
O protagonismo da mulher na Ciência revelado pelos arquivos – Entrevista com Leide Mota

O protagonismo da mulher na Ciência revelado pelos arquivos – Entrevista com Leide Mota
Leide Mota de Andrade
leidemota.arq@gmail.com
Sobre a entrevistada
Em 2024, Leide Mota de Andrade defendeu sua dissertação pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal da Bahia, sob orientação da Profa. Dra. Kátia de Oliveira Rodrigues.
Leide é natural de Salto da Divisa (MG) e atua como arquivista na Secretaria de Agricultura e Pecuária do Rio Grande do Sul (RS). Com 55 anos, Leide mantém interesse por atividades culturais, especialmente o cinema.
Sua dissertação, intitulada “Protagonismo da mulher na ciência: discussão a partir das ações de informação evidenciadas no acervo pessoal de Sonia Andrade”, analisa as correspondências do acervo pessoal da pesquisadora pesquisadora Sonia Andrade e seu Currículo Lattes, evidenciando ações de informação relacionadas à mediação, disseminação científica e atividades formativas. Os resultados revelam uma trajetória marcada por alta produtividade acadêmica, especialmente no campo da Doença de Chagas. A pesquisa conclui que arquivos pessoais de cientistas constituem fontes fundamentais para compreender trajetórias, redes e contribuições científicas, ao mesmo tempo em que reforçam a relevância do protagonismo feminino na ciência brasileira.
Divulga-CI: O que te levou a fazer o mestrado e o que te inspirou na escolha do tema da dissertação?
Leide Mota (LM): O que me motivou a fazer o mestrado foi o desejo de aprofundar meus conhecimentos e conquistar novos espaços na trajetória acadêmica. A escolha do tema surgiu de forma muito natural: ao trabalhar com o acervo pessoal da pesquisadora Sonia Andrade, percebi a grandeza de seu legado e a força de sua atuação na ciência. Esse contato direto com suas correspondências e sua história despertou em mim a necessidade de investigar e valorizar o protagonismo feminino na produção científica.
DC: Quem será o principal beneficiado pelos resultados alçados?
LM: Acredito que as principais beneficiadas são as mulheres, especialmente aquelas que atuam ou desejam atuar na ciência, pois o estudo reforça a importância e a visibilidade do protagonismo feminino. Além disso, a própria história da ciência e da saúde também ganha, já que resgatar trajetórias como a de Sonia Andrade ajuda a preencher lacunas, valorizar contribuições e inspirar novas gerações de pesquisadoras e pesquisadores.
DC: Quais as principais contribuições que destacaria em sua dissertação para a ciência e a tecnologia e para a sociedade?
LM: Entre as principais contribuições da minha dissertação, destacaria a valorização do trabalho das mulheres na ciência, evidenciando suas trajetórias e conquistas muitas vezes invisibilizadas. O estudo também contribui para incentivar meninas e mulheres a seguirem carreiras científicas, ao mostrar um exemplo concreto e inspirador de protagonismo feminino. Outra contribuição importante é o reconhecimento do valor dos arquivos pessoais como fontes ricas para compreender a história da ciência, especialmente quando conectados a dados oficiais, como os do Currículo Lattes. Essa integração amplia a compreensão sobre como se constroem redes, produções e legados científicos, beneficiando tanto a pesquisa quanto a memória institucional da ciência.
DC: Seu trabalho está inserido em que linha de pesquisa do Programa de Pós-Graduação? Por quê?
LM: Meu trabalho está inserido na linha de pesquisa Políticas e Tecnologias da Informação porque é nela que o tema da dissertação encontra maior coerência teórico-metodológica. A pesquisa envolve a análise de acervos pessoais e sua relação com os regimes de informação, que abrangem normas, práticas e tecnologias dedicadas à produção, organização e circulação da informação científica. Além disso, o caráter interdisciplinar entre Arquivologia e Ciência da Informação reforça esse enquadramento, já que o estudo aborda tanto os processos informacionais quanto os dispositivos e políticas que sustentam a preservação e o acesso ao conhecimento.
