
Biblioteca Humana: vozes como fontes de informação, por Ilaydiany Oliveira da Silva e Luciana de Albuquerque Moreira

Biblioteca Humana: vozes como fontes de informação
Ilaydiany Oliveira da Silva e Luciana de Albuquerque Moreira
ilaydiany.oliveira@ufrn.br | luciana.moreira@ufrn.br
A obra “Biblioteca Humana: vozes como fontes de informação” nasce de uma demanda concreta apresentada pela Biblioteca Estadual Câmara Cascudo, em Natal/RN, instituição que se caracteriza por buscar constantemente formas inovadoras de servir à comunidade. Em 2024, a bibliotecária Renata Lopes formalizou junto ao Departamento de Ciência da Informação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte a solicitação de apoio para a implantação do serviço de Biblioteca Humana, entendendo-o não apenas como uma atividade cultural pontual, mas como uma ação institucional de prestação de serviços à sociedade. Essa solicitação evidencia o reconhecimento de que a biblioteca pública deve atuar como espaço de acolhimento, escuta e valorização da diversidade de vozes que compõem o tecido social.

A proposta de elaborar um manual que orientasse esse processo surge, portanto, em resposta a uma necessidade prática de uma biblioteca pública que deseja ampliar seu repertório de serviços e fortalecer sua relevância social. Essa demanda foi incorporada ao ambiente acadêmico, especificamente no âmbito das disciplinas “Serviços de Informação e Referência” e “Estudos de Usuários da Informação”, ministradas no curso de Biblioteconomia da UFRN pelas professoras Dra. Ilaydiany Cristina Oliveira da Silva e Dra. Luciana de Albuquerque Moreira. Assim, a universidade atendeu ao chamado de uma instituição pública e, ao mesmo tempo, ofereceu aos discentes um exercício de integração entre teoria e prática, unindo a reflexão crítica ao compromisso de produzir um material concreto em benefício da comunidade.
Mas afinal, o que é Biblioteca Humana? É uma proposta de mediação de leitura e diálogo criada na Dinamarca, em 2000, com o objetivo de promover inclusão social, empatia e o enfrentamento de estereótipos e preconceitos; nesse formato, em vez de livros impressos, os “livros” são pessoas voluntárias que compartilham suas histórias de vida, experiências profissionais ou trajetórias pessoais, e o público interessado realiza o “empréstimo” desses livros humanos por um período determinado, durante o qual pode conversar, ouvir e dialogar diretamente com o narrador em um ambiente seguro e respeitoso; a essência dessa iniciativa está em criar um espaço de escuta ativa, troca de experiências e aprendizagem, aproximando pessoas de diferentes realidades e possibilitando que leitores e “livros” reflitam sobre diversidade, desigualdades e distintos modos de viver.
O interesse pela obra decorre da relevância da Biblioteca Humana como serviço de mediação cultural. Idealizada na Dinamarca, no início dos anos 2000, essa iniciativa propõe encontros presenciais entre pessoas, denominadas “livros humanos”. Esses “livros” trazem temas instigantes exemplificados a partir das histórias de vida e experiências que são compartilhadas, permitindo ao público uma aproximação singular com diferentes perspectivas e contribuindo para a redução de preconceitos enraizados em nossa sociedade, frequentemente sustentados por estereótipos.

O formato se consolidou como prática internacional capaz de estimular o diálogo, a empatia e a superação de estigmas, mas ainda permanece pouco documentado na literatura científica brasileira. Nesse cenário, destacam-se pesquisas pioneiras desenvolvidas pela bibliotecária Mychelle Cristhiny Lima Moreira, em 2017, e pelo bibliotecário Nielsen Lucas da Silva Tabaraná, em 2023, ambos em parceria com a professora Dra. Ilaydiany Cristina Oliveira da Silva.
Por essa razão, o manual se apresenta como uma contribuição inédita e necessária ao campo da Biblioteconomia e da Ciência da Informação, ao sistematizar conhecimentos, experiências e metodologias capazes de orientar a implantação desse serviço em diferentes bibliotecas.
A construção do manual seguiu um processo colaborativo que envolveu pesquisa teórica, observação prática e análise do comportamento informacional dos usuários. Os estudantes, sob orientação das professoras responsáveis, realizaram uma curadoria de conteúdos sobre o tema, além de visitas técnicas à Biblioteca Estadual Câmara Cascudo, investigando as necessidades do público e mapeando interesses temáticos que nortearam a seleção dos “livros humanos” e determinaram as diretrizes necessárias para compor as metodologias práticas de implantação do serviço.
A elaboração foi organizada em dois volumes complementares. O primeiro reúne a fundamentação conceitual sobre a Biblioteca Humana, a apresentação da instituição parceira e o estudo de usuários realizado. O segundo, ainda em andamento, aprofundará os procedimentos operacionais, contemplando aspectos de planejamento, logística, capacitação da equipe e estratégias de comunicação, de modo a oferecer orientações detalhadas para a efetiva implantação do serviço e será lançado em fevereiro de 2026.
O objetivo central da obra não se limita a fornecer instruções técnicas. Busca-se consolidar um guia que contribua para o fortalecimento da biblioteca pública enquanto espaço de inclusão, cidadania e acesso à informação, ampliando seu alcance social e tornando-a mais próxima da realidade das comunidades que atende. Ao assumir a demanda pela implantação do serviço, a Biblioteca Estadual Câmara Cascudo reafirma seu compromisso social, posicionando-se como mediadora cultural, promotora de encontros e de aprendizagens significativas.

