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v. 3, n. 08, ago. 2025
Graffiti e Museologia: diálogos entre memória e patrimônio – Entrevista com Jéssica Matos Barreto

Graffiti e Museologia: diálogos entre memória e patrimônio – Entrevista com Jéssica Matos Barreto

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Graffiti e Museologia: diálogos entre memória e patrimônio – Entrevista com Jéssica Matos Barreto

Jéssica Matos Barreto

jessicabarreto.uefs@gmail.com

Sobre a entrevistada

Em 2024, Jéssica Matos Barreto concluiu o mestrado pelo Programa de Pós-Graduação em Museologia da Universidade Federal da Bahia, sob a orientação da Profa. Dra. Rita de Cássia Maia da Silva.

Jéssica é natural da Bahia, licenciada em História pela Universidade Estadual de Feira de Santana (BA).  Seus hobbies são pintura e artesanato, dedicando seu tempo livre para aprender técnicas de pintura em aquarela e assistir conteúdos de arte.

Sua dissertação, intitulada “Graffiti e Museologia: Diálogos entre memória e patrimônio”, investiga a relação entre graffiti, patrimônio e memória, destacando como essa forma de arte urbana dialoga com os sujeitos no espaço público e atua como expressão cultural. Trata o grafiteiro como agente sociocultural e analisa o graffiti sob a perspectiva da Museologia, compreendendo-o como patrimônio vinculado ao cotidiano urbano. Com base em pesquisa bibliográfica e abordagem qualitativa, o estudo explora o contexto histórico do graffiti, sua função educativa, social e política, e utiliza o documentário Paredes que Gritam como fonte para aprofundar a análise dessa manifestação artística como expressão de memória e identidade coletiva.

Na entrevista, Jéssica compartilha os desafios ao longo de sua trajetória, suas motivações e os aprendizados.

Divulga-CI: O que te levou a fazer o mestrado e o que te inspirou na escolha do tema da dissertação

JMB: Durante meu curso da graduação fui bolsista no Museu Regional de Arte, sediado no Centro Universitário de Cultura e Arte, em Feira de Santana, por um período de 5 anos. Essa vivência me ofertou muita experiência dos “bastidores” de um espaço tão diverso de arte e cultura. Minhas funções eram voltadas a monitoria e montagem das exposições, juntamente com a equipe, mas também desenvolvi a organização sistemática do arquivo. Com isso, encerrei a graduação em 2019 e vi um edital aberto do Mestrado em Museologia da UFBA e decidi me preparar. Durante o ano de 2020, na pandemia, realizei meu projeto de pesquisa baseado no tema graffiti, que já havia iniciado uma pesquisa de TCC para a conclusão de curso de graduação em Licenciatura em História. Eu diria que essa relação de trabalhar num museu inspirou e motivou muito a   continuação dos estudos e de modo interdisciplinar, através das áreas afins História e Museologia.

DC: Quem será o principal beneficiado dos resultados alçados?

JMB: Acredito muito na pesquisa acadêmica como ponto de referência para o pesquisador desenvolver seu ponto de vista por compreender e assimilar dados, fontes, fatos e conceitos fundamentais para a fundamentação teórica e prática do que realiza enquanto pesquisador e referência bibliográfica. Assim, creio que os benefícios de minha dissertação são diversos, tanto para futuros pesquisadores que poderão acessar minha pesquisa como material teórico e ponto de vista, assim como, trabalhar a auto crítica de que sempre há pontos a desenvolver com mais atenção e realizar uma contínua busca por material que potencialize meu nome como uma boa pesquisadora dessa temática por trazer exemplos, contextos sociais e debates atuais.

DC: Quais as principais contribuições que destacaria em sua dissertação para a ciência e a tecnologia e para a sociedade? 

JMB: Uma pesquisa de temática contemporânea, diversa por explorar o cotidiano e a arte urbana. O graffiti e o grafiteiro são destaques, pois destaca como a diversidade cultural, social dialoga com a arte e passa a ser idealizada como linguagem educativa.

DC: Seu trabalho está inserido em que linha de pesquisa do Programa de Pós-graduação? Por quê?

JMB: Patrimônio e Comunicação Museológica, pois é constante no discurso do graffiti seu contexto social e cultural de arte urbana e, consequentemente, fortalece memórias, identidade e resistência. A relação direta com a Museologia, o graffiti seu destaca com manifestação artística que desafia conceitos e determinações sobre patrimônio e seus debates de preservação, comunicação e representatividade.

DC: Citaria algum trabalho ou ação decisiva para sua dissertação? Quem é o autor desse trabalho, ou ação, e onde ele foi desenvolvido?

