
Competência em Informação e religiões para o enfrentamento do racismo religioso – Eliane Silva de Sousa

Competência em Informação e religiões para o enfrentamento do racismo religioso – Eliane Silva de Sousa
Eliane Silva de Sousa
essousamg@gmail.com
Sobre a entrevistada
Em 2024, Eliane Silva de Sousa defendeu sua dissertação pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais, sob orientação da Profa. Dra. Ana Paula Meneses Alves.
Atualmente, Eliane atua como bibliotecária na Universidade Federal de Ouro Preto. Bacharela em Biblioteconomia, é natural de Formiga (MG) e entre seus hobbies, destaca-se o gosto pelo contato com a natureza: nos finais de semana, sempre que possível, dedica-se ao cuidado de roseiras e árvores frutíferas na zona rural, e, nos períodos de férias, aprecia viajar pelo Nordeste brasileiro.
Sua dissertação, intitulada “Competência em Informação e religiões: um programa que reúne, lado a lado, fé e pensamento crítico”, analisa as contribuições da Competência em Informação e da Religious Literacy para a avaliação crítica e ética da informação religiosa e de sua influência nas múltiplas dimensões da vida humana. Sua pesquisa apresenta a tradução e definição do conceito de Religious Literacy, seus indicadores articulados à Competência em Informação e introduz o Programa de Competência em Religião como um caminho possível para o enfrentamento do racismo religioso no contexto brasileiro, por meio do conhecimento e do estímulo ao pensamento crítico.
Divulga-CI: O que te levou a fazer o mestrado e o que te inspirou na escolha do tema da dissertação?
Eliane Sousa (ES): O mestrado sempre foi um sonho muito distante para mim. Porém, o trabalho em biblioteca universitária tornou essa realidade muito mais próxima. Foi durante um atendimento de pesquisa a uma aluna de doutorado que tomei conhecimento sobre a existência do curso de Ciência da Religião. No ano seguinte a esse atendimento, cursei a especialização lato sensu em Ciência da Religião na UFJF. Dessa forma, pude conhecer a perspectiva acadêmica que analisa a religião e seus atravessamentos nas diversas dimensões da vida humana, por meio de várias áreas do conhecimento, como a sociologia, a antropologia, a filosofia, entre outras. Religião é uma temática que está presente em várias áreas da vida e a informação produzida e disseminada por ela (religião) influencia tanto a vida pública e privada e pode ser fator de propagação ou amenização de episódios de intolerância e racismo religioso. Estudar sobre religião, informação de matriz religiosa pelo viés da Competência em Informação, é uma das formas de contribuir para a compreensão das origens e desdobramentos do racismo religioso no Brasil, onde o pluralismo se faz tão presente quanto às formas de violência contra determinados segmentos religiosos.
DC: Quem será o principal beneficiado pelos resultados alçados?
ES: Acredito que a temática desenvolvida em minha dissertação trouxe para a Ciência da Informação (CI) e para a Competência em Informação (CoInfo) a visibilidade e a oportunidade de discutir a intolerância e o racismo religioso pela perspectiva dessas áreas, ampliando seu espectro de estudos, tornando essas áreas novas aliadas no combate à intolerância e ao racismo religioso e estimulando outras pessoas pesquisadoras a abordarem o tema.
DC: Quais as principais contribuições que destacaria em sua dissertação para a ciência e a tecnologia e para a sociedade?
ES: A possibilidade de inter-relacionamento entre a CoInfo com outras temáticas de relevância na sociedade; a análise e estímulo ao pensamento crítico relacionado com a informação produzida pelo meio religioso; o programa de Competência em Religião com a proposta para a realização de workshops que possibilitam a compreensão das origens da intolerância e racismo religioso no Brasil refletindo numa análise mais justa do cenário atual de racismo religioso.
DC: Seu trabalho está inserido em que linha de pesquisa do Programa de Pós Graduação? Por quê?
ES: Minha pesquisa está inserida na linha Usuários, gestão do conhecimento e práticas informacionais do PPGCI/UFMG que investiga os fenômenos relacionados à informação como um elemento presente na vida dos sujeitos e relacionado com os processos de construção e apropriação dos saberes socialmente elaborados. Minha pesquisa se adequa a essa linha por trazer em seu cerne a análise crítica da informação de matriz religiosa e as dinâmicas com que ela influencia vários aspectos da vida privada e pública, podendo inclusive contribuir para amenizar ou propagar episódios de intolerância e racismo religioso.
DC: Citaria algum trabalho ou ação decisiva para sua dissertação? Quem é o autor desse trabalho, ou ação, e onde ele foi desenvolvido?
