Esses elementos precisam ser continuamente reavaliados, pois quem controla os modos e sentidos da catalogação também define valores.

Compreendida como processo de interação entre documentos e usuários, a catalogação é, ao mesmo tempo, uma subárea da Biblioteconomia, que produz teorias, princípios, modelos conceituais, metodologias e instrumentos, e um conjunto de ações voltadas à representação descritiva e temática de documentos (Reis; Ortega, 2024). Essa base forma o catalogador, e pode formá-lo de modo crítico.

Mas o que significa ser crítico? E, mais especificamente, o que pode significar um catalogador crítico? O termo crítica, moeda corrente na academia e até no senso comum, muitas vezes é reduzido a sentidos superficiais. Ser crítico, porém, não é apenas contrariar ideias ou rejeitar algo, mas exercer a capacidade de análise, avaliação e autorreflexão.

A palavra crítica tem origem no grego e foi apropriada por diversos pensadores. Em geral, designa o ato de julgar, interpretar e compreender informações, argumentos e textos de modo situado. Alguns autores aprofundaram essa noção ao pensarem a crítica como uma atitude diante do mundo.

Para a Escola de Frankfurt, especialmente Horkheimer, ser crítico é interrogar os fundamentos do conhecimento e suas implicações políticas. Não se trata de prescrever condutas, mas de um exercício reflexivo que se reconstrói ao questionar as formas de racionalidade e dominação. O pensamento crítico, assim, visa à emancipação e à transformação social.

Michel Foucault também concebe a crítica como atitude. Em sua conferência “Qu’est-ce que la critique?” [O que é crítica?], ele a define como a arte de não ser governado, uma insubmissão voluntária e uma indocilidade refletida. Para o autor, ser crítico é uma virtude que interroga as relações entre poder, verdade e sujeito, invertendo hierarquias e abrindo espaço para novas possibilidades de saber.

Na perspectiva de bell hooks, o pensamento crítico nasce da curiosidade incessante, semelhante à das crianças. Pensar é um ato, e o ato de pensar exige envolvimento, discernimento e desejo por saber. hooks propõe um pensamento crítico que atravessa fronteiras de raça, classe e gênero, aberto à pluralidade de experiências e vozes.

No campo da catalogação, Hope Olson amplia essa discussão ao afirmar que o pensamento crítico ultrapassa a simples articulação entre teoria e prática. Ele representa uma liberdade frente aos preconceitos e um convite à compreensão de múltiplas perspectivas. Desenvolver um conhecimento crítico implica reconhecer as limitações dos padrões, aceitar que pode haver mais de uma resposta, ou nenhuma, e questionar pressupostos fundamentais. Assim, o catalogador crítico não apenas aplica regras, mas reflete sobre elas, exercendo um julgamento profissional informado, ético e consciente das consequências de suas decisões.

A partir dessas e de outras leituras, podemos sugerir alguns elementos para compreender os possíveis sentidos do catalogador crítico:

O catalogador crítico é um curioso cético. O curioso cético deseja conhecer melhor as coisas, mas com prudência. Possui a curiosidade criadora e o ceticismo ponderado de um adulto atento. Busca conhecer por meio do julgamento, evitando aceitar ou acreditar em algo por razões inadequadas. O catalogador crítico não encara teorias, métodos e instrumentos como dogmas. É curioso o suficiente para explorar a engenharia intelectual da catalogação, mas também cético quanto aos discursos que pretendem universalizar suas possibilidades.

O catalogador crítico é um questionador das autoridades e das verdades tidas como universais sobre seu ofício. Seriam os instrumentos catalográficos realmente universais? A padronização dita como internacional ou nacional é sempre benéfica para uma comunidade específica? O catalogador crítico reconhece a importância da padronização, mas compreende que o excesso dela pode gerar ao menos três riscos: contrariar a conveniência do usuário, impondo regras que ignoram hábitos e contextos locais; obscurecer os princípios da catalogação, promovendo o legalismo e afastando-se de seus objetivos; dificultar a inovação, tornando códigos e formatos rígidos e resistentes a mudanças. Portanto, o catalogador crítico valoriza a padronização, mas preza pela flexibilidade e pela diversidade contextual (Svenonius, 2000).

