
As contribuições de Hannah Arendt para a Ciência da Informação – Entrevista com Aline Suave

As contribuições de Hannah Arendt para a Ciência da Informação – Entrevista com Aline Suave
Aline Laureano Suave
al.suave@unesp.br
Sobre a entrevistada
Em 2024, Aline Laureano Suave defendeu sua tese pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Estadual Paulista, sob orientação da Profa. Dra. Deise Maria Antonio Sabbag.
Aline possui formação em Filosofia e Pedagogia. Atualmente, atua como professora na Especialização em Inovação em Unidades de Informação (UAB-CAPES/UFSCar), pesquisadora no Instituto de Informação para Inovação (i2i) e também empreendedora em empresas voltadas à inteligência de dados e ao impacto social. Entre seus hobbies estão a degustação de cervejas artesanais, assistir filmes e viajar.
Sua tese, intitulada “Hannah Arendt e suas contribuições para a Ciência da Informação”, investiga o papel da informação na vida em sociedade e sua influência sobre as formas de agir, pensar e conviver. A pesquisa sustenta que a informação ultrapassa a dimensão técnica ou instrumental, ganhando existência plena quando se transforma em compreensão e ação. Além disso, discute como as desigualdades de acesso informacional podem aprofundar injustiças sociais e limitar a participação pública, propondo, ao final, uma abordagem mais humana, ética e socialmente responsável da informação.
Divulga-CI: O que te levou a fazer o doutorado e o que te inspirou na escolha do tema da tese?
AS: O doutorado para mim sempre foi um sonho, chegar ao último nível da educação. Desde que fiz a graduação em Filosofia sempre tive o interesse de levar mais conhecimento para as pessoas, quando descobri a Ciência da Informação fiquei encantada por ser uma Ciência Social Aplicada e com a possibilidade de desenvolver pesquisa interdisciplinares envolvendo diversas áreas. Mas, o ponto crucial, foi em uma aula no mestrado onde o professor apresentou o texto a “A Condição da Informação” de Aldo Barreto, onde por meio dessa leitura eu me identifiquei e disse para mim mesma: “Isso é o que eu precisava, encontrei o caminho para seguir”.
DC: Em qual momento de seu tempo no doutorado você teve certeza que tinha uma “tese” e que chegaria aos resultados e conclusões alcançados?
AS: Eu sempre acreditei que tinha uma tese e chegaria aos resultados, porém a materialização de todo o trabalho por meio das discussões e produção da tese (pós qualificação), me fizeram ter certeza de que conseguiria.
DC: Citaria algum trabalho ou ação decisiva para sua tese? Quem é o autor desse trabalho, ou ação, e onde ele foi desenvolvido?
AS: A base da minha dissertação tiveram 2 trabalhos importantes:
– A Condição da Informação de Aldo Barreto (2002) e,
– A Condição Humana de Hannah Arendt (2010). Foram referências com as quais aprendi muito nas conexões, releituras e resultados obtidos.
DC: Por que sua tese é um trabalho de doutorado, o que você aponta como ineditismo?
AS: A tese exigiu um mergulho teórico profundo e um esforço de articulação interdisciplinar: Filosofia e Ciência da Informação, sem perder o rigor de nenhuma das duas. O ineditismo, para mim, está em mapear e estabelecer relações existentes entre os estudos da filósofa Hannah Arendt e o pesquisador Aldo Barreto da Ciência da Informação, possibilitando uma melhor contribuição para o corpus da área. É um trabalho que organiza relações, conceitos e implicações para pensar a informação hoje.
DC: Em que sua tese pode ser útil à sociedade?
AS: Ela possibilita que cada indivíduo veja a informação para além do técnico: como algo que atravessa a vida pública, a cidadania e as relações sociais. Ao discutir acesso, justiça e ética, a tese reforça que desigualdade informacional vira desigualdade social, e isso é bem concreto no nosso dia a dia. Também oferece base para profissionais e pesquisadores refletirem sobre caminhos para políticas, práticas e decisões mais responsáveis.
DC: Quais são as contribuições de sua tese? Por quê?
