
Tradição Oral na Era dos Algoritmos: das margens aos feeds, por Edgardo Civallero

Tradição Oral na Era dos Algoritmos: das margens aos feeds
Edgardo Civallero
edgardocivallero@gmail.com
O conhecimento como texto e seus pontos cegos
No imaginário profissional e público, “conhecimento” é frequentemente concebido como texto: impresso, encadernado, armazenado, citado. Sua legitimidade se mede por meio de ISBNs, número de páginas e índices de citações. Isso não é acidental; trata-se do legado do que denomino “literocentrismo”: um hábito cultural, forjado ao longo de séculos, que privilegia o escrito em detrimento de todas as demais formas de expressão.
Nos quadros conceituais literocêntricos, o patrimônio oral — a memória viva, falada, cantada ou performada das comunidades — costuma ser tratado como suplementar, anedótico ou não confiável. O viés é estrutural. Administrações coloniais utilizaram a ausência de escrita como prova da ausência de “civilização”. Bibliotecas, arquivos e museus herdaram esse preconceito, incorporando-o a seus critérios de seleção, vocabulários descritivos e prioridades de preservação.
As consequências são concretas. Sistemas inteiros de conhecimento — ecológicos, jurídicos, históricos, espirituais — foram excluídos do registro oficial simplesmente por serem transmitidos oralmente. O resultado não é apenas uma memória coletiva empobrecida, mas também distorcida, inclinada a favor daqueles que detinham os meios e a autoridade para escrever.
Embora este artigo se concentre na palavra falada, a expressão oral não é a única forma de transmissão de conhecimento que foi “outrificada” ou relegada às margens por paradigmas literocêntricos e textuais. Sistemas pictóricos, artefatos tridimensionais, práticas corporais e até inscrições territoriais há muito carregam conhecimentos complexos e autorizados. Contudo, tais meios têm sido frequentemente descartados como decorativos, simbólicos ou secundários quando comparados aos registros escritos. Os mecanismos de exclusão são semelhantes: o que não se enquadra no meio dominante torna-se invisível, é descontextualizado e tem sua legitimidade epistêmica negada.
Um ponto de entrada prático: o Manual
Nesse contexto, surge o “Manual de gestión de oralidad para bibliotecas”, que recentemente escrevi (Bogotá: Secretaría Distrital de Cultura, Recreación y Deporte, 2024). Não se trata de um tratado político, mas de um recurso prático: uma introdução a conceitos, técnicas e ferramentas para o trabalho com materiais orais em contextos bibliotecários.
O manual baseia-se na minha própria experiência de coleta de tradição oral em comunidades indígenas no nordeste da Argentina, entre 1998 e 2005. Comecei praticamente sem conhecimento das metodologias ou das questões éticas envolvidas e, aos poucos, fui construindo um conjunto de anotações e diretrizes de minha autoria. Essas primeiras notas de campo evoluíram para o que viria a ser o primeiro blog em espanhol dedicado à tradição oral, que, por sua vez, deu origem a uma série de artigos e, finalmente, amadureceu até se transformar no presente livro.

O manual abrange três domínios principais: uma seção teórica que define a tradição oral, descreve suas características distintivas e examina sua relação com a escrita e o poder; uma seção prática que trata do planejamento e da realização de entrevistas, da construção de confiança com as comunidades e dos desafios inerentes ao trabalho com a imprevisibilidade da fala ao vivo; e uma seção dedicada à gestão, abordando a transcrição, a tradução, a descrição, o uso de metadados e a preservação a longo prazo de arquivos orais.
Embora o manual se concentre na metodologia, a sua própria existência convida a uma reflexão mais ampla. E essa reflexão, para mim, é inevitavelmente política.
A tradição oral como desafio ao literocentrismo
Reconhecer a tradição oral como conhecimento plenamente legítimo implica questionar as hierarquias que moldaram as nossas instituições culturais.
A tradição oral não é uma relíquia nostálgica de um mundo pré-moderno. Trata-se de uma prática dinâmica, adaptável e frequentemente subversiva. Um pescador que nomeia as variações sazonais de um rio que nenhum mapa hidrográfico registra; um migrante que narra travessias de fronteira ausentes das estatísticas oficiais; um artesão que ensina uma técnica corporal por meio de gestos e narrativas; todos são exemplos de produção e transmissão de conhecimento oral.
Essas formas sobrevivem precisamente porque vivem nas pessoas, e não em documentos. Podem responder a mudanças, adaptar-se a novos contextos e transportar significados demasiado complexos ou situados para serem reduzidos ao texto.
