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v. 4, n. 02, fev. 2026
Entre afetos e conceitos: uma história em formação, por Bernardina Freire

Entre afetos e conceitos: uma história em formação, por Bernardina Freire

Entre afetos e conceitos: uma história em formação

Bernardina Maria Juvenal Freire de Oliveira
bernardinafreire@gmail.com

Um acontecimento vivido é finito, ou pelo menos, encerrado na esfera do vivido, ao passo que o acontecimento lembrado é sem limites, porque é apenas uma chave para tudo o que veio antes e depois. (Walter Benjamim, em A imagem de Proust, 1994, p. 37).

As palavras do pensador Walter Benjamin, aqui tomadas como epígrafe, convidam a uma reflexão que se entrelaça à memória de minha própria trajetória pessoal e profissional. Como nos ensina Michel de Certeau (1994), o fluxo da vida é movimento contínuo; e em cada movimento residem as particularidades, os pequenos detalhes que, pouco a pouco, nos ampliam. É nesses fragmentos quase imperceptíveis que alguém se torna imenso, pois é impressionante como se cresce a partir deles.

Dar voz ao passado para fazê-lo dialogar com o presente é como abrir um antigo baú de lembranças e, ao mesmo tempo, reorganizar seus conteúdos. Trata-se de colocar em ordem aquilo que veio antes e aquilo que veio depois, num esforço permanente de compreender a mim mesma. Talvez, ao fazer emergir o que parecia adormecido, seja possível resgatar uma dívida de gratidão e arrancar da sombra as lições que a vida, em seu silêncio, me ofereceu. É nesse gesto que evoco as primeiras marcas e os afetos fundadores da minha própria história.

Era tempo de ditadura militar, período marcado pela supressão de direitos constitucionais, pela censura, pelas perseguições políticas e pela repressão que se infiltrava no cotidiano. Na manhã ainda nascente do sete de novembro, em uma casa modesta, na cidade de Aroeiras, interior da Paraíba, chegou o terceiro filho do casal, e, entre irmãos, a segunda menina a escrever seu lugar na história da família. A menina chegou amparada pelas mãos experientes de uma parteira, envolta na única peça nova do enxoval, herdado dos irmãos mais velhos, como sinal singelo de cuidado e esperança. Recebeu como herança o nome de suas avós paterna e materna.

Seus pais tinham apenas a formação escolar básica. A mãe, ainda assim, avançara um pouco mais nos estudos ao concluir o antigo Exame de Admissão. Embora limitados pela escolaridade, ambos cultivavam profundo apreço pela educação e faziam questão de matricular os filhos na escola, certos de que o saber poderia abrir caminhos onde a história insistia em fechar portas. Aos quatro anos de idade, a ausência paterna chegou de forma abrupta, marcando sua infância. 

Contudo, a escola continuou a ser o caminho percorrido até o encontro com a Universidade que se deu em 1984, cuja escolha em primeiro e segunda opção fora para Biblioteconomia, formação forjada na escola pública. 

Outra força decisiva em sua formação nasceu do convívio com grupos populares, em tempos de intensa mobilização, impulsionados pelo movimento de renovação da Igreja Católica. Somaram-se a isso as experiências no teatro, quando escreveu uma peça em defesa da natureza e da Amazônia, no auge da luta de Chico Mendes. Diante de um auditório lotado, a jovem “inexperiente” ministrou a palestra; os aplausos finais soaram como um rito de passagem, afirmando o poder de ser e de fazer.

Entusiasmada, decidiu aprofundar-se na literatura infantojuvenil. Tornou-se frequentadora assídua de bibliotecas, como o rato que desejava ser sábio, e escolheu aprender com a professora Neide Medeiros, no Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas. Com ela, descobriu os contos de fadas sob um olhar crítico e fez companhia a autores como Monteiro Lobato, Ana Maria Machado e os Irmãos Grimm. Assim, tornou-se leitora atenta, contadora de histórias, oficineira da leitura e palestrante, até ser publicamente desafiada a trabalhar com um grupo de crianças de classe média alta que nunca haviam lido um só livro ou frequentado uma biblioteca.

Aceitou o desafio. Durante noventa dias ininterruptos, planejou cada encontro com rigor e sensibilidade. Na escolinha da Tia Bete, como a chamavam, as crianças participavam de atividades lúdicas, pintura e descobertas sobre o livro. Vieram muitas emoções, entre elas a primeira visita à Biblioteca do Serviço Social do Comércio (SESC), roupas novas, máquinas fotográficas, um micro-ônibus cedido por um pai e a entrada triunfal no universo da leitura, entre almofadas, histórias e encantamento.