O catalogador crítico é criativo. Embora os catalogadores sejam frequentemente lembrados por sua maestria na padronização, é preciso reconhecer os resultados criativos que moldaram a catalogação em diferentes contextos. Mais do que reconhecer, é necessário incentivar e formar futuros catalogadores capazes de desenvolver soluções criativas no campo catalográfico. O catalogador crítico entende que ser “crítico” não significa apenas desafiar ideias, mas também elaborar alternativas. Ele reinterpreta normas, sistemas e tecnologias para criar soluções locais e contextualizadas.

O catalogador crítico é político. Compreende que os processos políticos nos tornaram mais atentos à equidade e à justiça social, contribuindo para sociedades mais democráticas. As questões políticas orientam os rumos sociais, e os catalogadores não estão alheios a esse movimento, ao contrário da pretensa neutralidade da catalogação. A catalogação neutra é um mito. A questão não é se há política na catalogação, mas sim qual política e com quais efeitos. O catalogador crítico deve estar atento às possibilidades de outros modos de sociedade, superando os aparatos simbólicos e estruturais instituídos pela lógica dos preconceitos e das injustiças.

O catalogador crítico é responsável. Reconhece que suas ações afetam os outros. Um catalogador crítico não se esconde atrás de instrumentos dizendo: “Não sou preconceituoso, apenas segui o código ou o sistema de classificação.” Ele busca evitar esse tipo de problema e, se ocorrer, assume responsabilidade. Isso é ser ético: refletir e se posicionar corajosamente diante das consequências de suas ações, tanto para si quanto para os outros. Como diria Kant, é “sair da menoridade e entrar na maioridade”.

Na contemporaneidade, a catalogação demanda um profissional crítico, capaz de reconhecer a diversidade de saberes e práticas informacionais, incorporar as transformações tecnológicas e adotar uma postura ética frente à representação equitativa dos documentos. O catalogador crítico deve também julgar e propor soluções criativas e contextualizadas, articulando teoria, prática e responsabilidade social diante dos desafios do campo.

Referências

FOUCAULT, Michel. O que é a crítica? [Critique et Aufklärung]. Tradução de Gabriela Lafetá Borges, revisão de Wanderson Flor do Nascimento. Conferência apresentada em 27 de maio de 1978, na Sociedade Francesa de Filosofia. Bulletin de la Société française de philosophie, v. 82, n. 2, p. 35-63, abr./jun. 1990.

HOOKS, Bell. Ensinando o pensamento crítico: sabedoria prática. São Paulo: Elefante, 2020.

HORKHEIMER, Max. Teoria tradicional e teoria crítica. In: HORKHEIMER, Max. Teoria crítica: uma documentação. São Paulo: Perspectiva, 1980.

OLSON, Hope A. Thinking Professionals: Teaching Critical Cataloguing. Technical Services Quarterly, v. 15, n. 1-2, p. 51-66, 1997.

REIS, Filipe; ORTEGA, Cristina Dotta. O que é catalogação?. Ciência da Informação em Revista, Maceió, v. 11, p. e16293, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.28998/cirev.2024v11e16293 . Acesso em 02 dez. 2025.

SVENONIUS, Elaine. The intellectual foundation of information organization. Cambridge: Massachusetts Institute of Technology, 2000.

Sobre o autor

Filipe Reis

Doutor em Ciência da Informação pela Universidade Federal de Minas Gerais. Mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Goiás. Bacharel em Biblioteconomia pela Universidade Federal de Goiás.

Professor da Faculdade de Informação e Comunicação da Universidade Federal de Goiás. É Professor dos cursos de Biblioteconomia, do Curso de Especialização em Letramento Informacional e do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal de Goiás.


Redação: Filipe Reis
Fotografia: Filipi Reis
Diagramação: Marcos Leandro Freitas Hübner

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