DC: Citaria algum trabalho ou ação decisiva para sua dissertação? Quem é o autor desse trabalho, ou ação, e onde ele foi desenvolvido?
LM: Sim. Um conjunto de trabalhos foi decisivo para orientar a construção da minha dissertação, especialmente aqueles que discutem a exclusão histórica e a invisibilidade das mulheres na ciência. Autores como Leta (2003), ao mostrar que entre os séculos XV e XVII a prática científica foi associada quase exclusivamente aos homens, ajudaram a contextualizar o cenário de ausência forçada das mulheres nos registros formais da ciência.
Da mesma forma, reflexões de Sartori (2006), citada por Kovaleski, Tortato e Carvalho (2013), sobre a atuação feminina em saberes tradicionais, como práticas de cura e medicina doméstica, evidenciaram que as contribuições das mulheres sempre existiram, mas não foram reconhecidas como ciência.
Outra influência veio do trabalho de Kovaleski, Tortato e Carvalho (2013), que discute a invisibilidade das cientistas ao afirmar que o problema não é a falta de mulheres na ciência, mas o fato de seus nomes e feitos terem sido sistematicamente esquecidos.
Além desses estudos sobre gênero, uma autora fundamental para o meu trabalho foi González de Gómez, cuja formulação sobre Regime de Informação serviu de base para toda a construção do meu referencial teórico. A partir de seu conceito, foi possível compreender como normas, práticas e tecnologias estruturam a produção, circulação e uso da informação, o que foi fundamental para analisar os arquivos pessoais de Sonia Andrade.
No campo da Arquivologia, outros autores também foram imprescindíveis. Camargo (2009) é referência incontornável quando se fala de arquivos pessoais, contribuindo para o entendimento da natureza, do valor e das especificidades desse tipo de acervo.
DC: Quais foram os passos que definiram sua metodologia de pesquisa?
LM: A metodologia da pesquisa foi construída em etapas bem definidas, usando procedimentos que permitiram entender tanto os documentos pessoais da pesquisadora quanto suas produções acadêmicas. O primeiro passo foi analisar as correspondências do acervo pessoal utilizando a Análise de Conteúdo de Bardin (2009), uma técnica que ajuda a organizar grandes volumes de informação e identificar categorias. Foi essa abordagem que permitiu classificar as cartas de acordo com as ações de informação presentes no Regime de Informação, como produção científica, disseminação da informação e premiação.
Paralelamente, também foram levantados e analisados os dados quantitativos do Currículo Lattes, como número de publicações, orientações e participações em eventos. Esses dados foram fundamentais para compreender a dimensão da atuação científica da pesquisadora de forma objetiva.
Por fim, a combinação das duas abordagens, qualitativa nas cartas e quantitativa no Lattes, permitiu construir um retrato amplo, consistente e detalhado da trajetória de Sonia Andrade, revelando seu protagonismo na ciência.
DC: Quais foram as principais dificuldades no desenvolvimento e escrita da dissertação?
LM: As principais dificuldades surgiram logo no início do processo. A primeira foi a própria pandemia, que interrompeu as aulas e impossibilitou o acesso ao acervo durante o período de isolamento social. Isso atrasou bastante o avanço do trabalho, porque a análise dos documentos dependia diretamente desse contato com o material.
A segunda dificuldade veio depois, já com o acervo disponível: diante da variedade de documentos existentes, foi um desafio decidir qual tipo documental seria mais adequado para desenvolver a pesquisa. Só após muita reflexão e exploração do material é que ficou claro que as correspondências seriam a fonte ideal, por revelarem de forma rica e direta as ações de informação e a trajetória da pesquisadora investigada. Essa definição permitiu conduzir a pesquisa de forma mais coerente e objetiva.