As expectativas em relação à comunidade leitora são amplas. Para os profissionais de bibliotecas, o manual oferece suporte prático e conceitual para a implantação de um serviço inovador, inspirado em experiências internacionais, mas adaptado às realidades locais brasileiras. Para os estudantes de Biblioteconomia e áreas afins, constitui uma referência metodológica que articula ensino, pesquisa e extensão, demonstrando como a produção acadêmica pode responder a demandas sociais concretas. Já para a comunidade em geral, o material apresenta uma nova perspectiva de biblioteca: não apenas um espaço de consulta e estudo, mas um território de convivência e de encontro entre diferentes vozes, capaz de ampliar a compreensão do mundo a partir das relações sociais construídas no interior da própria instituição.
Espera-se que, a partir dessa experiência, a Biblioteca Estadual Câmara Cascudo se consolide como referência no Nordeste na implantação de serviços inovadores, inspirando outras bibliotecas públicas, escolares, comunitárias e universitárias a adotarem práticas semelhantes. O manual pretende, assim, irradiar a experiência local para outras realidades, respeitando suas especificidades, mas mantendo como princípio norteador a valorização do usuário e a acessibilidade das práticas informacionais, promovendo maior aceitação do outro, a redução de preconceitos e a construção de vínculos mais empáticos e solidários.
Por fim, ressalta-se que a obra não é apenas um produto acadêmico, mas uma resposta concreta a uma demanda institucional de prestação de serviço à sociedade. Nasce do diálogo entre a universidade e a biblioteca pública, materializando-se como um manual que une teoria e prática, pesquisa e experiência, ensino e compromisso social. Mais do que instruir, a obra convida a refletir sobre as bibliotecas como espaços vivos, nos quais histórias são compartilhadas, preconceitos são questionados e novas formas de convivência se tornam possíveis. É nessa perspectiva que se espera que o manual seja recebido, não apenas como um conjunto de orientações técnicas, mas como um instrumento de transformação, capaz de fortalecer vínculos entre bibliotecas e comunidades e de inspirar outras instituições a reinventarem suas formas de estar presentes na vida social.
Sobre as organizadoras
Professora do Departamento de Ciência da Informação e do do Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Professora colaboradora do Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal de Goiás.
Doutora em Ciência da Informação pelo Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia, em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mestra em Engenharia de Produção e bacharela em Biblioteconomia, ambos os títulos obtidos pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Vice-líder do “Laboratório de pesquisa em informação antirracista e sujeitos informacionais na Biblioteconomia e Ciência da Informação (ALAYE)” da Universidade Federal de Pernambuco. Atua nos Grupos de pesquisa: “Informação na Sociedade Contemporânea” da Universidade Federal do Rio Grande do Norte; e do “Núcleo de Pesquisas em Gestão, Politicas e Tecnologias de Informação” da Universidade Federal de Goiás.
Professora do Departamento de Ciência da Informação e do do Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
Doutora em Informação e Comunicação em Plataformas Digitais pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto – Portugal. Mestra e Bacharela em Biblioteconomia pela Universidade Federal da Paraíba. Diretora do Núcleo Temático da Seca (NutSeca) e líder do Grupo de Pesquisa “Informação na Sociedade Contemporânea” da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
Redação: Ilaydiany Oliveira da Silva e Luciana de Albuquerque Moreira
Fotografia: Ilaydiany Oliveira da Silva e Luciana de Albuquerque Moreira
Diagramação: Ana Júlia Pereira de Souza









