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v. 4, n. 02, fev. 2026
De menina a cientista, um caminho possível e apaixonante, por Elizete Vieira Vitorino

De menina a cientista, um caminho possível e apaixonante, por Elizete Vieira Vitorino

De menina a cientista, um caminho possível e apaixonante

Elizete Vieira Vitorino
elizete.vitorino@ufsc.br

A função do professor passa, cada vez mais, a ser a de economizar o tempo do estudante, acelerando o processo de aprendizagem. Essa necessidade de aceleração está ligada ao fato de que, na Era da Informação, é preciso dar conta de níveis e quantidades de informação tão vastos que os antigos métodos de inserção de conteúdos classificados em nossa memória já não se mostram suficientes (MARSHALL MCLUHAN, 1967 apud PRETTO, 2004).

É nesta etapa que me encontro agora: buscando apresentar meu perfil docente, a fim de conquistar um espaço em um sistema inovador, pois sei que, nesse cenário, requer-se um profissional com perfil de consultor, engenheiro, projetista de sistemas e cientista; alguém capaz de criar e inovar com base na experiência cumulativa, em que qualidade, originalidade, rapidez e oportunidade emergem como resultado de problemas resolvidos; alguém que possua habilidade para identificar, intermediar e solucionar problemas (LUCAS, 1996). Sei que disponho desse perfil e da experiência docente necessária para o desafio de lecionar no Curso de Biblioteconomia da UFSC e – mais precisamente – na área de Organização e Tratamento da Informação.

Escrevi isto no final do Ano de 2005 para o memorial do concurso de Professor do Magistério Superior da UFSC. Ah! Quantos anos se passaram! 20 anos! Hoje aqui refletindo sobre essa trajetória

Em 1976, eu fazia uma visita à Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e, almoçando no restaurante universitário (o famoso RU) com meus colegas e minha professora (eu cursava a 1ª série do “primeiro grau” da época e tinha 7 anos), senti algo tão forte que disse a mim mesma: “um dia eu almoçarei aqui neste restaurante, não como visitante, mas como uma aluna da UFSC!”. E persegui esse sonho, que passo a contar… Em 1987, o sonho enfim se realizava: eu era uma universitária!

Como escolhi Biblioteconomia? Vinda de família humilde e estudando em escola pública, eu sabia que se quisesse acompanhar a sequência de estudos adequados à faixa etária e à energia que tinha aos 18 anos de idade, a hora era agora: eu precisava estudar numa universidade pública e trabalhar fora (durante o dia) para pagar as despesas com o material escolar, transporte e alimentação na faculdade. Então, excluí cursos concorridos e diurnos. Outra atitude que tomei foi analisar os cursos mais concorridos da universidade: o que adiantaria lutar e não passar, lutar e não passar… Mais um, mais outro, vários vestibulares e eu lá, sem passar! Não, isso eu não queria para o meu futuro, eu queria encontrar uma carreira que me desse prazer e que me proporcionasse futuro profissional e no mais, eu a adaptaria ao mercado!

No ano anterior, já próxima de concluir o ensino médio (então denominado 2º grau), fiz uma análise dos cursos disponíveis na UFSC (pois era ali que eu queria estudar!): com qual deles eu mais me identificava? Feita a análise, lá estava a minha escolha: Biblioteconomia como 1ª opção. Por quê? Porque reunia um pouco de administração, um pouco de livros, um pouco de regras, um pouco de leitura, um pouco de preservação e, sobretudo, falava de bibliotecas (eu adorava passar horas e horas em bibliotecas e em leituras). Iniciei o curso de Biblioteconomia com uma alegria que não cabia em mim. Eu era, enfim, uma estudante universitária: passava sábados, domingos, feriados e madrugadas estudando, fazendo tudo o que fosse preciso para aproveitar a oportunidade e para desobstruir as barreiras que minhas próprias limitações, por vezes, me impunham. Mas consegui!

Em 1991, lá estava eu: era formanda do Curso de Biblioteconomia! Já trabalhava como estagiária e Bibliotecária de um Setor de Informações na área de Engenharia. Mas o que estava por vir nem eu imaginava: eu havia sido convidada para lecionar, já em 1992, para o Curso de Biblioteconomia da UFSC (Sim! Em 1992 eu já era docente da UFSC aos 23 anos de idade). Era mais do que eu imaginava! Só não sabia que isso não pararia por aí. Envolvida com a relação entre Engenharia e Informação e com a questão da Gestão da Qualidade — permeando a organização, o tratamento e o acesso à informação — lá estava eu, em 1994, iniciando o Mestrado em Gestão da Qualidade e Produtividade. Em 1996, eu era Mestre em Engenharia de Produção. A vida mudou: muita correria, muito trabalho (UFSC, UDESC e UNIVALI – só nesta última universidade, fui professora por anos). Era 1997: nascia Luiza, minha primeira filha. Durante o ano de 1997, mais um desafio se apresentava: o mercado buscava agora Doutores (eu precisava buscar essa formação para acompanhar a evolução do mercado). Em 2002, nascia José Ubiratan. O Doutorado em Mídia e Conhecimento precisou esperar um ano; quase desisti, não por causa do José Filho, mas em razão de muitas inquietações e reviravoltas pessoais. Foi então que outro José, o José Ubiratan Pai, me disse: “você pode ser o que você quiser ser”. E completou: se é isso que você gosta, se essa é a sua maior paixão, siga em frente que eu ajudo! 