Outra emoção atravessou o caminho da universitária: a conversa com a avó de uma das crianças, intrigada ao notar que a neta só pedia livros como presente. A explicação era simples: o encanto pelas descobertas despertara a curiosidade. A partir daí, a avó passou a acompanhar as oficinas, fez-se entusiasta e, por fim, cúmplice do jogo: provocava as crianças a ler mais e a narrar as melhores histórias.

A terceira experiência deu-se na confraternização de encerramento das oficinas, tendo como eixo a obra Lúcia, já vou indo, da autoria de Maria Heloísa Penteado. A narrativa apresenta Lúcia, uma lesma que nunca consegue chegar em tempo aos compromissos da floresta. Sensíveis à sua condição, duas amigas decidem levar a festa até sua casa. No percurso, ao encontrá-la retornando do pé de maracujá, as libélulas a conduzem, sobre uma folha, até o destino. O enredo revela valores como solidariedade, compromisso e respeito às limitações do outro. Ao se reconhecerem na história, as crianças elegeram-na para o último encontro, que contou com a participação dos adultos.

Essas e outras experiências foram vividas, mas uma coisa era certa: a cada dia, a jovem universitária conscientizava-se de que não poderia afastar-se dos livros e da leitura.

E foi assim, que descobriu, pouco tempo depois, sua grande paixão: os romances históricos, biográficos e as autobiografias. Olga, de Fernando Morais, tornou-se quase o substituto de Vidas Secas. E assim, continuou, uma leitora voraz, impedida apenas pela ausência de recursos para comprar os livros desejados ou encontrá-los nas bibliotecas. Isso a levou refletir sobre os dizeres de Roland Barthes: “[…] a biblioteca é infinita, na medida em que ela está sempre […] aquém ou além da procura: tendencialmente, o livro desejado nunca está lá […]” (Barthes, 2004, p. 35). Essa talvez seja a explicação para um compulsivo e quase obsessivo desejo de adquiri-los no presente. Mesmo com limitações, ela dar-se ao direito de fazê-lo responsavelmente.

Em julho de 1988, graduou-se em Biblioteconomia, período em que a Constituição Federal ainda não havia sido promulgada. 

Quase dez anos se passara para que a Bibliotecária alcançasse o primeiro concurso público, tornando-se Bibliotecária da Universidade Federal da Paraíba, Campus de Areia, uma cidade histórica localizada há aproximadamente 130km da capital paraibana. 

Antes, porém ocupou o cargo de Bibliotecária como prestadora de serviço no Município de Santa Rita/PB, depois na Universidade Estadual da Paraíba, no Campus de Guarabira, no Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial, o SENAC/PB e na Companhia de Óleos Vegetais do Brasil, COVERBRÁS, uma indústria do Grupo Pilar, voltada para a produção de óleos vegetais. Nela atuou, inicialmente, como arquivista, instalando um banco de dados para auxiliar no desenvolvimento das pesquisas em alimentos e, depois, assumiu a função de Secretária Executiva da Diretoria Administrativa Financeira. Insatisfeita com a troca de função, pediu demissão. Entre uma função e outra, criou a caixa biblioteca, ideia aceita e disputada pelos funcionários e, posteriormente, pelos familiares. A caixa biblioteca causou impacto na fábrica, que foi chamada pela Diretoria Regional para explicar a origem da ideia. Não impediram seu funcionamento, muito pelo contrário, a própria fábrica passou a adquirir obras de interesse dos operários.

Na indústria trabalhei com informação tecnológica, nas Bibliotecas públicas com informação cotidiana, e aos poucos os desafios do campo me levaram para os Arquivos privados pessoais, dedicando-me por quase 30 anos, no campo profissional e no ensino da área.

Os desafios, embora exigentes, eram inspiradores e tornavam ainda mais vivo o desejo pela docência. Assim, em 1995, munida apenas da graduação, ingressei por concurso público no então Departamento de Biblioteconomia, hoje Departamento de Ciência da Informação da Universidade Federal da Paraíba, passando a ministrar duas disciplinas que me acompanham ao longo da carreira: Representação Descritiva e História da Leitura e dos Registros do Conhecimento.

