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v. 4, n. 01, jan. 2026
Intolerância religiosa, informação e discurso: silenciamentos e disputas de sentido, por Herta Soeiro

Intolerância religiosa, informação e discurso: silenciamentos e disputas de sentido, por Herta Soeiro

Intolerância religiosa, informação e discurso: silenciamentos e disputas de sentido

Herta Maria de Açucena do Nascimento Soeiro
soeiroherta@gmail.com

No dia 21 de janeiro, o Brasil assinala o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, uma data que coloca em circulação discussões sobre a violência simbólica e material que atravessa especialmente as tradições não hegemônicas. Esse marco instaura a necessidade de refletirmos sobre como a intolerância não é um ato isolado, mas um processo histórico-discursivo que organiza desigualdades no campo religioso brasileiro.

Os sentidos que, no Brasil, passam a funcionar como “naturais” sobre o que é religião legítima não se constituem de forma neutra. Eles se inscrevem em longas histórias de repetição, silenciamento e disputa, produzindo interpretações que passam a operar como óbvias. Como afirma Orlandi (2007), a ideologia funciona pela produção do evidente, ou seja, pela constituição de efeitos de naturalidade que apagam outras possibilidades de significação. É nesse regime do “evidente” que se sustentam estigmas que atravessam cosmologias indígenas, matrizes afro-brasileiras e espiritualidades amazônicas, frequentemente tratadas como perigo, desvio ou exotismo.

Nesse processo, símbolos, rituais e modos de vida ligados ao sagrado amazônico, incluindo práticas vegetalistas, rezas e cantos tradicionais, e doutrinas que se organizam na floresta a partir de encontros entre povos migrantes, populações indígenas e grupos afro-brasileiros, passam a circular marcados por sentidos de diferença e estranhamento. A ideologia, como aponta Pêcheux (1997), funciona apagando as condições de produção dos sentidos, fazendo com que determinadas tradições apareçam como naturalmente associadas ao erro, ao risco ou ao desconhecido. Quando isso ocorre, o sagrado amazônico não é reconhecido em sua historicidade e complexidade, pois é enquadrado por memórias coloniais que classificam certas espiritualidades como menos legítimas.

A desinformação tem papel decisivo na manutenção desse funcionamento. Quando o acesso a informações qualificadas dá lugar a boatos, moralismos e discursos de ódio, criam-se condições para que certas tradições sejam percebidas apenas pelos filtros do exótico ou do ameaçador. Courtine (2009) observa que os discursos se organizam por meio de memórias que delimitam o que pode ser dito, ou seja, quando certas religiões são historicamente silenciadas, seu sagrado passa a significar pela via desse silêncio.

Uma breve passagem do hinário “O Cruzeiro”, de Raimundo Irineu Serra, fundador da doutrina do Santo Daime (Moreira; MacRae, 2011) faz funcionar uma relação com o espiritual que escapa ao modelo hegemônico de religiosidade no Brasil. No trecho

Eu sigo na verdade
Eu sigo o meu caminho
Eu sigo é com alegria
Que eu sou filho da Rainha
A força da floresta
A força do astral
A força está comigo
A minha Mãe é quem me dá
Eu chamo o Rei Titango
Eu chamo o Rei Agarrube
Eu chamo o Rei Tituma
E eles vêm lá do Astral
A força é divina
A força tem poder
A força neste mundo
Ela faz estremecer” 

inscreve-se uma organização simbólica que articula entidades, forças e presenças do plano astral com a floresta, a bebida sacramental e a hierarquia espiritual própria dessa tradição (Soeiro, 2025).

Nesse excerto, a força não se restringe ao campo moral ou espiritual abstrato, pois se vincula à floresta, ao astral e às entidades nomeadas, compondo uma cosmologia em que natureza, divindade e humanidade se entrecruzam. Ao circular socialmente, porém, esse tipo de inscrição costuma ser deslocado para zonas de exotização ou estigma, sobretudo quando lido a partir de expectativas formadas por tradições cristãs majoritárias.