AS: Contribui ao aproximar Filosofia da Ciência da Informação de forma estruturada e reflexiva, identificando relações e efeitos da interdisciplinaridade na nossa área. Assim, fortalece a reflexão sobre informação, sociedade e indivíduo, com foco em ética, a inclusão e democratização do acesso. Contribui porque abre caminhos teóricos para pesquisas futuras, convidando para novas possibilidades de pensar em Ciência da Informação em outros espaços.
DC: Quais foram os passos que definiram sua metodologia de pesquisa?
AS: Primeiramente, delimitei as obras centrais do corpus e realizei leituras sucessivas, com registro sistemático de conceitos, categorias e passagens que evidenciavam relações de aproximação e contraste. Em seguida usei a cartografia como método: em vez de seguir uma linha rígida, fui construindo um mapa do percurso da pesquisa, registrando conexões, tensões e caminhos que surgiam ao longo das leituras. Esse mapa foi ganhando forma com quadros, listas, esquemas e imagens, para tornar visível o que, no texto, fica disperso. Por fim, analisei e interpretei criticamente esse material a partir do mapa construído, revisando e refinando sempre que novas relações apareciam.
DC: Em termos percentuais, quanto teve de inspiração e de transpiração para fazer a tese?
AS: Eu diria 30% inspiração e 70% transpiração: a faísca veio rápido (e era o que eu sempre quis), mas sustentar o processo é trabalho diário. A maior dificuldade foi lidar com a densidade dos textos e, ao mesmo tempo, escrever com clareza e coerência para a área, ao mesmo tempo que o mundo estava sofrendo, estávamos em meio a uma pandemia. Também tem a parte invisível: cansaço, prazos, a pandemia (um fator que psicologicamente afetou bastante), várias outras demandas que apareceram no decorrer de 4 anos.
DC: Teria algum desabafo ou considerações a fazer em relação à caminhada até a defesa e o sucesso da tese?
AS: É desafiador desenvolver uma pesquisa por um período de 4 anos. Tiveram dias em que eu me senti gigante e, dias em que eu me senti pequena diante do tamanho do desafio. O que me salvou foi sempre lembrar do motivo: levar conhecimento de um jeito que faça sentido para as pessoas. No fim, defender não foi “um ponto final”; mas o início de uma jornada como pesquisadora.
DC: Como foi o relacionamento com a família durante o doutorado?
AS: Foi uma rede de apoio real, pois sempre tive o exemplo de estudar e buscar conhecimento vindo do meu pai e mãe. Minha família sempre esteve por perto e me incentivou, e isso fez muita diferença na constância do caminho. Tenho um carinho enorme por quem caminhou comigo: minha irmã Alessa quem me levou para a Ciência da Informação (fez o mestrado comigo) e a Meu vô Antônio que sempre se orgulhou da minha trajetória.
DC: Qual foi a maior dificuldade de sua tese? Por quê?
AS: Foi equilibrar profundidade e comunicação: manter o rigor filosófico sem perder o diálogo com a Ciência da Informação. A cartografia me ajudou, mas dá trabalho estabelecer as relações no texto. E, no fundo, o desafio maior é esse: transformar a leitura densa em compreensão compartilhável e significativas.
DC: Que temas de mestrado citaria como pesquisas futuras possíveis sobre sua tese?
AS: Nossa, temos muitos caminhos: Esfera pública nas redes sociais; Desinformação e responsabilidade; Ética informacional e desigualdade de acesso. Também é possível investigar empiricamente como bibliotecas, arquivos e museus sustentam esse “domínio público informacional” na prática. E não menos importante, fortalecer o debate sobre Inteligência Artificial e curadoria algorítmica a partir de um maior embasamento filosófico. E como spoiler, já são temas que estou analisando para iniciar no pós-doutorado.
DC: Quais suas pretensões profissionais agora que você se doutorou?
AS: Quero seguir na docência e na pesquisa, ampliando esse diálogo entre Filosofia e Ciência da Informação por onde eu passar. Também pretendo transformar a tese em textos e ações que cheguem em mais pessoas e dar continuidade na temática aprofundando questões éticas. Hoje eu me vejo fortalecendo isso em espaços acadêmicos e também em atuação profissional ligada às temáticas de inovação social, Ética Informacional e impacto na Ciência da Informação.
DC: O que faria diferente se tivesse a chance de ter começado sabendo o que sabe agora?