O incorporar-me na docência exigiu que eu ingressasse, em 1997, na primeira turma de Mestrado em Ciência da Informação na mesma universidade. Foi um tempo de travessia intensa, em que a pesquisa se entrelaçava à vida e ao cotidiano do trabalho, e em que, quase em paralelo ao mestrado, busquei ainda duas especializações, como quem amplia o fôlego para sustentar o compromisso com a formação e com o fazer pedagógico. Em 1999, obtive o título de Mestra em Ciência da Informação, com a dissertação intitulada “Paixão de (In)formar: Práticas Alfabetizadoras no Programa Tijolo Sobre Tijolo – Projeto Escola Zé Peão em Canteiros de Obras”, síntese de um percurso marcado pelo desejo de aprender, ensinar e transformar.

O percurso entrelaçado pela graduação, pela extensão com a Biblioterapia junto à terceira idade, e pelo mestrado, em diálogo com operários da construção civil, moldou minha formação humanista e reafirmou a convicção de uma biblioteconomia voltada ao social, capaz de tocar e transformar vidas. Cada aprendizado foi vivido na experiência, amadurecido no encontro, até culminar no doutorado em Letras, com a tese “José Simeão Leal: escritos de uma trajetória”.

Na tessitura da tese, retornei às fontes primeiras do aprendizado, a História, a memória, os arquivos privados pessoais e a literatura. Foi a partir desse alicerce que fundamentei, junto ao CNPq, a criação do Grupo de Estudos e Pesquisa em Cultura, Informação, Memória e Patrimônio (GECIMP), em 2011, consolidando uma travessia que se fortaleceu no campo da cultura, da memória e do patrimônio, categorias atravessadas, em sua essência, pela informação. 

Após vinte e dois anos dedicados à docência, entre salas de aula, pesquisas, ações de extensão e a gestão acadêmica na graduação e na pós-graduação, alcancei a Vice-Reitoria, exercida no mandato de 2016 a 2020. Em 2024, a Reitoria voltou a ser meu horizonte, agora como Pró-Reitora de Extensão e Cultura na UFPB, desdobramento natural de uma caminhada de trinta anos como docente extensionista. Uma trajetória tecida não apenas por conquistas, mas, sobretudo, por desafios enfrentados e resistências transformadas em permanência e sentido.

Logotipo do Grupo de Estudos e Pesquisa em Cultura, Informação Memória e Patrimônio (GECIMP)

Para fechar este exercício de “escrita de si”, digo que minha trajetória foi tecida com as mãos do trabalho e do sonho. Ao longo da carreira, mas antes dela, da própria vida, fui babá, manicure, vendedora de doces e bolos, reinventando a sobrevivência a cada dia. Entre jornadas duras e necessárias, integrei o movimento estudantil, onde aprendi que lutar também é uma forma de aprender e de (r)existir. 

Esse percurso, marcado por dificuldades, foi sobretudo um território de profunda aprendizagem. Hoje, levo inscrito em minha história o gesto de orientar: acompanho trajetórias na graduação, no mestrado e no doutorado, fios que se entrelaçam ao meu e seguem adiante. Continuo na Universidade Federal da Paraíba, no ensino de graduação e de pós-graduação, lugar que me deu abrigo, chão e permanência. E sigo também na Universidade Federal de Pernambuco, como professora colaboradora da Pós-Graduação em Ciência da Informação, ampliando diálogos, travessias e pertencimentos. 

É uma caminhada feita de afetos e transformações, onde cada encontro deixa marca e sentido. E sigo agora, consciente das dificuldades, na busca de tecer outros fios, aberta ao que ainda pode nascer do que fui e do que continuo a me tornar.

Referências

BARTHES, Roland. O humor da língua. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre leitura e história da cultura. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.

CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: artes do fazer. 12. ed. Petrópolis: Vozes, 1994. 

Sobre a autora

Bernardina Maria Juvenal Freire de Oliveira

Professora do Departamento de Ciência da Informação e do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal da Paraíba. Presidenta da Academia Feminina de Letras e Artes da Paraíba. Membra do Instituto Histórico e Geográfico de Areia e atual Pró-Reitora de Extensão e Cultura da Universidade Federal da Paraíba.

Doutora em Letras pela Universidade Federal da Paraíba. Mestra em Ciência da Informação pela Universidade Federal da Paraíba. Bacharela em Biblioteconomia pela Universidade Federal da Paraíba. Pós-doutoranda junto ao Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal da Bahia.


Redação: Bernardina Maria Juvenal Freire de Oliveira
Fotografia: Bernardina Maria Juvenal Freire de Oliveira
Diagramação: Iasmim Farias Campos Lima

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