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v. 3, n. 11, nov. 2025
Representatividade, informação e justiça sócio-racial em ambientes informacionais, por Dávila Feitosa

Representatividade, informação e justiça sócio-racial em ambientes informacionais, por Dávila Feitosa

Representatividade, informação e justiça sócio-racial em ambientes informacionais

Dávila Maria Feitosa da Silva
davillafeitosa@gmail.com

O tema da mesa redonda “Representatividade, informação e justiça sócio-racial em ambientes informacionais” no III Encontro Nacional de Bibliotecárias/os Negra/os e Antirracistas (III ENBNA) e II Encontro Internacional de Bibliotecárias/os Negras/os e Antirracistas (II EIBNA), na qual estive com Dra. Ingrid Paixão de Jesus, Dra. Natália Duque Cordona e Dra. Nathalia Lima Romeiro me levou a revisitar o texto da Lélia Gonzalez, (1984) “Racismo e Sexismo na cultura brasileira”, mais especificamente a epígrafe que antecede o artigo. 

Cumé que a gente fica?

Foi então que uns brancos muito legais convidaram a gente pra uma festa deles, dizendo que era pra gente também. Negócio de livro sobre a gente. A gente foi muito bem recebido e tratado com toda consideração. Chamaram até pra sentar na mesa onde eles tavam sentados, fazendo discurso bonito, dizendo que a gente era oprimido, discriminado, explorado. Eram todos gente fina, educada, viajada por esse mundo de Deus. Sabiam das coisas. E a gente foi se sentar lá na mesa. Só que tava tão cheia que não deu pra gente sentar junto com eles. Mas a gente se arrumou muito bem, procurando umas cadeiras e sentando bem atrás deles. Eles tavam tão ocupados, ensinando um monte de coisa pro crioléu da plateia, que nem repararam que se apertasse um pouco até que dava pra abrir um espaçozinho e todo mundo sentar junto na mesa. Mas a festa foram eles que fizeram, e a gente não podia bagunçar com essa de chega pra cá, chega pra lá. A gente tinha que ser educado. E era discurso e mais discurso, tudo com muito aplauso. Foi aí que a neguinha que tava sentada com a gente deu uma de atrevida. Tinham chamado ela pra responder uma pergunta. Ela se levantou, foi lá na mesa pra falar no microfone e começou a reclamar por causa de certas coisas que tavam acontecendo na festa. Tava armada a quizumba. A negrada parecia que tava esperando por isso pra bagunçar tudo. E era um tal de falar alto, gritar, vaiar, que nem dava mais pra ouvir discurso nenhum. Tá na cara que os brancos ficaram brancos de raiva e com razão. Tinham chamado a gente pra festa de um livro que falava da gente e a gente se comportava daquele jeito, catimbando a discurseira deles. Onde já se viu? Se eles sabiam da gente mais do que a gente mesmo? Se tavam ali, na maior boa vontade, ensinando uma porção de coisa pra gente da gente? Teve uma hora que não deu pra aguentar aquela zoada toda da negrada ignorante e mal educada. Era demais. Foi aí que um branco enfezado partiu pra cima de um crioulo que tinha pegado no microfone pra falar contra os brancos. E a festa acabou em briga… Agora, aqui pra nós, quem teve a culpa? Aquela neguinha atrevida, ora. Se não tivesse dado com a língua nos dentes… Agora tá queimada entre os brancos. Malham ela até hoje. Também quem mandou não saber se comportar? Não é à toa que eles vivem dizendo que “preto quando não caga na entrada caga na saída”…

Desse modo, acredito que temos que falar dos temas das relações raciais em suas diversas nuances e enfatizar que o nosso maior problema, é um problema branco. Como Cida Bento (2022) coloca no “Pacto da branquitude”, a partir do silêncio sobre o branco, e como diz a autora: “a gente precisa trazer para o centro do debate como uma herança simbólica e concreta da realidade que a gente vive hoje”.

Ai surge o questionamento: O que isso tem a ver com representatividade, informação e justiça social? Tem tudo a ver! As instituições (empresas, organizações governamentais, organizações da sociedade civil e tantas outras) majoritariamente possuem em suas direções homens brancos, é um fato! Vou ilustrar com um exemplo de alguns aparelhos culturais do Cariri (Cariri cearense), lugar de onde venho, temos instituições (e aqui eu não estou incluindo as Universidades) que possuem um caráter cultural e artístico nas suas atividades, o Cariri possui inúmeros grupos de tradição, é uma região com um movimento cultural latente: há grupos de reisado do congo, reisado dos caretas, lapinha, mestres e mestras da cultura que são tratados da mesma forma descrita por Lélia Gonzalez na epígrafe introdutória. E, obviamente, esse tratamento não é exclusividade dessa Região e nem dessas instituições.

O relato de Lélia Gonzalez é uma metáfora da ausência de justiça sócio-racial em espaços de poder e conhecimento. A “festa” organizada pelos “brancos muito legais” para falar “da gente” ilustra a lógica de apropriação e curadoria do saber. Nesse cenário, a presença negra é tolerada, mas não igualitária.  São convidados para a festa, mas não para a mesa. São objetos de estudo, não sujeitos do próprio discurso. A “conversa” é sobre , mas nunca com.