DC: Em termos percentuais, quanto teve de inspiração e de transpiração para fazer a dissertação?
LM: Se fosse transformar a dissertação em números, diria que foi 20% inspiração e 80% transpiração e olha que essa transpiração incluiu pandemia, aulas suspensas e muita paciência esperando tudo voltar ao normal. A inspiração veio do contato com o acervo de Sonia Andrade e do desejo de dar visibilidade às mulheres na ciência. Quando finalmente pude ver o material, ainda veio o segundo desafio: escolher entre vários documentos até descobrir que as correspondências eram o caminho certo. No fim das contas, a inspiração acendeu a luz, mas quem carregou o projeto mesmo foi o trabalho duro.
DC: Teria algum desabafo ou considerações a fazer em relação à caminhada até a defesa e o sucesso da dissertação?
LM: Ah, desabafos eu teria vários, mas nem tudo pode ser dito abertamente… risos. A caminhada entre o pré-projeto e a versão final da pesquisa é cheia de curvas: dúvidas que surgem do nada, sugestões que deixam a gente completamente perdida, falta de inspiração e aqueles momentos em que você senta diante do computador e simplesmente… dá um branco. De repente, parece que o texto some, a motivação some e a vontade é só de chorar mesmo. É um processo solitário, exige muito esforço pessoal e uma boa dose de persistência. Mas no fim, superar cada uma dessas etapas torna a defesa ainda mais significativa e o sucesso da dissertação muito mais saboroso.
DC: Como foi o relacionamento com a família durante este tempo?
LM: Morar sozinha durante esse período teve suas vantagens: eu não tinha obrigações diretas com outros membros da família, nada de dividir tarefas, cozinhar para todo mundo ou lidar com cobranças domésticas. A responsabilidade era só minha. Por outro lado, família e amigos nem sempre entendem quando começamos a dizer alguns “nãos”. É preciso abrir mão da vida social, faltar a eventos, desaparecer um pouco do convívio. Muitas vezes isso gera incompreensão, especialmente quando você é a primeira da família a seguir uma carreira acadêmica. Para quem está de fora, é difícil entender o quanto esse processo exige foco, tempo e silêncio. Mesmo assim, com diálogo e paciência, tudo se ajeitou e eles também ficaram orgulhosos do resultado.
DC: Agora que concluiu a dissertação, o que mais recomendaria a outros mestrandos que tomassem seu trabalho como ponto de partida?
LM: Agora que concluí a dissertação, minha principal recomendação para outros mestrandos que queiram usar meu trabalho como ponto de partida é: olhem para os arquivos pessoais com mais carinho e com mais atenção. Eles são fontes riquíssimas, mas ainda pouco exploradas. É fundamental que as instituições revejam e atualizem suas políticas de informação, especialmente no que diz respeito à forma como esses arquivos são adquiridos, organizados e nomeados, para que a história de cientistas, principalmente mulheres, não continue sendo invisibilizada.
Também recomendo que futuros pesquisadores invistam sem medo nos arquivos científicos. Eles são fontes essenciais para entender a história da ciência, reconstruir trajetórias e valorizar o trabalho de quem veio antes, especialmente de mulheres que muitas vezes ficaram fora dos registros oficiais.
DC: Como você avalia a sua produção científica durante o mestrado? Já publicou artigos ou trabalhos resultantes da pesquisa? Quais você aponta como os mais importantes?
LM: Avalio minha produção científica durante o mestrado como bastante produtiva. Mesmo enfrentando desafios ao longo do percurso, consegui desenvolver trabalhos relevantes, apresentar resultados em eventos e transformar partes da pesquisa em publicações.
Sim, já publiquei! São eles: o artigo “Protagonismo da mulher na ciência: evidências no arquivo pessoal de Sonia Andrade” no XCNA; a publicação “Ações de informação evidenciadas no acervo pessoal de Sonia Andrade” na revista Acervo; e o trabalho “Arquivo pessoal de Sonia Andrade e vestígios de formação de pesquisadores” apresentado no Enancib 2025.
