
Editorial: Biobibliografia, por Maria Nélida Gonzalez

Biobibliografia
Maria Nélida Gonzalez
marianelidagomez@gmail.com
Conforme o dicionário, uma Biobibliografia consistiria no estudo da vida e da obra de um escritor. Pensei, porém, em dar um novo significado: a narração da vida de um leitor.
Comecei a destravar as linhas tipográficas e apropriar-me do sentido quando tinha uns 4 anos. Tudo parecia relativamente fácil, mas não sem tropeços. Por exemplo, não entendia a “w”. Me atrapalhava encontrá-la numa palavra, um texto, ela não era razoável para mim.
De fato, em minha adolescência encontrei leituras inesquecíveis, tal como Assim Falou Zaratustra e A Gaia Ciência, de Nietzche. Não entendia muito bem a figura meta-textual do super-homem, mas ficava encantada com a construção do texto, o uso da linguagem. Por alguma razão, o que lembro daquelas leituras era minha admiração pelo autor e sua habilidade para exteriorizar ideias em textos magistrais.
Lia muitas novelas e teatro, me entusiasmava a estrutura dramática das obras de Henrik Ibsen, e a centralidade da questão do gênero nas obras nórdicas, além dos problemas sociais mais gerais, como a fome nos tempos de guerra. Junto a proximidade com o fantástico, também encontrada em Ibsen, como em Peer Gynt. De fato, uns 80% do que tenho obtido nesta vida, provém da leitura.
Comecei meus estudos de Filosofia, lembro muito bem, preparando uma primeira disciplina por minha conta, sem apoio nem consulta com os professores da Universidade, só reunindo livros e lendo. Aprovei assim a primeira disciplina antes de colocar os pés na Faculdade, num velho prédio da rua Entre Rios, cidade de Rosario, Argentina. Acredito que foi certa soberba provinciana. Que abandonei, frente ao ensino silencioso dos fatos.
Tivemos excelentes professores, alguns que deixaram a Europa em função dos tempos de guerra, outros que exerciam o ensino de Filosofia na Universidade de Buenos Aires, a UBA, e nos finais de semana, sexta-feira, davam aula em Rosario. Considero que todos tinham dupla formação, na Argentina e num país europeu: de fato, Europa era referência absoluta nos estudos em humanidades, naquela época. Só descobri grandes centros de estudos filosóficos em universidades norte-americanas, quando comecei a trabalhar em Porto Rico (1969), e, certamente, tínhamos pouco contato com Universidades da Rússia, e nenhum contato com países da Ásia.
As aulas em Porto Rico me exigiam interiorizar-me com áreas da cultura não tão frequentes nos estudos da Filosofia. Foi tempo de aprendizagem, mas não tanto em intensidade como em diversidade. Foi bom, aliás, para minha formação pessoal.
Em Porto Rico tive meu primeiro contato vivo com o mar. Perto de Arecibo tinha uma poça formada pelo mar sobre uma costa rochosa, água limpa (com muitas algas), mas nela aprendi a mergulhar e muitos dias fugia com meu Toyota amarelo para ficar flutuando na água salgada.
Com meu retorno de Porto Rico a Rosario, Argentina, meus irmãos tiveram um papel decisivo ao aproximar-me à realidade difícil e desafiante do próprio país, com questões que nem sempre eram tão cruciais nem centrais nas narrativas literárias. Outra mudança radical, nova aprendizagem.
Retomei aos poucos meu trabalho como professora, então em Institutos de ensino terciário, para formação de professores. Na semana, dava aula em três cidades, Rosario, Venado Tuerto, Cañada de Gomez.
Não foi fácil retornar à Universidade como professora. Excluídos pela intervenção, não éramos desejáveis, para muitos. Conseguimos, com outros dois colegas, assumir as cátedras de Filosofia de uma Faculdade de Direito, mas tampouco nos integraram à instituição, eram só uma ou duas disciplinas, um semestre sim, outro não. Seguia, assim, em minhas aulas, nos professorados para o magistério.