A imagem das cadeiras dispostas “bem atrás” dos discursantes brancos é um símbolo da subalternização. Há um espaço físico e simbólico para a participação negra, mas ele é sempre secundário e marginal. A atitude condescendente dos anfitriões, que “sabiam da gente mais do que a gente mesmo”, reforça o epistemicídio, a negação da capacidade de produção de conhecimento dos povos oprimidos.

A “nêguinha atrevida” que se levanta e “dá com a língua nos dentes” é a representação da quebra do silêncio imposto. Seu ato desorganiza a ordem colonial da festa, a “discurseira” monocultural. A “quizumba” que se segue não é um comportamento irracional, mas uma resposta legítima à violência simbólica de ter a própria história e vivência sequestrada e recontada por outros. A reação dos brancos, que ficam “brancos de raiva”, e a subsequente criminalização da mulher negra demonstram como a tentativa de conquistar espaço e voz é vista como uma ameaça à estrutura de poder. A frase final, “preto quando não caga na entrada caga na saída”, encapsula o racismo estrutural que nega a legitimidade de qualquer ação negra que não se submeta à lógica branca.

Nós vivenciamos o II Encontro Internacional de Bibliotecárias e Bibliotecários Negras e Negros e Antirracistas e o III Encontro Nacional de Bibliotecárias e Bibliotecários Negras e Negros e Antirracistas.

Esse movimento de pessoas bibliotecárias negras e antirracistas, que vem acontecendo há mais de 15 anos, é um esforço político e intelectual que demanda resistência e persistência. Ele oferece um contraponto esperançoso e pragmático à realidade descrita por Lélia Gonzalez, demonstrando que, embora os campos da Biblioteconomia e da Ciência da Informação (CI) tenham raízes eurocêntricas e coloniais, há um movimento para descolonizar suas bases e práticas.

A professora Miriam Aquino trouxe nos seus estudos reflexões sobre a CI e podemos incluir também aqui a Biblioteconomia, como um fenômeno social e a problematização de “Que informação? E Para quem?”, são pontos cruciais que ressoam diretamente com o relato de Gonzalez. Reconhecer a informação como um fenômeno social implica entender que ela é produzida, organizada e disseminada dentro de relações de poder desiguais. Para que a informação seja um motor de justiça sócio-racial, ela não pode ser neutra, mas sim consciente de sua responsabilidade social.

A representatividade de grupos historicamente excluídos, como, pessoas negras, indígenas, mulheres e LGBTQIA+, ainda é um problema essa justiça falha em ambientes como bibliotecas, que foram criadas para e por uma elite. O conceito de justiça social, definido como a chance e oportunidade para cada pessoa aproveitar sua vida plenamente, é o ponto de partida para pensar em soluções. No campo da Biblioteconomia e Ciência da Informação (BCI), a justiça social deve ir além da mera distribuição. A teoria da justiça social na BCI se apoia na ética do cuidado, da solidariedade e do respeito, e engloba três elementos-chave: distribuição, participação e reconhecimento. O reconhecimento é fundamental, pois ele desafia a invisibilidade e a falta de representatividade dos grupos marginalizados.

Para combater as injustiças sociais, informacionais, raciais e de gênero, é preciso desmantelar a falácia da neutralidade profissional e da biblioteca. As/os profissionais da informação devem assumir um compromisso social, ético e democrático. Ao questionar a suposta neutralidade, que na verdade atende a um sistema opressor, as/os profissionais podem começar a desconstruir comportamentos que historicamente perpetuaram desigualdades, abrindo caminho para uma prática mais justa e inclusiva.

O desafio é grande, mas a solução passa pela conscientização, pelo reconhecimento das desigualdades históricas e por uma ação proativa que promova a participação e o reconhecimento de todas as vozes nos ambientes informacionais.

Vida longa ao movimento de bibliotecárias e bibliotecários negras e negros!

Referências

BENTO, Cida. O pacto da branquitude. São Paulo: Companhia das Letras; 2022.

GONZALES, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. Revista Ciências Sociais Hoje, Anpocs, Brasília, 1984, p. 223-244. Disponível em: https://bibliotecadigital.mdh.gov.br/jspui/handle/192/10316 . Acesso em: 01 nov. 2025.

Sobre a autora

Dávila Maria Feitosa da Silva

Bibliotecária na Universidade de Pernambuco, campus de Serra Talhada. Faz parte do Laboratório de pesquisa em informação antirracista e sujeitos informacionais na Biblioteconomia e Ciência da Informação (Alaye). Integra o Grupo de Trabalho Relações étnico-raciais e Decolonialidades, vinculado à FEBAB. Foi integrante do Grupo de Pesquisa Núcleo Brasileiro Latino Americano e Caribenho de Estudos em Relações Raciais, Gênero e Movimentos Sociais. Ativista, feminista Negra. Foi integrante do Grupo de Mulheres Negras do Cariri Cearense – Pretas Simoa. Foi Chefe de Divisão de Estudos e Pesquisas do Centro Nacional de Informação e Referência da Cultura Negra/CNIRC/Fundação Cultural Palmares.

Doutora em Ciência da Informação pela Universidade Federal da Paraíba. Mestra em Biblioteconomia pela Universidade Federal do Cariri. Bacharela em Biblioteconomia pela Universidade Federal do Ceará – Campus Cariri. 


Redação: Dávila Maria Feitosa da Silva
Fotografia: Dávila Maria Feitosa da Silva
Diagramação: Iasmim Farias Campos Lima

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