DC: Desde a conclusão da dissertação, o que tem feito e o que pretende fazer em termos profissionais?
LM: Desde a conclusão da dissertação, tenho mantido uma atuação profissional bem ativa. Continuo trabalhando na área, participando de bancas e de eventos acadêmicos, além de seguir envolvida no associativismo, visando fortalecer a comunidade científica e ampliar discussões sobre arquivos, memória e representatividade.
Para os próximos passos, pretendo aprofundar minha atuação profissional e acadêmica, seja ampliando pesquisas, contribuindo para novos projetos coletivos ou participando mais ativamente de espaços de debate e formação.
DC: Pretende fazer doutorado? Será na mesma área do mestrado?
LM: Sim, pretendo fazer doutorado, mas ainda estou avaliando com cuidado qual caminho seguir. A vontade de continuar pesquisando existe, mas também carrego a experiência do mestrado, especialmente o desafio de transformar o pré-projeto em uma pesquisa sólida, algo que exigiu muito tempo, esforço e reinvenção. Por isso, ainda estou decidindo se sigo exatamente na mesma linha dos arquivos pessoais, ou se busco alternativas de pesquisa que dialoguem com minha trajetória, mas ofereçam novos caminhos.
DC: O que faria diferente se tivesse a chance de ter começado sabendo o que sabe agora?
LM: Se eu pudesse recomeçar sabendo o que sei hoje, teria organizado melhor as etapas iniciais da pesquisa e definido mais cedo o foco do estudo. Isso teria evitado retrabalhos e acelerado decisões importantes, como a escolha do tipo documental. Os desafios do percurso me ensinaram a planejar com mais clareza, a ajustar expectativas e a adaptar o método quando necessário, aprendizados que levo para os próximos projetos.
DC: O que o Programa de Pós-Graduação fez por você e o que você fez pelo Programa nesse período de mestrado?
LM: O Programa de Pós-Graduação abriu portas importantes para mim: ampliou minha formação, ofereceu acesso a discussões acadêmicas qualificadas e me permitiu aprofundar conhecimentos que foram importantes para a construção da dissertação. Já da minha parte, procurei contribuir de forma ativa para o Programa, tanto por meio da produção científica resultante da pesquisa quanto pela participação em eventos que deram visibilidade ao PPGCI. Além disso, atuei como representante discente, o que me permitiu fortalecer o diálogo entre estudantes e coordenação e participar mais de perto do cotidiano do Programa.
DC: Você por você:
LM: Diria que sou alguém que acredita profundamente que os estudos transformam vidas. Demorei a entrar na academia, mas agora que cheguei, quero permanecer e abrir caminhos para que outras mulheres também possam chegar, especialmente mulheres pretas e de origem humilde como eu. Quero que meus passos possam inspirar outras mulheres a ocuparem espaços que historicamente nos foram negados.
Sou curiosa, determinada e, acima de tudo, persistente: mesmo com a pandemia e todas as travas que surgiram no percurso, segui em frente. Ao escolher trabalhar com arquivos pessoais, encontrei nas correspondências um universo que revelava muito mais do que qualquer documento oficial.
Sou o tipo de pesquisadora que acredita no valor das mulheres que vieram antes de nós, na força dos arquivos para reconstruir trajetórias e no poder de transformar silêncio em memória. E, apesar dos tropeços, mantive uma postura ética, responsável e comprometida com a área, sempre buscando produzir algo que contribua para outras pesquisadoras e que honre as histórias que estudo.
Entrevistada: Leide Mota de Andrade
Entrevista concedida em: 25 de novembro de 2025
Formato de entrevista: Escrita
Redação da Apresentação: Iasmim Farias Campos Lima
Fotografia: Leide Mota de Andrade
Diagramação: Ana Júlia Pereira de Souza









