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v. 4, n. 07, jul. 2026
Editorial: Censura, Guerra e Literatura: Tamizdat Project na defesa de textos proibidos e da liberdade intelectual, por Yasha Klots

Editorial: Censura, Guerra e Literatura: Tamizdat Project na defesa de textos proibidos e da liberdade intelectual, por Yasha Klots

Editorial: Censura, Guerra e Literatura: Tamizdat Project na defesa de textos proibidos e da liberdade intelectual

Yasha Klots
yakov.klots@hunter.cuny.edu

Na pós-graduação em Yale, meu orientador era Tomas Venclova, poeta lituano e ex-dissidente soviético, que emigrou para os Estados Unidos em 1977. Ele foi um dos amigos mais próximos de Joseph Brodsky, assim como de Czeslaw Milosz, e por isso o tema da minha tese foi a literatura russa e do Leste Europeu em exílio, especialmente a poesia. Eu me interessava pela forma como a língua não nativa e as novas paisagens urbanas são retratadas nas narrativas exterritoriais de autores emigrados.

Desde aproximadamente 2015, meu tema tem sido a migração de textos através de fronteiras (geográficas, políticas, culturais, linguísticas). Não tanto a migração de autores, mas especificamente de textos – que é o que o tamizdat [1] realmente representa. Eu estava escrevendo meu livro, que finalmente foi publicado em 2023. Mas, como sempre fui atraído por arquivos, foi ficando evidente que muitas das minhas descobertas de arquivo simplesmente se perderiam se o livro permanecesse o único meio de contar ao público a intrincada história da literatura russa de contrabando na era da Guerra Fria. Foi assim que o Tamizdat Project foi inicialmente concebido como uma iniciativa de divulgação acadêmica pública e um arquivo on-line de documentos sobre as primeiras publicações, circulação e recepção de manuscritos de contrabando provenientes da antiga URSS e do Bloco Oriental.

Capa do livro “Tamizdat” de Yasha Klots / 
Imagem: Northern Illinois University Press 

Com a ajuda de numerosos voluntários e editores, começamos a publicar em nosso site fontes de arquivo até então desconhecidas, vinculando-as a esta ou aquela publicação tamizdat (Contos de Kolymá, de Shálamov, “Réquiem”, de Akhmátova, Sófia Petrovna, de Chukóvskaia, e assim por diante). Em 2018, o site inicial – bem diferente do que temos agora – foi lançado em nossa primeira conferência internacional no Hunter College CUNY, Tamizdat: Publishing Russian Literature in the Cold War (“Tamizdat: Publicando Literatura Russa na Guerra Fria”).

Parte da página inicial do site “Tamizdat Project”

Logo, o interesse inicial de pesquisa deu origem a uma organização que, ao longo dos anos, construiu uma ampla rede de parceiros e colaboradores.

Em 2022, após a invasão russa em grande escala da Ucrânia, o Tamizdat Project tornou-se uma organização sem fins lucrativos para fazer mais do que apenas pesquisa, ou seja – apoiar estudantes e pesquisadores deslocados pela guerra ou por repressões em seus países de origem. Como organização, a primeira coisa que fizemos foi um leilão beneficente de livros e uma campanha de arrecadação de fundos, “Manuscripts Don’t Burn 2023” (“Manuscritos Não Queimam 2023”), que durou dois meses e foi uma das coisas mais difíceis que já fiz na vida. Nessa época, já tínhamos centenas de livros na Biblioteca do Projeto Tamizdat, com muitas duplicatas (por exemplo, da primeira edição de “Réquiem”, de Akhmátova, publicada em Munique em 1963). E pensamos que, se pudéssemos vendê-los para pagar alguns meses de moradia para um estudante da Ucrânia cuja universidade estava sendo bombardeada pela Rússia de Putin, tanto melhor! Nossa ideia gerou uma repercussão pública incrível: sentimos que estávamos mobilizando a diáspora para ajudar uma nova geração de imigrantes e refugiados, ainda que desejássemos que um esforço assim jamais fosse necessário. Conseguimos arrecadar quase US$ 50 mil e concedemos 20 bolsas a esses estudantes em 2023. (Em 2025, repetimos a campanha.) Mas mesmo antes disso, o projeto já atraía dezenas de voluntários de Nova York e do mundo todo, foi apresentado em inúmeras conferências e eventos públicos, e continuamos a aceitar doações de livros e a catalogar os livros de nossa biblioteca. Por fim, em 2024, publicamos nosso primeiro livro próprio – uma edição bilíngue de “Pkhentz”, de Abram Tertz (também conhecido como Andrei Siniávski), com uma nova tradução para o inglês feita por Ainsley Morse.

