
Editorial: Educação, exclusão e possibilidades de transformação, por Chico Alencar

Educação, exclusão e possibilidades de transformação
Chico Alencar
mandatochicoalencar@gmail.com
A Educação brasileira sempre foi marcada por ser um projeto elitista e excludente. Sua estrutura retira gradativamente do sistema os filhos da classe trabalhadora, ao mesmo tempo em que assegura privilégios para as elites.
Desde a Constituição de 1988, que instituiu a obrigatoriedade do ensino Fundamental e Médio, houve avanços significativos, mas a democratização efetiva ainda não ocorreu.
O Ensino Médio público continua precário, com baixa qualidade – as exceções confirmam a regra – e taxas elevadas de evasão.
Dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) revelam que apenas cerca de 20% da população entre 25 e 34 anos tinha diploma superior na época do levantamento, em 2019. Nesse mesmo ano, 40% dos que ingressaram nas universidades representavam os 20% da população mais rica, e somente 5% pertenciam às camadas mais pobres.
É fato que, nos últimos anos, políticas afirmativas como a das cotas, e programas de inclusão, ampliaram o acesso, mas não eliminaram barreiras.
Para compreender os desafios atuais, é preciso retomar a formação histórica do Brasil. Somos uma nação em permanente gestação, marcada por séculos de latifúndio, escravidão, monocultura e dependência externa. José Murilo de Carvalho (1939-2023) cunhou o conceito de “estadania” para descrever como o Estado sempre representou os interesses das elites, negando cidadania plena à maioria da população. Mesmo com avanços institucionais, a democracia brasileira permanece de “baixa intensidade”, assombrada pelo autoritarismo, pelo clientelismo, pelo patrimonialismo e pela exclusão social.
A história da educação brasileira revela situações recorrentes e inquietantes. No período colonial, predominou a pedagogia dos jesuítas, autoritária e centrada nos valores da aristocracia escravocrata.
Com a chegada da Corte portuguesa, criaram-se cursos de Direito e Medicina, mas sempre destinados a poucos. O Império e a Primeira República consolidaram um modelo bacharelesco e excludente. Até o final do século XIX, mais de 90% das crianças estavam fora da escola, e a República nasceu sem povo alfabetizado e sem cidadania efetiva.
Essa herança atravessou o século XX e ainda marca o século XXI: seletividade, elitismo, clientelismo e racismo estrutural.
Ao longo de mais de três décadas de docência, pude constatar, em sala de aula e em projetos de extensão, as contradições do sistema educacional no Brasil. Lecionando em escolas públicas e atuando em cursos comunitários, percebi que a desigualdade não se expressa apenas no acesso, mas também nas condições de permanência.

Muitos estudantes carregam o peso do trabalho precoce, da falta de infraestrutura básica e de um currículo que pouco dialoga com sua realidade. Ainda assim, esses mesmos estudantes revelam enorme potência crítica e capacidade de mobilização, quando encontram espaços que os valorizam.
Educar não se limita a transmitir conteúdo ou preparar para exames. Trata-se de um processo humanizador, que deve articular teoria e prática, pensamento e ação, compromisso ético e transformação social.
Educar e ensinar são processos distintos: o primeiro é amplo, assistemático e permanente; o segundo, institucional e formal. Quando se aproximam, porém, tornam-se instrumentos de emancipação.
As experiências que vivi como docente em projetos populares, articulando conteúdo sistemático e formação crítica, reforçam a convicção de que educar é humanizar — e que esse processo só se realiza plenamente quando rompe com as barreiras históricas da exclusão.

As pedras do caminho são muitas: desigualdade social, precarização docente, ausência de políticas consistentes. Mas cada pedra também pode se tornar trincheira de luta e de reinvenção. Se a Educação acompanhou as “transições intransitivas” da história brasileira, cabe a nós transformá-la em ponte para um futuro mais justo, menos desigual.
Afinal, como aprendemos com Paulo Freire, “ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo”.
Sobre o autor
Chico Alencar é professor de História, doutor em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e Deputado Federal (PSOL-RJ).
Redação: Chico Alencar
Fotografia: Câmara dos Deputados / Assessoria Mandato Chico Alencar
Diagramação: Marcos Leandro Freitas Hübner









