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v. 3, n. 07, jul. 2025
Editorial: Desafiando a censura, por Jonathan Hernández Pérez

Editorial: Desafiando a censura, por Jonathan Hernández Pérez

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Desafiando a censura

Jonathan Hernández Pérez
jonathan@unam.mx

O surgimento da internet, aqueles dias luminosos cheios de um otimismo quase utópico sobre acesso ilimitado ao conhecimento, agora parecem uma lembrança distante. A visão de uma cidadania global mais bem informada foi substituída por um ecossistema digital onde a desinformação e a manipulação algorítmico se expandem com uma facilidade alarmante. O ambiente que antes imaginávamos como um espaço de libertação intelectual tornou-se um terreno onde a polarização, a vigilância e uma censura muitas vezes invisível não são a exceção, mas a norma que define suas maiores ameaças. Essa realidade nos colocou no limiar de uma profunda crise epistêmica, na qual os desafios se multiplicam a um ritmo muito mais rápido do que as soluções.

Nossas vidas se tornaram dependentes de uma rede de plataformas digitais corporativas, orientadas por algoritmos e alimentadas por nossos dados, que formam o núcleo da atividade cotidiana. 

Nesta sociedade plataformizada, debates antes marginais, como governança algorítmica, soberania de dados e ética da IA, tornaram-se foco de tensões geopolíticas e sociais. A arquitetura desse novo ambiente, marcada pela viralidade como métrica de sucesso e pelo surgimento da realidade sintética (deepfakes, IA generativa), ameaça diretamente a autonomia intelectual dos indivíduos, cuja capacidade de discernir a verdade da falsidade está sob constante cerco. No centro desta crise está a erosão de um direito fundamental: o direito à informação. Este princípio, consagrado no Artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, garante não apenas o acesso às expressões de conhecimento e pensamento, mas também a liberdade de divulgá-las publicamente. Este direito é a garantia fundamental de que toda pessoa tem o direito de: obter informação, informar-se e ser informada, utilizando, ao mesmo tempo, uma ampla variedade de espaços, instrumentos e tecnologias para a transmissão de fatos e ideias [1]. Longe de ser um ideal passivo, constitui a pedra angular de qualquer sociedade democrática e o mandato ético central para os profissionais da informação. A Declaração sobre Liberdade Intelectual da IFLA afirma claramente que o compromisso com a liberdade intelectual é uma responsabilidade fundamental da profissão bibliotecária, ao mesmo tempo que declara que os seres humanos têm o direito fundamental de acessar expressões de conhecimento, pensamento criativo e atividade intelectual, e de expressar publicamente suas opiniões [2].

Primeira página da “Declaración de la IFLA sobre las bibliotecas y la libertad intelectual” da International Federation of Library Associations and Institutions (IFLA)

Hoje, porém, esse princípio enfrenta uma série de ameaças interconectadas. Contrariamente à visão de progresso linear, estamos observando um ressurgimento global da censura direta impactando bibliotecas por meio de tentativas de proibir livros, muitas vezes orquestradas para fins políticos para minar a infodiversidade. Essa tática é alimentada pela instrumentalização da desinformação: um mal-estar social que as tecnologias atuais amplificam em escala e impacto, corroendo a confiança nas instituições científicas e democráticas. Ambas as forças, censura e desinformação, não operam no vácuo, mas visam desproporcionalmente comunidades vulneráveis — particularmente pessoas LGBTQIAP+ e minorias raciais — para silenciar suas vozes e apagar suas narrativas do debate público. É fundamental entender que a liberdade intelectual está inextricavelmente ligada à equidade, porque quando o acesso à informação é limitado, grupos já marginalizados são desproporcionalmente prejudicados.

No entanto, a censura vai além da preocupante proibição de livros. A censura contemporânea estende seus tentáculos de maneiras tão diversas que muitas vezes se normaliza antes de ser detectada: manifesta-se na exclusão de bases de dados científicas pelo Estado, mas também na censura algorítmica de “bolhas de filtro” que fomentam a polarização e impedem o diálogo informado. Somando-se a essa pressão, há uma ferramenta de controle cada vez mais disseminada: a asfixia orçamentária de bibliotecas e outras instituições de memória. Essa precariedade não apenas limita a aquisição de acervos infodiversos, como também cria uma atmosfera de medo que pode levar à autocensura, corroendo a liberdade intelectual internamente e expondo profissionais a assédio e ameaças por defenderem seus princípios.

Logo da “International Federation of Library Associations and Institutions (IFLA)” e “Freedom of Access to Information and Freedom of Expression (FAIFE)”

Chegamos a um ponto de inflexão que redefine o alcance de nossa profissão, o que nos obriga a um exercício de autocrítica, reflexão, mas, sobretudo, de ação. A promessa inicial da internet como um espaço livre e de acesso ilimitado ao conhecimento transformou-se em um ecossistema digital onde a desinformação e a manipulação algorítmica se tornaram normalizadas. A confluência de atores estatais e não estatais que buscam manipular a informação — seja para minar a ciência, polarizar a sociedade ou silenciar vozes — representa um desafio direto aos princípios que sustentam nossa atuação. Por isso, hoje “desafiar a censura” deve ser interpretado em um sentido mais amplo. Já não se limita à rejeição fundamental da censura direta, mas se estende ao combate a formas mais sutis, como a censura algorítmica, a eliminação de bases de dados científicas e até a perigosa e insidiosa autocensura. A missão que agora nos cabe abrange desde o necessário fomento ao pensamento crítico até a promoção de uma melhor compreensão da manipulação algorítmica.

A profissão bibliotecária tem a responsabilidade essencial de aderir aos princípios da liberdade intelectual, do acesso irrestrito e da liberdade de expressão. Assumir essa missão ampliada exige também construir alianças e adotar uma postura proativa, pois enfrentamos uma profunda crise epistêmica em que os desafios se multiplicam mais rapidamente que as soluções.

Notas do autor

[1] CARPIZO, Jorge; VILLANUEVA, Ernesto. El derecho a la información: propuestas de algunos elementos para su regulación en México. In: VALADÉS, Diego; GUTIÉRREZ RIVAS, Rodrigo (coord.). Derechos humanos: memoria del IV Congreso Nacional de Derecho Constitucional. Tomo III. México: Universidad Nacional Autónoma de México, 2001. p. [indicar as páginas do capítulo]. Disponível em: https://archivos.juridicas.unam.mx/www/bjv/libros/1/94/6.pdf . Acesso em: 6 jul. 2025.

[2] INTERNATIONAL FEDERATION OF LIBRARY ASSOCIATIONS AND INSTITUTIONS – IFLA. Declaración de la IFLA sobre las bibliotecas y la libertad intelectual. La Haya, Países Bajos: IFLA, dez. 2020. Disponível em: https://repository.ifla.org/handle/20.500.14598/1425 . Acesso em: 6 jul. 2025.

Sobre o autor:

Jonathan Hernández Pérez

Pesquisador do Instituto de Investigaciones Bibliotecológicas y de la Información (UNAM). Preside o  Committee on Freedom of Access to Information and Freedom of Expression (FAIFE) da International Federation of Library Associations and Institutions (IFLA).


Redação: Jonathan Hernández Pérez
Foto: Jonathan Hernández Pérez
Tradução: Lucas George Wendt e Pedro Ivo Silveira Andretta
Diagramação: Alex Sandro Lourenço

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