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v. 4, n. 02, fev. 2026
Onde Ciência Aberta e Justiça Informacional se encontram: caminhos para inovar com impacto social, por Priscila Sena

Onde Ciência Aberta e Justiça Informacional se encontram: caminhos para inovar com impacto social, por Priscila Sena

Onde Ciência Aberta e Justiça Informacional se encontram: caminhos para inovar com impacto social

Priscila Sena
priscilasena@ibict.br

Quando falamos em inovação, é comum pensar em startups, aplicativos, sistemas sofisticados, algoritmos, laboratórios de ponta etc. Mas nem sempre nos perguntamos quem consegue acessar o conhecimento científico necessário para inovar, quem pode compreendê-lo e quem tem condições reais de reutilizá-lo para enfrentar problemas sociais complexos. 

Pense, por exemplo, em uma gestora pública municipal que precisa tomar decisões rápidas sobre políticas ambientais, ou em uma professora da rede pública que busca dados confiáveis para trabalhar temas científicos em sala de aula. Sem acesso à informação científica qualificada, essas decisões e práticas ficam limitadas ou dependentes de fontes pouco confiáveis.

A informação científica não é neutra. Ela circula em sistemas atravessados por relações de poder, assimetrias econômicas e desigualdades históricas. Johnson (2014) alerta que iniciativas de abertura de dados, quando não acompanhadas de princípios de Justiça Informacional, podem inclusive ampliar desigualdades, ao favorecer atores com maior capacidade técnica e institucional de uso da informação. Abrir dados, portanto, não garante automaticamente inclusão ou democratização.

Esse entendimento dialoga com as reflexões de Mathiesen (2015) e Smith (2001), que defendem o acesso à informação como um direito diretamente ligado à justiça social, envolvendo dimensões distributivas, participativas e de reconhecimento. Em países marcados por desigualdades estruturais, como o Brasil, isso se traduz de forma muito concreta. Uma pesquisadora de uma grande universidade, com acesso a infraestrutura e equipes especializadas, tende a se beneficiar mais rapidamente de dados abertos do que uma pesquisadora do interior ou de uma instituição com menos recursos. A exclusão informacional, nesse sentido, compromete a própria possibilidade de participação equitativa na ciência, na inovação e nas decisões públicas que afetam a vida das pessoas.

É nesse cenário que a Ciência Aberta surge como uma resposta aos limites do modelo tradicional de comunicação científica. A Recomendação da UNESCO sobre Ciência Aberta (2021) reforça que promover acesso ao conhecimento científico é condição para ampliar seu impacto social, fortalecer a confiança pública na ciência e promover formas mais responsáveis de inovação.

Capa do relatório “Recomendações da UNESCO sobre Ciência Aberta” / Imagem: UNESCO

No entanto, abrir a ciência vai muito além de disponibilizar artigos ou dados em plataformas digitais. Sem mediação, políticas institucionais consistentes, interoperabilidade entre sistemas e compromisso ético, a abertura corre o risco de se tornar apenas formal. É justamente nesse ponto que os repositórios digitais assumem um papel basilar.

Repositórios digitais não são meros depósitos técnicos. Eles constituem infraestruturas sociotécnicas que articulam tecnologia, política científica e compromisso social. Ao reunir, organizar, preservar e disseminar a produção científica em acesso aberto, fomentam possibilidades de conexão entre a pesquisa, ensino, extensão e inovação, criando pontes entre as instituições de ensino e pesquisa com a sociedade.

Essas infraestruturas ampliam a visibilidade científica, fortalecem a soberania informacional e reduzem a dependência de plataformas comerciais internacionais. Mais do que isso, os repositórios funcionam como espaços de mediação informacional, capazes de garantir que o conhecimento produzido com recursos públicos retorne à sociedade de forma acessível e reutilizável.

Especificamente os repositórios de dados de pesquisa, quando articulados a Princípios FAIR (localizável, acessível, interoperável e reutilizável), ampliam a transparência científica, favorecem o reuso responsável dos dados e fortalecem políticas públicas baseadas em evidências. Eles são fundamentais para que a Ciência Aberta produza efeitos concretos no desenvolvimento social e tecnológico.

A Justiça Informacional oferece o referencial ético e político necessário para orientar essas infraestruturas. Conforme discutido por Garcês-da-Silva et al. (2021) e Sena (2023), Justiça Informacional envolve garantir acesso equitativo à informação, possibilitar participação justa nos processos de produção do conhecimento e assegurar o reconhecimento de diferentes sujeitos e saberes nos sistemas informacionais.

Sob essa perspectiva, repositórios digitais tornam-se mecanismos estratégicos para combater invisibilidades históricas, ampliar a diversidade epistêmica e promover inclusão. Eles permitem que produções científicas de diferentes regiões, instituições e grupos sociais circulem em redes nacionais e internacionais, contribuindo para ecossistemas de inovação mais plurais, criativos e socialmente comprometidos.