JMB: Milton Santos destaca um conceito norteador durante a pesquisa, pois ele fala sobre o cotidiano urbano de modo vivido, humanizado e pulsante. Sua obra “A natureza do espaço”, destaca o cotidiano como ponto importante de práticas, hábitos e rotinas das pessoas, pois há muita representatividade de resistências, estratégias e diversidades fundamentais para a construção do espaço urbano, em consequência, para o graffiti que possui essas características.

DC: Quais foram os passos que definiram sua metodologia de pesquisa?

JMB: Primeiro foi realizado um levantamento de textos para servir de base e selecionar as leituras mais importantes que respondiam às inquietações da pesquisa, observar o graffiti como linguagem educativa, problematizar o grafiteiro como agente sociocultural e utilizar de uma escrita didática e dinâmica para tratar dos conceitos levantados. Em seguida o uso de um audiovisual que reproduz entrevistas com diversos grafiteiros e fala sobre suas experiências vividas e possibilitadas a partir do graffiti.

DC: Quais foram as principais dificuldades no desenvolvimento e escrita da dissertação?

JMB: O processo de escrita antes da qualificação foi bem definitiva, uma escrita diretiva, pois eu estava com dedicação exclusiva. Naquele momento era bolsista Fapesb e conseguia realizar correções e leituras mais atenciosas. A qualificação ocorreu tudo bem e com aprovação e indicações de alterações e atualizações de material de leitura, rever a fonte e o modo de abordagem, assim, após esse período, passei no Processo Seletivo Reda e teria um contrato a cumprir de 40h semanais, com isso o tempo de estudo seria mais limitado e concentrado. E assim foi a demanda mais tensa, lidar com trabalhar e finalizar com atenção o mestrado. De certo modo, sentir que estava concentrada como antes e dedicar tempo de escrita foram os desafios, nesse contexto.

DC: Em termos percentuais, quanto teve de inspiração e de transpiração para fazer a dissertação?

JMB:  Foram muitos desafios de concentração, pois havia um cansaço absurdo fisicamente, devido morar longe do trabalho, o uso do transporte público não colaborava, devido a demora de espera e os deslocamentos. Chegar em casa após 8h de trabalho, 2h de transporte público, afazeres domésticos, sentar e estudar era em diversos momentos um esgotamento, pois a concentração já não existia. Então entrou em cena “questão de honra” e realizar a cada dia o máximo possível em busca desse tão sonhado momento de finalizar a trajetória de uma conquista que seria muito celebrada, pois dependeria apenas dos meus esforços.

DC: Teria algum desabafo ou considerações a fazer em relação à caminhada até a defesa e o sucesso da dissertação?

A princípio ser bolsista deveria ser uma realidade traçada a todos aprovados no mestrado, pois possibilita a dedicação exclusiva aos estudos, uma vez que a realidade de estudar e trabalhar é árdua e, por vezes, pode até deixar pelo caminho pesquisadores com grande potencial, mas que necessita lidar com as responsabilidades financeiras e não consegue administrar com a intensidade que um mestrado exige de produtividade. Por fim, o meio acadêmico chega a ser tóxico, pois em diversos momentos não há compreensão sobre a individualidade do estudante potencializando  diálogos desrespeitosos sobre trajetória e dificuldades enfrentadas. Muitos estudantes em terapia e acompanhamento psicológico devido ao excesso de alguns comportamentos acadêmicos. 

DC: Como foi o relacionamento com a família durante este tempo?

JMB: Quando me inscrevi no mestrado ainda morava com minha mãe. Ao iniciar as aulas em 2021, já estava me relacionando e me dividia entre a casa da minha mãe e do meu namorado. Em pouco menos de 6 meses mudei para a casa dele e nos casamos. Essa mudança física foi sentida no começo, pois foi tudo muito rápido, mas construído com companheirismo. Meu esposo é da área de Filosofia, logo, também pesquisador e professor, então dividimos anseios e objetivos profissionais parecidos. O apoio dele e da minha mãe durante o mestrado foi muito importante e acolhedor.

DC: Agora que concluiu a dissertação, o que mais recomendaria a outros mestrandos que tomassem seu trabalho como ponto de partida?

JMB: A temática do graffiti é muito atrativa, pois fala sobre arte, cotidiano urbano, memória e patrimônio, conceitos que possuem uma diversidade de teóricos que constroem um bom debate. O referencial bibliográfico utilizado na minha pesquisa é baseado na visão que meu recorte temático necessita para responder às inquietações dos objetivos e da problemática. Minha pesquisa passa a ser referencial bibliográfico para outro pesquisador, justamente, pelo recorte realizado, porém é de livre crítica a construção como esse outro pesquisador irá relacionar o uso da minha pesquisa como material de apoio bibliográfico.