ES: Os estudos desenvolvidos por Diane L. Moore ao embasar sua teoria nos estudos culturais para analisar e compreender os atravessamentos da religião em diversas dimensões da vida humana. A teórica compreende que a cultura influencia os modos de ver e de respeitar as religiões e questiona o motivo de algumas religiões gozaram de maior aceitabilidade na sociedade enquanto outras, tornam-se alvos de constante perseguição e discriminação. Na obra “Overcoming Religious Illiteracy: a cultural studies approach to the study of religion in secondary education”, a pesquisadora contextualiza o cenário de intolerância religiosa nos Estados Unidos, discorre sobre a relevância dos estudos culturais para uma visão mais precisa das religiões bem como suas intersecções com diversas dimensões da vida humana. Os estudos de Moore constituem uma das bases da minha pesquisa, pois, para compreender o cenário brasileiro de intolerância e racismo religioso, é preciso compreender a influência da cultura eurocentrada imposta ao Brasil desde o período da colonização que implica(va) no apagamento das culturas africanas e indígenas.
DC: Quais foram os passos que definiram sua metodologia de pesquisa?
ES: Após a delimitação do tema, teve início a pesquisa bibliográfica com o levantamento de literaturas sobre Competência em Informação, Religious Literacy e campo religioso brasileiro, sendo que esse último tema, inicialmente busquei em fontes da área de Ciência da Religião. A etapa da pesquisa sobre Religious Literacy resultou em um estudo sobre a produção científica dessa temática publicada nas bases de dados disponíveis no Portal de Periódicos da CAPES. Sequencialmente, foram elaborados 15 indicadores temáticos que contribuem para uma análise plural das intersecções das religiões na sociedade e finalmente, a elaboração do Programa de Competência em Religião que é o produto final da dissertação. O programa de Competência em Religião é dividido em 6 módulos que abordam conceitos atribuídos à religião, suas intersecções nas várias dimensões da vida e as religiões mundialmente consideradas hegemônicas. A partir desse recorte do cenário mundial, busca-se apresentar, ainda que genericamente, como foi moldado o campo religioso brasileiro, quais reflexos o processo de colonização com imposição da cultura eurocêntrica produziu e como ainda repercutem no atual cenário de intolerância e racismo religioso.
DC: Quais foram as principais dificuldades no desenvolvimento e escrita da dissertação?
ES: No universo da Ciência da Informação, há pouca literatura que relacione a Competência em Informação com religiões; não havia publicações nacionais sobre Religious Literacy e a adaptação do DigCompEdu (Digital Competence Framework for Educators) para desenvolver o programa de Competência em Religião adaptado à realidade brasileira foram desafios que consegui superar. Importante ressaltar também a necessidade de realizar uma bricolagem entre várias áreas do conhecimento dialogando com o contexto da Ciência da Informação.
DC: Em termos percentuais, quanto teve de inspiração e de transpiração para fazer a dissertação?
ES: Eu poderia dizer que foi 10% de inspiração que veio em uma madrugada de sábado que me fez pesquisar e localizar os primeiros textos sobre Religious Literacy, os demais 90% estão distribuídos no restante da pesquisa com a busca e a leitura de textos, participação em cursos e eventos científicos e o período da escrita que é a etapa que exige maior concentração e dedicação.
DC: Teria algum desabafo ou considerações a fazer em relação à caminhada até a defesa e o sucesso da dissertação?
ES: Existem dificuldades para administrar o tempo entre vida acadêmica, pessoal e profissional mas, quando é necessário conciliar trabalho e estudos, o apoio institucional torna-se fundamental por meio da execução de políticas de incentivo à qualificação dos profissionais. De forma positiva, o trabalho conjunto com minha orientadora, profª Ana Paula Meneses Alves merece destaque e levarei para o restante da vida devido a sua dedicação como orientadora pela parceria que desenvolvemos, mas acima de tudo, como pessoa detentora de muita empatia, sensibilidade e compreensão que foram essenciais durante minha trajetória no mestrado.
DC: Como foi o relacionamento com a família durante este tempo?
ES: A notícia da minha aprovação no mestrado na UFMG foi recebida com muita alegria e orgulho na família. Cursar o mestrado, principalmente na UFMG, foi um divisor de águas em minha vida pelas barreiras sociais e raciais que começaram a ser rompidas e isso foi recebido como um estímulo para outros familiares que hoje almejam ocupar espaços em uma universidade pública e compreendem que a educação transforma vidas. O título de Mestre foi uma conquista conjunta!!!
DC: Agora que concluiu a dissertação, o que mais recomendaria a outros mestrandos que tomassem seu trabalho como ponto de partida?