As inovações com impacto social não surgem de forma isolada. Elas se constroem em ecossistemas que envolvem universidades, governos, setor produtivo, sociedade civil e o próprio território. Esses ecossistemas dependem, de maneira decisiva, de fluxos informacionais confiáveis e acessíveis para subsidiar decisões, formular políticas públicas e desenvolver soluções sensíveis às realidades locais.

O Manual de Oslo (OCDE; EUROSTAT, 2018) reconhece que inovação não se limita a produtos, mas envolve processos, arranjos organizacionais e soluções sociais. Sem acesso à informação especializada, viabilizado por bibliotecas, repositórios digitais, sistemas de informação e redes colaborativas, como a Rede Brasileira de Repositórios Digitais (RBRD), esses processos ficam fragilizados ou mesmo inviabilizados.

Discutir Ciência Aberta e Justiça Informacional também implica reconhecer que mulheres, especialmente mulheres negras e periféricas, enfrentam barreiras adicionais no acesso à informação científica e às infraestruturas de pesquisa.

A sub-representação em sistemas de informação e a invisibilidade de determinadas produções reforçam desigualdades epistêmicas que ainda precisam ser enfrentadas.

Iniciativas de divulgação científica, como a Divulga-CI, e infraestruturas abertas, como os repositórios digitais, cumprem papel essencial ao tornar visíveis trajetórias, pesquisas e perspectivas diversas. Falar de mulheres na ciência é, portanto, discutir as condições informacionais que permitem, ou impedem, a participação equitativa na produção do conhecimento.

Ao refletir sobre Ciência Aberta, Justiça Informacional e repositórios digitais, uma pergunta permanece central: para quem fazemos ciência? Se o conhecimento continuar restrito a circuitos fechados ou mediado por interesses exclusivamente comerciais, seu potencial transformador será limitado.

Repositórios digitais, quando orientados por princípios de Justiça Informacional, tornam-se pilares de uma ciência comprometida com o bem comum. É nesse encontro entre Ciência Aberta, Justiça Informacional e infraestruturas públicas de informação que se constroem caminhos possíveis para inovar com impacto social e projetar futuros mais justos.

Referências

GARCÊS-DA-SILVA, Franciéle Carneiro; GARCEZ, Dirnéle Carneiro; ROMEIRO, Nathália Lima; FEVRIER, Priscila Rufino; ALVES, Ana Paula Meneses. Justiça Para Quem? Justiça social, informacional, racial e de gênero em bibliotecas. 2021. In: Encontro Nacional De Pesquisa Em Ciência Da Informação, 21, 2021, Rio de Janeiro. Anais […] Rio de Janeiro: ANCIB; IBICT, 2021. p. 1–16. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/358128586_Justica_para_quem_justica_social_informacional_racial_e_de_genero_em_bibliotecas . Acesso em: 29 jan. 2026.

JOHNSON, Jeffrey Alan. From open data to information justice. Ethics and Information Technology, [S.l.], v. 16, p. 263-274, 2014. Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1007/s10676-014-9351-8 . Acesso em: 29 jan. 2026.

MATHIESEN, Kay. Informational justice: A conceptual framework for social justice in library and information services. Library Trends, v. 64, n. 2, p. 198-225, 2015. DOI: https://doi.org/10.1353/lib.2015.0044 . Disponível em: https://muse.jhu.edu/article/610076 . Acesso em: 29 jan. 2026.

OCDE; EUROSTAT. Oslo Manual: Guidelines for Collecting, Reporting and Using Data on Innovation. 4 ed. Paris/Luxembourg: OECD Publishing/Eurostat, 2018. Disponível em: https://doi.org/10.1787/9789264304604-en . Acesso em: 29 jan. 2026.

SENA, Priscila Machado Borges. Justiça informacional em ciência, tecnologia e inovação no Brasil: reflexões e ações necessárias em ciência da informação. Encontros Bibli, v. 28, n. spe, p. e93046, 2023. Disponível em: https://www.scielo.br/j/eb/a/jhmxztjVHg4nZY3YvpcHLhM/ . Acesso em: 29 jan. 2026.

SMITH, Martha. Global Informational Justice: Rights, Responsibilities, and Caring Connections. Library Trends, v. 49, n. 3, 2001. 

UNESCO. UNESCO Recommendation on Open Science. Online: UNESCO, [s.l.], 2022. Disponível em: https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000379949_por . Acesso em: 29 jan. 2026.

Sobre a autora

Priscila Sena

Pesquisadora do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict). Professora do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação do Ibict e do Programa de Pós-Graduação em Gestão da Informação da Universidade do Estado de Santa Catarina. Coordenadora Nacional (Ibict) da Rede Brasileira de Repositórios Digitais (RBRD). Diretora Regional Sul da Federação Brasileira de Associações de Bibliotecários, Cientistas de Informação e Instituições (FEBAB). 

Doutora e Mestra em Ciência da Informação pela Universidade Federal de Santa Catarina. Bacharela em Biblioteconomia pela Universidade Federal de Mato Grosso/Rondonópolis.


Redação: Priscila Sena
Fotografia: Priscila Sena
Diagramação: Iasmim Farias Campos Lima

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