
Injustiça epistêmica na vivência e prática acadêmica das pesquisadoras negras – Entrevista com Letícia Souza

Injustiça epistêmica na vivência e prática acadêmica das pesquisadoras negras – Entrevista com Letícia Souza
Letícia Pereira de Souza
leticiasouza.rs@hotmail.com
Sobre a entrevistada
Em 2024, Letícia Pereira de Souza defendeu sua dissertação pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, sob orientação do Prof. Dr. Rodrigo Silva Caxias de Sousa.
Natural de Porto Alegre (RS), Letícia é técnica e bacharela em Biblioteconomia, atua como assistente pedagógica e cursa o doutorado em Ciência da Informação na Universidade Federal de Santa Catarina. Entre seus hobbies estão a leitura e assistir séries.
Sua dissertação, intitulada “Episódios de injustiça epistêmica na vivência e prática acadêmica das pesquisadoras negras da Ciência da Informação”, investigou situações de desvalorização do conhecimento e silenciamento enfrentadas por pesquisadoras negras. A pesquisa baseou-se em entrevistas com pesquisadoras, que relataram episódios de racismo, injustiças e exclusões ao longo de suas trajetórias acadêmicas. O estudo evidencia como as instituições contribuem para a manutenção da desigualdade por meio do silêncio e da ausência de ações efetivas, e destaca estratégias de resistência, apoio mútuo e permanência na produção do conhecimento. A dissertação aponta para a necessidade de repensar a universidade como um espaço mais justo, diverso e inclusivo.
Divulga-CI: O que te levou a fazer o mestrado e o que te inspirou na escolha do tema da dissertação?
Letícia Souza (LS): O meu interesse em iniciar um mestrado surgiu durante o processo de escrita do meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Naquela pesquisa, investiguei como o sistema produtivista da ciência — que valoriza a publicação em grande quantidade como critério de reconhecimento, manutenção de bolsas e progressão na carreira acadêmica — pode ser injusto com as mulheres. Enquanto muitos homens, mesmo tendo filhos e responsabilidades domésticas, conseguem manter altos níveis de produção científica, as mulheres frequentemente enfrentam jornadas duplas entre a casa e a academia. Essa desigualdade se torna ainda mais evidente no caso das mulheres que são mães, que acabam em desvantagem nesse sistema. Esse tema despertou meu interesse em continuar pesquisando as injustiças presentes no meio acadêmico. Por isso, no mestrado, busquei trazer a voz de pesquisadoras da minha área que vivenciam desigualdades em razão de seu gênero e de seu pertencimento étnico-racial.
DC: Quem será o principal beneficiado pelos resultados alçados?
LS: Os benefícios destes resultados não se manifestarão de forma imediata, uma vez que este trabalho se configura, sobretudo, como uma denúncia de situações graves e injustas que ocorrem nos espaços acadêmicos. Ainda assim, espera-se que, no futuro, mais pesquisas sejam realizadas com esse mesmo objetivo e que os espaços acadêmicos se tornem mais acolhedores para todas as pessoas pesquisadoras, especialmente para as mulheres negras.
DC: Quais as principais contribuições que destacaria em sua dissertação para a ciência e a tecnologia e para a sociedade?
LS: Acredito que este trabalho possa incentivar reflexões sobre como o racismo afeta diretamente o sentimento de pertencimento das mulheres negras na academia e impacta sua produção científica. Além disso, o estudo denuncia a falta de acolhimento por parte das instituições, já que, ao longo da pesquisa, foi possível observar que muitas pesquisadoras negras, quando sofrem episódios de racismo, não encontram redes de apoio institucional para lidar com essas violências.
DC: Seu trabalho está inserido em que linha de pesquisa do Programa de Pós-Graduação? Por quê?
LS: Acredito que hoje em dia tenham alterado as linhas de pesquisa, mas na época estava inserido na linha “Informação e Sociedade”
DC: Quais foram os passos que definiram sua metodologia de pesquisa?
LS: Essa foi com certeza a parte mais difícil do trabalho, porque eu estava buscando uma metodologia que fugisse um pouco do convencional, que estivesse alinhada a uma perspectiva menos engessada da ciência. Foi lendo o livro “Memórias da Plantação” de Grada Kilomba que despertou a ideia de adaptar o método que ela descreve no livro e que também usou em sua tese de doutorado, para apresentar no meu trabalho os episódios de racismo sofridos pelas pesquisadoras negras no âmbito acadêmico.
DC: Quais foram as principais dificuldades no desenvolvimento e escrita da dissertação?
LS: Bem, como escolhi utilizar a entrevista, a primeira dificuldade foi encontrar pesquisadoras dispostas e com agenda disponível para conversar comigo. Ademais, o processo de escutar e transcrever as histórias que elas confiaram a mim, pois eram episódios de racismo e violência, por isso, essa parte não foi nada fácil, foi um processo lento e doloroso pra mim também.
DC: Em termos percentuais, quanto teve de inspiração e de transpiração para fazer a dissertação?
LS: Acredito que 40% inspiração e 60% transpiração. O processo todo da escrita da dissertação foi árduo, principalmente, como disse anteriormente, quando se trata de entrevistas que relatam as dores de mulheres pesquisadoras.