Começamos a pensar em atividades de estudo e pesquisa mais bem informais, e reunimos um grupo com atividades de estudo e discussão organizadas, muito boas para nossa reconstrução e atualização.
Nesse período, já casada, meu marido foi chamado para integrar uma equipe de projetistas contratados por um grupo industrial de Rio Grande do Sul, no Brasil. Gostei muito de Porto Alegre, comecei uma especialização, mas nada muito consistente, nem mesmo para a definição de área de trabalho.
Uma segunda mudança da empresa em que meu marido trabalhava nos levaria ao Rio de Janeiro. No início, fomos morar em Campo Grande, bairro então nascido da área rural. Com minha pequena família, nos instalamos nesse bairro, então tido como suburbano, na zona oeste de Rio de Janeiro, Campo Grande, que já fora área de quintais e laranjais. Lá se iniciaria a mais dedicada e intensa etapa de minha vida, onde finalmente conseguiria ter como atividades principais o estudo, o ensino e a pesquisa. Cheguei à Ciência da Informação a partir de e para sair da Filosofia da Linguagem.
Nesse preciso momento foi que tomei uma decisão. Teria que retornar à Universidade, e formar-me numa Pós-graduação, porque apesar de minha experiência, meu título de graduada não era reconhecido na docência superior. Assim, quando conheci os cursos em Ciência da Informação, percebi a dupla oportunidade. De obter a titulação necessária, e atualizar-me nas novas relações das tecnologias e a linguagem. Foi, de fato, uma boa decisão. O novo espaço de estudo e pensamento acabou sendo revigorante.
Como era meu costume, tinha ainda que entender que lugar eu ocuparia nesse novo domínio de estudo e pesquisa. E não eram os Sistemas de Informação, apesar de sua importância operacional e profissional. Eu sempre trabalhei com seres humanos, linguagem, práticas, instituições, movimentos sociais.
Foi então que concebi, como lócus de constituição de meu objeto de pesquisa, no domínio da Ciência da Informação, as ações de informação.
A esta altura tinha pesquisado periódicos, dissertações, autores validados naquela área de estudos. O conceito e construto das ações de informação me permitia lidar com sistemas e tecnologias, em sua relação com os contextos acionais, as formas de vida em que aquilo que na sociedade contemporânea e local se denominava informação, entrava nas falas, em contextos institucionais e nas práticas cotidianas e profissionais. Tenho uma publicação, que não consigo recuperar, em que eu comparo o que seria “ler” a questão informacional do ponto de vista dos sistemas, ou do ponto de vista da ação.
Não duvido que meu conhecimento de Habermas me ajudou a construir um quadro ontológico leve, sustentado no agir comunicativo, mas apoiada nos jogos de linguagem de Wittgenstein, antes que no discurso. Ao mesmo tempo, introduzindo diferenças, porque a ação de informação permitia ler formalizações sistêmicas, contextos de práticas institucionalizadas ou eventos de interações discursivas. Não concebia um mundo dividido em ações e tecnologia. Toda mediação do homem com o mundo natural ou social, implica mediações – técnicas, ferramentas e operações com materiais.
De minha parte, sigo achando Habermas um pensador robusto, ainda que eurocêntrico, mas com um entendimento atualizado e que ia além das filosofias da linguagem. Ainda não reconstruí como ele lida ou lidaria com as relações entre a linguagem e as tecnologias digitais. Tarefa para realizar?
Digamos que grandes pensadores europeus do século XX e em parte do XXI vão alargar o caminho iniciado pelo velho Wittgenstein (perguntariam qual é a última rua de uma cidade?), entendendo que é própria do gênero humano sua diversificação linguística e cultural. Desde outro ângulo, temos aberta outra reconstrução das questões de informação, não alheia a anterior, porque lida com a materialidade que sustenta o poder dos símbolos. Inscrições, documentos, ato social inscrito. Trabalharemos nessa questão no próximo semestre….