Campanhas filantrópicas promovidas pelo “Tamizdat Project”

Hoje contamos com uma equipe dedicada de pessoas que trabalham em diferentes partes do projeto: uma especialista em dados que supervisiona os arquivos on-line, designers que fazem nossos livros e produtos, uma pessoa responsável pelas redes sociais que garante o crescimento do nosso público e a divulgação de nossos eventos e demais programas no Facebook e no Instagram, tradutores, editores, revisores, entre outros. Este ano, abrimos o Tamizdat Project Book Corner, no Upper West Side de Manhattan – uma pequena livraria física, onde os nova-iorquinos podem comprar tanto tamizdat antigos quanto novos, incluindo títulos traduzidos para o inglês. Também temos uma loja on-line.

Perfil no Instagram do “Tamizdat Project”

Os desafios certamente têm sido numerosos, inclusive os financeiros. Mas sentimos que nosso projeto é valorizado, que continua a atrair estudantes e jovens pesquisadores, que conseguimos publicar livros bonitos e que, de modo geral, livros proibidos importam. É isso que nos mantém em movimento.

Hoje, a estrutura do projeto se traduz em um conjunto de materiais, recursos e serviços oferecidos ao público, com planos de expansão. 

Página do Tamizdat Project, com registros de publicações contemporâneas ligadas à censura, ao exílio e à circulação internacional de textos / Imagem:  “Tamizdat Project”

Primeiro, temos nossos arquivos on-line, que dividimos em duas partes: tamizdat da era soviética e livros proibidos de 2014 até o presente (a segunda parte foi adicionada muito recentemente para documentar a atividade em rápido crescimento de editoras, autores e leitores russos e bielorrussos no exterior, já que a censura nesses dois países voltou e continua se intensificando). Depois, temos nossa biblioteca, que esperamos abrir ao público algum dia. Em Nova York e em outros lugares, organizamos eventos públicos ao longo do ano e, ocasionalmente, conferências acadêmicas, workshops e escolas de verão. Trabalhamos com estagiários e voluntários. Por fim, uma das partes mais empolgantes do que fazemos hoje é a publicação de livros. Como uma pequena editora, somos especializados em textos que foram proibidos ou censurados em seus países de origem, textos que tratam de exílio, diásporas e deslocamento cultural, e vozes do passado que ressoam no presente. Temos pelo menos 10 novos livros planejados para o futuro próximo, a maioria deles bilíngues ou traduzidos para o inglês.

Obras recém publicadas pela Tamizdat Project / 
Imagem: Tamizdat Project

Diante de tudo isso, fica um convite à reflexão sobre o papel de pesquisadores, educadores e bibliotecários no enfrentamento da censura.

Para mim, pessoalmente, tudo mudou em 2022, quando aquilo que até ontem parecia ser apenas história, de repente voltou a se tornar realidade. Isso inclui o tamizdat, o exílio, a emigração e a guerra. 

Continuemos registrando esses processos históricos, sem fechar os olhos, por meio da leitura, do estudo, do ensino e da preservação de livros ameaçados. Fazer isso, é claro, é um privilégio – nem todos podem arcar com ele, seja por razões financeiras, seja por razões (geo)políticas. Mas eu acho que as instituições acadêmicas, incluindo universidades e bibliotecas, deveriam honrar esse privilégio que lhes foi concedido – pelo menos enquanto for possível.

Nota dos editores

[1] No contexto da literatura, tamizdat significa, literalmente, algo como “publicado lá” ou “publicado no exterior”. O termo vem do russo tam — “lá” — e izdat, abreviação ligada a “editora” ou “publicação”.

Na prática, tamizdat designa textos que não podiam circular livremente na União Soviética ou em países do Bloco Oriental por causa da censura, mas que eram contrabandeados para fora do país, publicados no exterior e, muitas vezes, reintroduzidos clandestinamente em seus países de origem.

Assim, em literatura, tamizdat não é apenas uma forma de publicação alternativa. É também uma prática de resistência à censura, de circulação internacional de manuscritos proibidos e de preservação de obras ameaçadas por regimes autoritários.

Sobre o autor:

Yasha Klots

Professor de Literatura Russa e Comparada no Hunter College e no CUNY Graduate Center. Fundador e presidente do Tamizdat Project. 

Doutor em Literatura Russa pela Yale University.


Redação: Yasha Klots
Tradução: Lucas George Wendt
Fotografia: Yasha Klots e Tamizdat Project
Diagramação: Naiara Raíssa da SIlva Passos

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