DC: Como você avalia a sua produção científica durante o mestrado? Já publicou artigos ou trabalhos resultantes da pesquisa? Quais você aponta como os mais importantes?

JMB: Ainda não realizei publicações de artigos como fruto da pesquisa. Porém participei ao longo do processo de escrita de duas edições do Congresso UFBA, com vídeo pôster, expondo o processo de escrita e atualizações da pesquisa. 

DC: Desde a conclusão da dissertação, o que tem feito e o que pretende fazer em termos profissionais?

JMB:  A defesa da dissertação foi em 11 de dezembro de 2024, estava gestante de quase 6 meses. Após organizar as observações que a banca considerou, enviei a versão para a orientadora corrigir e dar o ok sobre enviar para o repositório da UFBA que foi realizado há poucos dias, em junho/25. No momento estou de licença maternidade e realizando atividade domiciliar da Pós-graduação em Filosofia, pela Universidade Estadual de Feira de Santana. Portanto, os pensamentos estão bem concentrados e voltados a demandas casuais dos estudos acadêmicos. Porém estou em processo de organizar os estudos para concurso e processos seletivos na área da educação e/ou Museologia, pois meu atual contrato de emprego é Reda e já está prestes a finalizar. 

DC: Pretende fazer doutorado? Será na mesma área do mestrado?

JMB: Sim, desejo muito esse doutorado. Pretendo retomar a área de História, que é minha formação inicial da graduação.

DC: O que faria diferente se tivesse a chance de ter começado sabendo o que sabe agora?

JMB: Criar um cronograma de estudos e seguir fielmente, principalmente, por trabalhar e estudar e precisar lidar com horários e tarefas que, por vezes, reduzia e comprometia um estudo mais atencioso e detalhado.

DC: O que o Programa de Pós Graduação fez por você e o que você fez pelo Programa nesse período de mestrado?

JMB: Muitos professores comprometidos e acolhedores, a funcionária do departamento foi bem importante no processo, pois estava sempre disposta por e-mail, respondia com brevidade, em todas necessidades que tive e colaborou de grande valor sobre entrega de material prazos, dúvidas, notícias, enfim, tudo relacionado ao administrativo e burocrático foi bem orientado e conduzido. A meu ver, a relação que tive em ser bolsista FAPESB me possibilitou bons frutos e relações ao longo do processo, pois participei do congresso UFBA destacando todo detalhamento da pesquisa.

DC: Você por você:

JMB: Sempre tive boas relações com a arte. A poesia durante a adolescência foi um ponto de partida crucial para desviar a perda do meu pai. Participei de alguns eventos de poesia na escola e sempre havia premiação para meus escritos. A pintura veio com o desejo em ilustrar as poesias que escrevia, logo me encantei pela aquarela e acabei deixando a poesia de lado, me dedicando à pintura e participando de eventos, exposições e publicações online das minhas produções de artes visuais. O curso de História foi muito importante, pois amadureci muito como indivíduo crítico e reflexivo. Consegui interagir e fazer alguns amigos, pois durante a vida escolar sempre foi minha grande dificuldade, fazer amizades. Viajei e conheci muitos lugares que sempre desejei. Ali estava me percebendo mulher e independente, mesmo que ainda não estabilizada financeiramente, mas confiante de muitos objetivos. A pandemia não consegui pintar, passei por um longo período de bloqueio criativo, mas atualmente tenho me dedicado a estudar pintura digital e comprei alguns materiais de pintura para retomar as aquarelas manuais. Com a maternidade creio que novos olhares serão voltados para a arte que produzo e o processo criativo será mais atento e rico. Gosto de assistir futebol e lutas desde nova, porém somente aos 32 anos que iniciei a prática de um esporte como life style, o jiu-jitsu. No momento estou sem praticar, pois faz parte do resguardo do pós parto evitar alto impacto. No momento ainda me sinto bagunçada com toda mudança após o nascimento de Dante, pois é um processo de muitas adaptações e recomeços. Sou artista,  professora, museóloga, jiujiteira, esposa, filha, pesquisadora e agora estou aprendendo a ser mãe. 


Entrevistada: Jéssica Matos Barreto

Entrevista concedida em:  27 de Junho de 2025

Formato de entrevista: Escrita 

Redação da Apresentação: Iasmim Farias Silva

Fotografia: Jéssica Matos Barreto

Diagramação: Iasmim Farias

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