O primeiro conceito que começou a ordenar minhas ideias, na Ciência da Informação, logo, foi entender a informação como uma objetificação da produção de sentido, já que suas variações aconteciam entre seres humanos, artefatos materiais e semióticos, como documentos, índices e máquinas. Em lugar de entendê-la em relação ao sujeito e a linguagem, teria de entendê-la em relação ao desempenho da agência (ação). Meu primeiro conceito gerado nesse processo foi: ação de informação.
Um segundo conceito apareceu logo como necessário, entendendo que as ações de informação requeriam uma visualização além das ações situadas num único e específico jogo da linguagem. Elas abriam uma perspectiva além de bibliotecas e salas de aula, podendo ser analisadas tanto na vida cotidiana como em domínios especializados, em plurais contextos e abordagens. Naqueles inícios, tratei esse alargamento de perspectiva com um olhar antes político que sociológico, quiçá pela importância, naqueles anos, do papel do Estado no domínio das ações de informação e sua institucionalização. Hoje, para considerar o papel das plataformas (o domínio das GAFAM1), se requer um cenário diferente, transinstitucional, e mesmo além das cartografias locais, gosto de pensar desde o Sistema-Mundo, de Wallerstein.
Para atender a pluralidade e a diversidade das ações de informação, suas agências e seus domínios de ocorrência, atendendo ao mesmo tempo as múltiplas interseções, utilizamos o conceito de regime de informação. Nesse processo, foi ficando claro que a informação não só se relacionava com a produção e comunicação dos conhecimentos, mas era sempre algo que traz à luz as lutas entre a verdade e o poder. Para seguir pensando juntos, nesses Observatórios que começaram por se abrir no âmbito dos estudos e das pesquisas na Ciência da Informação.
Indicações bibliográficas
OLIVEIRA FILHO, José Hildo. Wittgenstein and anthropology: an analysis of Wittgenstein’s Remarks on Frazer’s Golden Bough / Wittgenstein e a antropologia: uma análise às Observações ao Ramo de Ouro de Frazer. In: MEETING OF YOUNG RESEARCHERS AT UNIVERSITY OF PORTO (IJUP), 3., 2010, Porto. Livro de resumos do Terceiro Encontro de Jovens Investigadores da Universidade do Porto. Porto: Universidade do Porto, 2010. p. 46.
LEE, Dave. Finitude and wonder: Ludwig Wittgenstein’s philosophical anthropology. 2025. Tese (Doutorado em Filosofia) — Institute for Christian Studies, Toronto, 2025. Disponível em: https://hdl.handle.net/10756/620250 . Acesso em: 4 fev. 2026.
WITTGENSTEIN, Ludwig. Remarks on Frazer’s Golden Bough. In: WITTGENSTEIN, Ludwig. The mythology in our language: remarks on Frazer’s Golden Bough. 2018. p. 29-75.
Notas dos editores
[1] GAFAM é um acrônimo que representa as cinco maiores e mais influentes empresas de tecnologia dos Estados Unidos: Google (Alphabet), Apple, Facebook (Meta), Amazon e Microsoft.
Sobre a autora
Pesquisadora aposentada do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia. Atuou junto ao Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação do convênio entre o Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia e a Universidade Federal do Rio de Janeiro e no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal Fluminense. Foi bolsista Pesquisadora 1A do CNPq.
Doutora em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mestra em Ciência da Informação pelo convênio entre o Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia e a Universidade Federal do Rio de Janeiro. Graduada em Filosofia pela Universidad Nacional de Rosario, Argentina.
Redação: Maria Nélida Gonzalez Maresca
Fotografia: Maria Nélida Gonzalez Maresca
Revisão: Herta Maria de Açucena do Nascimento Soeiro
Diagramação: Iasmim Farias Campos Lima