Em 2004, eu me tornava Doutora em Engenharia de Produção. Mas o sonho daquela menina que um dia sonhou em “estar” e “ser” UFSC ainda não estava completo. Mais uma vez, lancei-me a um novo desafio — um dos mais difíceis, senão o mais difícil, para mim. Eu disse a mim mesma: “eu serei docente (concursada) do Curso de Biblioteconomia da UFSC, ou não me chamo Elizete!”.

E foi assim, 30 anos depois de entrar na UFSC pela primeira vez, agora no ano de 2006, no mês de janeiro, eu tomava posse como professora concursada da UFSC, em 1º lugar!

E é bom reforçar para as meninas e mulheres: Sim, eu fui a primeira colocada em concurso para professor permanente, 40 horas, dedicação exclusiva e que dispunha somente de uma vaga: para o Curso de Biblioteconomia da UFSC. Desde a posse, em janeiro de 2006, sinto que a trajetória de menina deu certo, sim! 

O cenário de menina que se tornou uma cientista, se desenhou bem antes, com professores – formados ou não – como minha mãe – que sabiam da importância da educação na vida de alguém e me inspiraram a estar aqui. Valeu cada dia de esforço, cada noite e finais de semana, feriados, estudando ou corrigindo trabalhos, provas, lendo trabalhos de conclusão de curso, relatórios de estágio, processos, dissertações, teses, versões de artigos e livros para revistas e editoras. Tudo valeu! E eu sou uma das provas de que a educação pode transformar a vida de uma criança, de um jovem, de um adulto, de uma pessoa idosa – de qualquer pessoa, de qualquer grupo – em uma vida de significado, aprendizado, trabalho e, também, de realização pessoal e profissional! E sei que pude impactar outras vidas ao longo destes anos de carreira na UFSC! Que bom!

Ah, também sou muito feliz, com José Ubiratan da Rosa, José Ubiratan da Rosa Filho e Luiza Estefano, pessoas que passaram e passam esses anos torcendo por mim e me ajudando em todas as horas: o amor sincero! Soma-se ainda, os quase 10 mil alunos, muitos orientandos e colegas que fiz ao longo do caminho!

Mas e o céu azul? Bem, 20 anos se passaram e aqui estou eu: com data de aposentadoria já existente (ainda que eu trabalhe por alguns meses antes de me aposentar… mas isto já é um outro assunto! E vai que eu me apaixono novamente e volto a ser aquela menina e desisto de aposentar?).

Olho para o céu azul e está totalmente limpo. Meus pensamentos são leves, sinto o sol na pele, fecho os olhos. Olho novamente para o céu e a primeira nuvem aparece, branca, solitária. Logo os pensamentos já se aceleram. Fico imaginando em “bater uma foto”, em associar a nuvem vista com a pesquisa científica que realizo sobre as dimensões da Competência em Informação… Os pensamentos ganham nova velocidade. Novas nuvens se misturam à primeira. Andorinhas aparecem, ligeiras, algumas em pares e associo às coisas, caminhos e teorias (que tal mostrar com o exemplo das andorinhas que determinadas coisas caminham lado a lado?!). Mais e mais andorinhas no céu. Agora o céu é complexo e o sol já arde na pele, mas a sensação de pensamentos frescos e leves vai embora e dá lugar a muitos pensamentos e sentimentos. Decido tomar um suco, sair do sol, refrescar a pele e, também, os olhos do azul, das nuvens, das andorinhas, do complexo e do pensamento acelerado.

Ah! Que vida boa! Não há aposentadoria para quem ensina e aprende, pesquisa e chora, sorri e corre, se atrapalha, abraça forte e olha no olho. Está começando “um novo começo”, para quem gosta de imaginar e de se apaixonar por aquilo que é mais belo e mais simples: a busca pela ciência e pelo conhecimento científico também precisam ter lugar aí!

Agradecimento: em memória de minha Mãe, Leony Vieira Vitorino (1936-2015) e, em nome dela, às mulheres brasileiras e do mundo inteiro, corajosas!

Nota da autora

Parte deste texto foi escrito para introduzir o Memorial Descritivo para o concurso de Professor permanente do quadro de pessoal da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), no ano de 2005. Uma outra parte consta das considerações finais do Memorial Descritivo, elaborado para análise da banca para Professor Titular da UFSC, no ano de 2023. E, uma outra parte, inclui fragmentos daquilo que escrevi quando fui agraciada com o Prêmio Mulheres na Ciência, 4ª. edição, 2024, categoria plena. E, ainda, a parte final, escrevi na semana passada, num momento de leveza, quando eu estava olhando o céu azul.

Referências

LUCAS, Clarinda Rodrigues. A organização do conhecimento e tecnologias da informação: oráculos humanos e inteligência artificial. In: Organização do conhecimento e sistemas de classificação. Brasília: IBICT, 1996.
PRETTO, Nelson. Tecnologias da informação e comunicação e novas educações. Salvador, BA: UFBA, 2004.

Sobre a autora

Elizete Vieira Vitorino

Professora do Departamento de Ciência da Informação e do Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal de Santa Catarina. Fundadora e Líder do Grupo de Pesquisa GPCIn. Coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Competência em Informação. Bolsista Produtividade CNPq. Vencedora da 4a. edição do Prêmio Mulheres na Ciência – UFSC – 2025 – Área de Humanidades, Categoria Plena.

Doutora e Mestra em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina. Bacharela em Biblioteconomia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Pós-doutora em Ciência da Informação pela Universidade Federal da Paraíba e Universidade do Porto.


Redação: Elizete Vieira Vitorino
Fotografia: Elizete Vieira Vitorino
Diagramação: Iasmim Farias Campos Lima

 

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