Assim, o que, dentro da doutrina, funciona como expressão legítima de uma experiência espiritual amazônica, no espaço público tende a significar pelo viés da incompreensão ou do medo, produzindo condições para que essa forma de sagrado seja tratada como anômala ou desviada – efeito diretamente relacionado à falta de informação e ao modo como certas religiosidades são historicamente silenciadas no país.

Enfrentar a intolerância religiosa não se reduz à celebração de uma data, mas envolve um trabalho contínuo de escuta, circulação de conhecimento e responsabilização pública. Construir condições de reconhecimento para a pluralidade religiosa brasileira – incluindo o sagrado amazônico – significa romper com os silenciamentos que organizam a desigualdade e abrir espaço para que múltiplas tradições possam significar sem serem reduzidas ao medo, ao exotismo ou à invisibilidade. Isso inclui desde a promoção de pesquisas sobre espiritualidades dissidentes até o fortalecimento de debates públicos sobre regulamentação de espaços, práticas e rituais, garantindo segurança jurídica e prevenindo violações. 

Produzir conhecimento qualificado também significa criar condições para evitar usos indevidos, apropriações oportunistas e processos de mercantilização que surgem justamente onde o desconhecimento se impõe. Instituições de memória e informação, como bibliotecas, arquivos e centros culturais, têm papel importante nesse processo. A informação, enquanto prática social que molda e transforma relações, funciona, nesse sentido, como dispositivo de proteção: ao ampliar repertórios interpretativos, reduz a vulnerabilidade de grupos religiosos e cria condições para que o sagrado circule sem ser alvo de apagamento ou criminalização. O combate à intolerância religiosa nos convida a atuar sobre a memória, sobre a linguagem e sobre as políticas públicas de informação. Trata-se de construir um ambiente social em que tradições historicamente silenciadas possam significar sem medo de serem interrompidas pela violência, e que a pluralidade religiosa brasileira não seja apenas reconhecida, mas sustentada por práticas institucionais, jurídicas e educativas capazes de garantir sua continuidade.

Referências

COURTINE, Jean-Jacques. Análise do Discurso Político: o discurso comunista endereçado aos cristãos. São Carlos: EdUFSCAR, 2009.

MOREIRA, Paulo; MACRAE, Edward. Eu venho de longe: Mestre Irineu e suas histórias. Salvador: Editora ABESUP, 2011.

ORLANDI, Eni Pulcinelli. As formas do silêncio: no movimento dos sentidos. 6. ed. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2007. 

PÊCHEUX, Michel. Semântica e Discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. 2. ed. Campinas: Editora da Unicamp, 1995.

SERRA, Raimundo Irineu. Hinário O Cruzeiro. Rio Branco: [s.n.], [19?].
SOEIRO, Herta Maria de Açucena do Nascimento. “Eu canto nas alturas, a minha voz é retinida”: linguagem e ethos discursivo no Santo Daime. Porto Velho: Temática Editora e Cursos, 2025. Disponível em: https://www.tematicaeditora.com.br/_files/ugd/ff4f39_cb99c6caf4bf40e2a0d500a49f466a1e.pdf . Acesso em: 1 dez. 2025.

Sobre a autora

Herta Maria de Açucena do Nascimento Soeiro

Integrante do Grupo de Pesquisa Resistência, Arquivo e Territórios em Discurso – Rastros da Universidade Federal do Paraná e Grupo de Pesquisa Texto e Discurso; e Laboratório de Estudos Linguísticos e Literários (LABELL) da Universidade Estadual do Centro-Oeste.

Doutoranda em Letras pela Universidade Federal do Paraná. Mestra em Letras pela Universidade Federal de Rondônia. Graduanda em Letras – Português pela Faculdade Estácio. Pós-graduada em Docência Superior pela Faculdade Unyleya e em Gestão Educacional e de Projetos pela Faculdade Estratego (lato sensu). Bacharela em Biblioteconomia pela Universidade Federal de Rondônia.


Redação: Herta Maria de Açucena do Nascimento Soeiro
Fotografia: Herta Maria de Açucena do Nascimento Soeiro
Diagramação: Iasmim Farias Campos Lima

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