
Divulgação científica e desconexão com a sociedade, por Maria Giovanna Guedes Farias

Divulgação científica e desconexão com a sociedade
Maria Giovanna Guedes Farias
mgiovannaguedes@gmail.com
O título deste texto parece paradoxal, ao se pensar que desenvolvemos pesquisas com o objetivo de atender às necessidades da sociedade, ao procurarmos produzir conhecimentos científicos e tecnológicos nas universidades, centros e institutos de pesquisa. O motivo de inserir “desconexão com a sociedade” teria como inspiração minhas percepções sobre o distanciamento que vivenciamos em relação à população, com a falta de diálogo e de ações que nos fazem vivenciar o cotidiano de quem pode não compreender como se faz ciência.
Uma das formas de realizar essa aproximação com a sociedade é por meio da divulgação científica, ou seja, da comunicação pública da ciência, com linguagem, meios, suportes e estratégias adequados e contextualizados para cada público, longe da ideia simplista de que divulgar é traduzir, movendo as informações de um ambiente de pesquisa para um contexto popular.
Divulgar a ciência para a sociedade se constitui em um movimento cunhado na responsabilidade social e no dever ético, que mantém fortalecida a confiança nas instituições de ensino e pesquisa, assim como nos pesquisadores. Vivenciamos, em tempos de pandemia, cenários de desconfiança na ciência e nos cientistas, assim como muitas críticas relacionadas à essa desconexão e ao afastamento da população, como a falta de diálogo, o que pode fortalecer ainda mais as estratégias de desinformação nas mãos de manipuladores e afetar a sociedade. Fazer divulgação científica também contribui não só a construção de confiança na ciência, mas também fortalece a democracia, por meio de uma sociedade mais informada, com o poder de tomar decisões de forma embasada e de discernir, por exemplo, o que é ou não charlatanismo, se o que está sendo ofertado é um produto, serviço, terapia ou medicamento com validade científica.
Nesta perspectiva, é possível, por exemplo, esclarecer para os mais diversos públicos os caminhos/protocolos teóricos e metodológicos rigorosos que os cientistas seguem para a realização de uma pesquisa. Isso pode despertar e estimular a curiosidade e a cultura científica na população, pois a divulgação científica consegue ter forte impacto na opinião pública e na mobilização popular, com a ampliação da possibilidade e da qualidade de participação da sociedade na formulação e escolha de políticas públicas.As reflexões acima apresentadas fazem parte dos estudos que venho desenvolvendo nos últimos anos, os quais fizeram surgir o “Observatório Científico da Universidade Federal do Ceará” (ObservaUFC), que tem como objetivo comunicar a ciência para a sociedade, com a realização de ações/estratégias de aproximação. Uma das últimas ações feitas em cooperação com o ObservaUFC e o Programa de Extensão da Pós-graduação foi o “Ciência na Cuca”, que visou justamente dialogar com a sociedade, ouvir as necessidades de informação e levar até as pessoas, em suas localidades, especialistas em temas de que a população gostaria de saber mais. As edições do “Ciência na Cuca” vêm sendo realizadas em equipamentos culturais da cidade de Fortaleza, em parceria com representantes da população e com docentes e discentes da UFC, que desejam estabelecer diálogos com a sociedade.

Em termos de pesquisa científica, gostaria de apresentar alguns detalhes do estudo que promovi com os professores Andrea Rubin da Universidade de Ferrara, na Itália, e Hermógenes David da UFC, publicado em 2025, que trata justamente da temática da divulgação científica a partir da percepção de pesquisadores. É fundamental compreender essas percepções e o que motiva ou não quem faz pesquisa a divulgar seus achados para a população. Segundo os participantes da referida pesquisa, as razões que mais os motivam a divulgar o conhecimento para a sociedade são as seguintes: entusiasmo pessoal para comunicar sobre ciência e tecnologia, frequentemente acompanhado pelo desejo de contribuir para objetivos educacionais; a intenção de educar e combater a desinformação; melhorar a conscientização pública sobre seu ambiente, incluindo a compreensão da prevenção de doenças e os impactos sociais a longo prazo; ver as pessoas se engajarem com suas pesquisas, desenvolverem habilidades de pensamento crítico; e apoiar políticas públicas em diversas áreas que beneficiam a sociedade.
Por outro lado, há motivos que desencorajam os pesquisadores a fazer a divulgação científica de suas pesquisas, como a falta de reconhecimento para os envolvidos na divulgação em termos de desenvolvimento de carreira ou promoção acadêmica; a carga de trabalho associada às atividades de pesquisa, ensino e extensão; o acúmulo de demandas e tarefas científicas; a falta de conhecimento e formação sobre como comunicar os resultados da pesquisa de forma eficaz; a complexidade de certos estudos, o que pode dificultar sua disseminação; o desafio de evitar jargões técnicos e científicos; o fato de que muitos cientistas ainda não têm clareza sobre os princípios da divulgação científica; misticismos em torno dos processos científicos por trás das técnicas e resultados, sem a compreensão da dedicação e do estudo aprofundado na produção de ciência de alta qualidade; a não compreensão dos benefícios tangíveis das pesquisas para a sociedade, como produtos, serviços, medicamentos e processos aprimorados.
Por isso, faz-se necessário que ocorra um movimento institucional muito forte para superar as barreiras desses desencorajamentos, com investimentos na formação de pesquisadores que desejam se comunicar com a sociedade, tornando-os capazes de criar narrativas para diversos públicos, considerando canais e formatos apropriados, e a incorporação de treinamento estruturado. Para tal, os estudos empreendidos por meio desta pesquisa sugerem ações como: fortalecimento das funções institucionais de comunicação e divulgação científica, com incentivos e ações que possam motivar o envolvimento de todos os envolvidos com a pesquisa científica e tecnológica; dias abertos e visitas a laboratórios nas universidades para acolher cidadãos curiosos e estudantes; apoio a iniciativas que aproximam pesquisadores e o público; desenvolvimento de sistemas de reconhecimento, financiamento e premiação para cientistas envolvidos em atividades de comunicação pública das pesquisa; promoção de cursos dedicados à divulgação científica e às atividades de formação para pesquisadores; e a criação de programas e políticas institucionais de divulgação científica.
Referências
FARIAS, Maria Giovanna Guedes; RUBIN, Andrea; OLIVEIRA, Hermógenes David de. Perceptions, challenges and motivations of scientists regarding public science communication.OBSERVATÓRIO (OBS*), v. 19, p. 23-50, 2025. Disponível em: https://doi.org/10.15847/obsOBS19320252641 . Acesso em: 29 jan. 2026.
Sobre a autora
Professora do Departamento de Ciências da Informação e do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal do Ceará. Professora do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal de Sergipe. Líder do Grupo de Pesquisa Competência e Mediação em Ambientes de Informação (CMAI) da Universidade Federal do Ceará. Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq. Doutora em Ciência da Informação pela Universidade Federal da Bahia, com período sanduíche na Università della Calabria, Itália. Mestra em Ciência da Informação pela Universidade Federal da Paraíba. Graduada em Comunicação Social pela Universidade Estadual da Paraíba.
Redação: Maria Giovanna Guedes Farias
Fotografia: Maria Giovanna Guedes Farias
Diagramação: Iasmim Farias Campos Lima