AS: . Tudo que fiz foi o melhor dentro das possibilidades que tinha (tempo, trabalho, psicológica, descanso, leitura, escrita). Dei o melhor, com responsabilidade e carinho a cada parágrafo escrito. Nesse percurso, aprendi que cada um tem seu tempo, suas prioridades e seu caminho. Compreender e respeitar isso é muito importante para aproveitarmos as paisagens que o percurso nos proporciona.
DC: Como você avalia a sua produção científica durante o doutorado? Já publicou artigos ou trabalhos resultantes da pesquisa? Quais você aponta como os mais importantes?
AS: Avalio que minha produção científica poderia ter sido mais ampla em termos quantitativos, porém houve um tempo de maturação devido à especificidade da pesquisa teórica e interdisciplinar. Durante o doutorado, priorizei consolidar a base conceitual, participar de eventos e fortalecer minha formação em pesquisa e profissional, de modo a sustentar a qualidade do texto final. há trabalhos em fase de editoração e outros estruturados para submissão e publicação em breve.
DC: Exerceu alguma monitoria/estágio docência durante o doutorado? Como foi a experiência?
AS: Não fiz estágio docência/monitoria formal, pois eu já atuo na docência com aulas, formações de professores, palestras, organização e gestão de cursos. Ensinar (de algum modo) sempre fez parte da minha trajetória.
DC: Elas contribuíram em sua tese? De que forma?
AS: Aprendi a explicar melhor, a cortar excessos e a construir um fio lógico mais didático. Quando precisamos falar para o outro entender, a pesquisa ganha outra qualidade. E isso combina muito com a proposta da tese, que é fazer relações aparecerem, não só “existirem”.
DC: Agora que concluiu a tese, o que mais recomendaria a outros doutorandos e mestrandos que tomassem seu trabalho como ponto de partida?
AS: Recomendo começar pelo básico bem-feito: ler as obras centrais com calma e anotar conceitos, perguntas e conexões. Participar de eventos que possam expor o que já está construindo, também é um ótimo caminho. Construir um “mapa” do que aparece, e aceitar que ele muda ao longo do caminho. E, principalmente, aproveitar com sabedoria da interdisciplinaridade: quando ela é rigorosa, ela vira potência.
DC: Como acha que deve ser a relação orientador-orientando?
AS: Acredito em uma relação de parceria: acolhimento com exigência, liberdade com responsabilidade. O orientador é guia, inspiração e provocação. Quando existe diálogo e confiança, a pesquisa cresce e a gente cresce junto. Eu tive uma experiência muito boa com a minha orientadora, de admiração, cumplicidade, trocas de conhecimento e crescimento.
DC: Sua tese gerou algum novo projeto de pesquisa? Quais suas perspectivas de estudo e pesquisa daqui em diante?
AS: A tese abriu várias frentes: aprofundar Filosofia na Ciência da Informação, e também atualizar as discussões para os dilemas éticos informacionais contemporâneos. Minha perspectiva é seguir estudando informação, ética e vida pública. A tese, para mim, não encerrou um tema, ela inaugurou um campo de continuidade.
DC: O que o Programa de Pós-Graduação fez por você e o que você fez pelo Programa nesse período de doutorado?
AS: O Programa me deu estrutura, referência docente e um ambiente intelectual que nos empurra para além do óbvio: disciplinas, debates, banca e amadurecimento. Retribuí com trabalho sério, produção, participação e com a entrega de uma tese que fortalece a vocação interdisciplinar da área. No fim, é uma troca: a instituição abre caminhos e nós desenvolvemos em pesquisa, presença e legado.
DC: Você por você:
AS: Eu sou movida por educação e por propósito: gosto de pegar o complexo e transformar em algo que dialogue com a vida, que gere significado para as pessoas. Tenho um pé na Filosofia e outro na Ciência da Informação, e eu me reconheço nessa ponte. Meu maior prazer é buscar conhecimento, e disseminar para chegar até as pessoas.
Entrevistado: Aline Laureano Suave
Entrevista concedida em: 22 de dezembro de 2025
Formato de entrevista: Escrita
Redação da Apresentação: Iasmim Farias Campos Lima
Fotografia: Aline Laureano Suave
Diagramação: Iasmim Farias Campos Lima