A virada digital: dos círculos ao redor do fogo aos feeds algorítmicos
Ironicamente, enquanto muitas bibliotecas ainda enfrentam dificuldades para acomodar o patrimônio oral, a esfera digital está repleta dele. Plataformas de mídia social — TikTok, YouTube, Instagram, Twitch, mensagens de voz no WhatsApp — transformaram-se em vastos arquivos orais, não curados, em tempo real.
Podcasts veiculam testemunhos, debates, poesia e instrução para milhões de pessoas. Narrativas breves no TikTok condensam histórias pessoais em vídeos de um minuto. Canais do YouTube documentam técnicas artesanais, lutas políticas e o cotidiano com a mesma imediaticidade de uma conversa ao redor da mesa da cozinha. Não se trata de equivalentes perfeitos das formas orais tradicionais: são moldados pela lógica das plataformas, pela monetização e pela economia da atenção. Ainda assim, demonstram que o impulso de falar, escutar e lembrar permanece tão forte quanto sempre foi, e está encontrando novos palcos, agora globais.
Não se trata de um renascimento romântico, mas de uma transformação. A tradição oral está agora entrelaçada a etiquetas de metadados, políticas de moderação de conteúdo e critérios de visibilidade algorítmica. Os desafios são novos — incluindo questões de propriedade, consentimento e risco de descontextualização —, mas a dinâmica central é familiar: o conhecimento vivendo nas vozes, moldado no diálogo e adaptado a ambientes em constante mudança.
Implicações para as instituições de memória
Para bibliotecas, arquivos e museus, este contexto representa simultaneamente uma oportunidade e uma provocação. A oportunidade reside em conectar métodos tradicionais de trabalho com o patrimônio oral às novas realidades da expressão digital. A provocação consiste em enfrentar os pressupostos literocêntricos que, há muito tempo, marginalizam o oral.
Isso pode implicar a reforma dos metadados, de modo que os padrões descritivos sejam capazes de captar a performance, o contexto e o significado relacional sem reduzi-los ao texto; o desenvolvimento de modelos de acesso que respeitem o controle comunitário, a sensibilidade cultural e as formas de engajamento não escritas; a adaptação dos fluxos de trabalho institucionais para integrar a coleta, o processamento e a preservação de materiais orais à prática rotineira, em vez de tratá-los como projetos excepcionais; e a substituição de formas extrativas de “documentação” por abordagens colaborativas, nas quais as comunidades co-desenhem e co-gerenciem o trabalho, decidindo o que será registrado e como será utilizado.
Essas mudanças não são apenas técnicas. Constituem deslocamentos epistêmicos, que exigem das instituições uma revisão de seu papel: de guardiãs de objetos para facilitadoras de uma memória viva e polifônica.
De manual a movimento
O “Manual de gestión de oralidad para bibliotecas” oferece um conjunto acessível de ferramentas para iniciar essa jornada. Trata do como: como planejar uma entrevista, como transcrever a fala, como gerir gravações de forma responsável.
O porquê — por que é importante reequilibrar nossos sistemas de memória de modo que o falado e o escrito coexistam em condições de igualdade— vai além do manual. Trata-se de uma escolha sobre o tipo de registro cultural que queremos construir para o futuro.
Em uma era em que as vozes estão por toda parte, dos mercados rurais aos feeds algorítmicos, recusar-se a envolver-se com a tradição oral deixou de ser sinal de prudência profissional. É, na verdade, uma decisão de permitir que mundos inteiros de conhecimento permaneçam invisíveis.
Sobre o autor
Especialista em Epistemologías del Sur e mestrado em Archivística Histórica y Memoria. Licenciado em Bibliotecología y Documentación pela Universidad Nacional de Córdoba (Argentina). Também realizou estudos em Ciências do Mar na Universidad de Las Palmas de Gran Canaria (Espanha), bem como em Biologia e História (Antropologia e Arqueologia) na Universidad Nacional de Córdoba.
Atua desde 2024 como Diretor da Biblioteca do Smithsonian Tropical Research Institute (Panamá) e consultor em projetos de gestão do conhecimento, memória e produção de conteúdos na cidade de Bogotá (Colômbia). Foi responsável, entre 2018 e 2023, por projetos de história e memória da ciência, open science, e-research, conservação da biodiversidade, ciência cidadã e preservação patrimonial nas ilhas Galápagos.
Integra, desde 2004, grupos e seções da IFLA, o Consórcio da CDU, comitês editoriais e espaços digitais de debate e pesquisa. É docente, conferencista, editor independente (Wayrachaki Editora e El Zorro de Abajo Editora) e autor de publicações de divulgação científica em memória, patrimônio, identidade e ciências naturais.
Redação: Edgardo Civallero
Fotografia: Edgardo Civallero
Diagramação: Marcos Leandro Freitas Hübner