DC: Teria algum desabafo ou considerações a fazer em relação à caminhada até a defesa e o sucesso da dissertação?
LS: Nesse percurso eu aprendi muito, e também queria aproveitar para agradecer ao meu orientador, Rodrigo Caxias, que muitas vezes acreditou em mim mais do que eu mesma. A gente acaba, às vezes, se auto sabotando nesse processo, achando que não está bom o suficiente, que não vai dar tempo de fazer as coisas da forma que queremos, lidamos muito com prazos curtos, com ansiedade, principalmente se tratando do mestrado que é feito em apenas 24 meses, e como estamos recém engatinhando nesse mundo acadêmico, acabamos sofrendo um pouco pra entender o ritmo, por isso é fundamental termos uma boa orientação nesse processo.
DC: Como foi o relacionamento com a família durante este tempo?
LS: A minha família sempre foi muito compreensiva e incentivadora em relação aos estudos. Então, quando eu dizia “hoje não posso, tenho compromisso na universidade” eles sempre entendiam e me apoiavam. Agradeço muito a eles por terem essa visão e por nunca me cobrarem ou me culparem por não estar presente em certos momentos.
DC: Agora que concluiu a dissertação, o que mais recomendaria a outros mestrandos que tomassem seu trabalho como ponto de partida?
LS: Recomendo muito a quem está iniciando essa jornada que tenha uma boa rede de apoio, amigos, família, psicóloga, tudo isso ajuda muito nesse processo. Caso você tenha interesse em pesquisar algo semelhante ao meu estudo, recomendo uma boa base teórica para se guiar e recomendo também que prossiga, pois trabalhos críticos que se impõem contra injustiças e preconceitos são mais do que necessários nos dias atuais. Precisamos de cada vez mais vozes indignadas e dispostas a mudar o atual cenário.
DC: Como você avalia a sua produção científica durante o mestrado? Já publicou artigos ou trabalhos resultantes da pesquisa? Quais você aponta como os mais importantes?
LS: Recentemente um recorte dos meus resultados foi apresentado no XXV Encontro Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Ciência da Informação, intitulado “Injustiça e racismo epistêmico: falas de pesquisadoras negras da Ciência da Informação”. E também temos um artigo em processo de submissão.
DC: Desde a conclusão da dissertação, o que tem feito e o que pretende fazer em termos profissionais?
LS: No momento estou fazendo doutorado na Universidade Federal de Santa Catarina, orientada pelo professor Fabiano Couto Correa. Pretendo concluir o doutorado e seguir na trajetória acadêmica.
DC: O que faria diferente se tivesse a chance de ter começado sabendo o que sabe agora?
LS: Eu teria tentado escrever com mais calma, teria tentado publicar mais durante o mestrado e cuidar melhor da minha saúde mental.
DC: O que o Programa de Pós-Graduação fez por você e o que você fez pelo Programa nesse período de mestrado?
LS: O programa de pós-graduação da UFRGS ajudou muito todos os discentes, pois no meio do processo de mestrado passamos pelas enchentes do Rio Grande do Sul. Felizmente não tive perdas materiais nesse processo, mas abriguei amigos e auxiliei pessoas que foram diretamente afetadas, muitos colegas também foram diretamente afetados e o PPGCIN-UFRGS prestou auxílio, tanto financeiro, quanto em relação à flexibilização dos prazos. Por isso aqui também cabe um agradecimento aos professores e ao coordenador que estava à frente na época, o professor Thiago Bragato Barros.
DC: Você por você:
LS: Esta talvez seja a pergunta mais difícil da entrevista, muito de mim mudou do início do mestrado até hoje, início do doutorado. Porém algo que nunca irá mudar é a minha vontade e busca por temas de pesquisa que denunciem realidades injustas, seja no âmbito social ou institucional. Acredito que isso sempre foi o motor das minhas escolhas de vida. Como mulher bissexual, vinda de um bairro periférico de Porto Alegre, vi minha vida se transformar a partir do momento em que entrei na universidade. Reconheço a importância fundamental da minha família nesse processo, especialmente dos meus pais, que, mesmo sem terem tido acesso a uma formação acadêmica, sempre me incentivaram a estudar e a seguir esse caminho. No entanto, sei que sou privilegiada por ter conseguido fazer uma graduação e um mestrado sabendo que nada me faltava em casa, e que eu tinha apoio de todos os lados.
Ainda assim, esse percurso é marcado por muitos processos solitários: a escrita, a leitura, as dúvidas, a ansiedade diante das bancas de avaliação, os “nãos” em eventos e revistas científicas, além das questões pessoais que continuam existindo paralelamente à vida acadêmica. Tudo isso exige força, persistência e resiliência. Por isso, aprendi que buscar apoio não é sinal de fraqueza, mas uma estratégia fundamental para seguir em frente na academia e na vida de forma geral.
Entrevistada: Letícia Pereira de Souza
Entrevista concedida em: 26 de dezembro de 2025
Formato de entrevista: Escrita
Redação da Apresentação: Iasmim Farias Campos Lima
Fotografia: Letícia Pereira de Souza
Diagramação: Iasmim Farias Campos Lima









