
A disciplina de “Biblioteca Escolar” nos currículos dos cursos de Biblioteconomia, por Orestes Trevisol

A disciplina de “Biblioteca Escolar” nos currículos dos cursos de Biblioteconomia
Orestes Trevisol Neto
orestes.trevisol@udesc.br
Nas últimas décadas, o reconhecimento da Biblioteca Escolar tem se refletido em avanços legais e institucionais no Brasil, a partir da promulgação da Lei nº 12.244/2010, que dispõe sobre a universalização das bibliotecas escolares, e, mais recentemente, da Lei nº 14.837/2024, que institui o Sistema Nacional de Bibliotecas Escolares (SNBE). Apesar desses marcos normativos e das mobilizações promovidas por entidades da área, como o Conselho Federal de Biblioteconomia (CFB), conselhos regionais e associações profissionais, persistem fragilidades estruturais e formativas que comprometem a consolidação da Biblioteca Escolar como espaço educativo integrado à escola.
Ademais, com a criação do Sistema Nacional de Bibliotecas Escolares (SNBE), busca-se chamar a atenção dos coordenadores de curso e dos responsáveis pela concepção e atualização curricular para a necessidade de revisão das matrizes dos cursos de Biblioteconomia. A Biblioteconomia e a Educação precisam estreitar práticas e teorias, uma vez que os bibliotecários escolares devem estar instrumentalizados das diretrizes e políticas educacionais. A prática profissional deve estar alinhada ao projeto político-pedagógico da escola, o que exige noções de práticas educativas, psicologia da educação, didática e outros fundamentos pedagógicos, possibilitando diálogo com outros atores da educação.
Foi nesse contexto que se desenvolveu a pesquisa “A disciplina de Biblioteca Escolar nos currículos de Biblioteconomia das universidades federais e estaduais no Brasil”, cujo objetivo central foi investigar se os cursos de graduação em Biblioteconomia contemplam, em suas matrizes curriculares, disciplinas específicas e obrigatórias voltadas à Biblioteca Escolar. A motivação do estudo reside na constatação de um descompasso entre as exigências legais e institucionais para a atuação do bibliotecário escolar e a formação oferecida nos cursos de graduação, historicamente marcada por um perfil generalista e por um distanciamento em relação ao campo da Educação.Foram analisados os currículos de 33 cursos de Biblioteconomia na modalidade presencial, ofertados por 29 universidades públicas no país, a fim de identificar a existência de disciplinas com a nomenclatura “biblioteca escolar” O cenário é preocupante, pois apenas dois cursos apresentam disciplinas específicas e obrigatórias sobre Biblioteca Escolar (FURG e UESPI), enquanto dois cursos oferecem disciplinas obrigatórias de caráter misto, nas quais a temática da Biblioteca Escolar divide espaço com bibliotecas públicas ou centros culturais (UEL e UFMA). Outros 14 cursos contemplam a Biblioteca Escolar apenas como disciplina optativa, seja de forma específica ou integrada a outras tipologias de bibliotecas. Esses dados indicam que, na maioria das instituições, a Biblioteca Escolar ocupa um lugar periférico nos currículos de Biblioteconomia.

A análise temática das ementas das disciplinas identificadas revelou quatro eixos
principais: a biblioteca escolar enquanto organização; a biblioteca como aparelho educacional; o papel do bibliotecário escolar; e as políticas públicas. Embora esses elementos sejam relevantes, observou-se predominância de abordagens voltadas à organização, gestão e funcionamento técnico da biblioteca, com menor ênfase na articulação com o projeto político-pedagógico da escola, nos processos de ensino-aprendizagem e no diálogo com teorias e práticas educacionais. Chama atenção o fato de que o projeto político-pedagógico da escola é mencionado explicitamente em apenas uma ementa analisada.
Esses achados reforçam diagnósticos já apontados por estudos anteriores e indicam que a formação inicial do bibliotecário escolar ainda não responde de maneira adequada às demandas contemporâneas. A ausência ou fragilidade de disciplinas específicas compromete a construção de uma identidade profissional alinhada ao papel educativo do bibliotecário, limitando sua atuação à gestão técnica e afastando-o do trabalho colaborativo com professores e demais agentes escolares.
Diante desse cenário, a pesquisa aponta para a urgência de revisão das matrizes curriculares dos cursos de Biblioteconomia, à luz das legislações vigentes, das diretrizes educacionais e das transformações sociais e culturais em curso. Como perspectivas de pesquisas futuras, destacam-se: o aprofundamento da análise dos planos de ensino e a investigação das percepções de docentes e discentes sobre a formação em Biblioteca Escolar. Espera-se que esses esforços contribuam para o fortalecimento da formação do bibliotecário escolar e para a efetiva consolidação da Biblioteca Escolar como espaço educativo.
Acesse o artigo em:
TREVISOL NETO, Orestes; BLATT OHIRA, Maria Lourdes; CAMARA PIZZARO, Daniella. A disciplina de “Biblioteca Escolar” nos currículos de Biblioteconomia das universidades federais e estaduais no Brasil. Revista Brasileira de Biblioteconomia e Documentação, São Paulo, v. 21, p. 1–23, 2025. Disponível em: https://rbbd.febab.org.br/rbbd/article/view/2112 . Acesso em: 4 jan. 2026.
Mestre em Ciência da Informação e bacharel em Biblioteconomia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Realiza o doutorado em Ciência da Informação junto à Universidade Federal de Santa Catarina.
Bibliotecário na Universidade do Estado de Santa Catarina. Atuou como professor no curso de Biblioteconomia EaD da Unochapecó; professor e tutor no curso de Biblioteconomia EaD da Universidade do Estado de Santa Catarina; e tutor na especialização EaD em Gestão de Bibliotecas Escolares da Universidade Federal de Santa Catarina.
Redação: Orestres Trevisol Neto
Fotografia: Orestres Trevisol Neto
Diagramação: Ana Júlia Pereira de Souza