ES: Além da persistência, considero muito importante trazer a discussão sobre religião e racismo religioso para âmbito da Competência em Informação, ressaltando a importância do pensamento crítico e compartilhamento ético da informação, inclusive de matriz religiosa pela influência que ela ainda exerce na sociedade.
DC: Como você avalia a sua produção científica durante o mestrado? Já publicou artigos ou trabalhos resultantes da pesquisa? Quais você aponta como os mais importantes?
ES: Dentre os trabalhos que publiquei, o que considero mais relevante foi o primeiro que apresentei em evento científico: “Competência em Informação e Religious Literacy: aproximações e contribuições para análise do cenário de intolerância religiosa no Brasil”, no Enancib 2023. Nesse período, eu ainda trazia muitas inseguranças em relação à pesquisa, que estava em fase inicial. No entanto, devido à receptividade e ao apoio que encontrei no evento, além do estímulo à continuidade da pesquisa, senti-me encorajada a delinear o programa de competência em religião, que é o produto da minha dissertação.
DC: Desde a conclusão da dissertação, o que tem feito e o que pretende fazer em termos profissionais?
ES: Após a conclusão do mestrado já participei de atividades do ensino médio compartilhando um pouco dos estudos sobre Competência em Religião e enfrentamento ao racismo religioso. Gosto muito de participar de eventos científicos pois acredito que proporcionam momentos de interação, trocas de experiências, criam-se e fortalecem vínculos durantes eventos, então aproveito momentos de “folga” para também desenvolver ideias iniciais de trabalhos a serem submetidos a eventos científicos. Profissionalmente, em 2026 recomeço minha trajetória profissional na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) onde, entre outras atividades, pretendo desenvolver projetos de Competência em Informação correlacionados às necessidades do público atendido pelo Sistema de Bibliotecas e Informação (SisBIn) da UFOP.
DC: Pretende fazer doutorado? Será na mesma área do mestrado?
ES: Fui aprovada no doutorado em Gestão e Organização do Conhecimento (PPGGOC/ECI/UFMG) ainda em 2024, alguns meses após a defesa do mestrado. O projeto do doutorado é a continuidade da pesquisa desenvolvida no mestrado, acrescida da aplicabilidade do Programa de Competência em Religião por meio de workshops.
DC: O que faria diferente se tivesse a chance de ter começado sabendo o que sabe agora?
ES: Teria distribuído melhor o tempo entre o cumprimento dos créditos e o desenvolvimento da escrita e, teria sido menos receosa para participar de eventos científicos pois a participação no Enancib de 2023 foi estimuladora.
DC: O que o Programa de Pós-Graduação fez por você e o que você fez pelo Programa nesse período de mestrado?
ES: Foi uma imensa satisfação participar do mestrado em Ciência da Informação na UFMG pelos laços de amizade que criei, pessoas que os caminhos se cruzaram e deixaram suas marcas de aprendizado, portas que se abriram, e o conhecimento e a experiência que só o universo do PPGCI/UFMG pode proporcionar. Espero ter deixado minha singela contribuição ao programa ao abordar a temática da Competência em Religião, propondo reflexões e possíveis caminhos para o enfrentamento ao racismo religioso pela ótica da CI.
DC: Você por você:
ES: Ser aprovada, permanecer e concluir o mestrado foi desafiador em virtude de vários acontecimentos que permearam minha trajetória, foi preciso ser persistente! Costumo dizer que enquanto indivíduos e sociedade, perdemos muito por desconhecer a mitologia e sabedoria dos Orixás. Poderia aproveitar esses momentos finais para exemplificar com o mito de Oxalá que foi persistente e paciente quando esteve preso injustamente no reino de Xangô, ou, trazer algum mito sobre Oxum que nos ensina que por meio da persistência e inteligência, as águas calmas e doces também moldam caminhos e superam obstáculos, ou ainda, sobre Iemanjá que simboliza força e determinação também pela força das águas, entretanto, como pesquisadora e incentivadora do pensamento crítico por meio da Competência em Religião, gostaria de estimular as pessoas leitoras a buscarem fontes seguras para, desprovidas de preconceitos, conhecerem a cultura africana, a mitologia dos Orixás tão rica mas tão discriminada em nossa sociedade.
Entrevistada: Eliane Silva de Sousa
Entrevista concedida em: 03 de janeiro de 2026
Formato de entrevista: Escrita
Redação da Apresentação: Iasmim Farias Campos Lima
Fotografia: Eliane Silva de Sousa
Diagramação: Ana Júlia Pereira de Souza









