
Informação em Comunidades Religiosas: a gênese de um grupo de pesquisa, por Márcia Figueiredo

Informação em Comunidades Religiosas: a gênese de um grupo de pesquisa
Márcia Feijão de Figueiredo
marcia.figueiredo@unirio.br
O brasileiro é religioso. Essa é uma afirmação baseada na Amostra Religião do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Nesse documento consta que o percentual de brasileiros adeptos de alguma religião é de 90,5%, 9,3% não possuem religião e 0,2% não sabem ou optaram por não declarar. A partir dessa premissa podemos afirmar que nove em cada dez brasileiros possuem fé declarada.
Ainda assim, o aspecto religioso e a relação com a fé nas pesquisas da Biblioteconomia e na Ciência da Informação (BCI) é recente. A temática não é fácil de abordar, porque envolve questões pessoais e afetivas, e a discussão deve ter cuidado para que o sagrado seja respeitado. Alguns caminhos já foram traçados, como a relação com a documentação produzida por instituições religiosas e por pessoas notáveis em cargos eclesiásticos ou como lideranças reconhecidas nas suas comunidades religiosas. Algumas questões políticas a partir de lideranças religiosas também foram tema de pesquisa, mas como os grupos se relacionam com as informações circulantes no seu meio é algo que começou a ser pesquisado há pouco tempo.
O grupo Informação em Comunidades Religiosas (ICR) é o resultado de algumas atividades iniciadas em 2024 dentro do grupo Comunidades de Práticas, Organização do Conhecimento e Inovação, liderado pela Profa Miriam Gontijo (in memorian). Neste ano o grupo foi extinto e percebeu-se que era necessário registrar a proposta do ICR no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e solicitar autorização e validação na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio). A chancela ocorreu rapidamente após a análise da produção acadêmica e começou a funcionar como grupo autônomo no mês de junho de 2025.
Como a responsável por liderar a construção e a validação do grupo junto à Diretoria de Pesquisa da Unirio, eu gostaria de narrar parte em primeira pessoa até a constituição do grupo como algo coletivo. Essa história vem de inquietações, de uma jornada de estudos na epistemologia da informação e, recentemente, da experiência docente que culminou em pesquisas e no estabelecimento do grupo registrado no CNPq.
Em 2022 eu recebi da doutora em história e estudante de biblioteconomia Talita Gonçalves um pedido para orientar o seu trabalho de conclusão de curso que pudesse ser aproveitado na igreja onde congregava. As discussões sobre a relação das igrejas com a desinformação eram constantes e percebi que era um problema de pesquisa que poderia aprofundar nos estudos da BCI. Um ano depois, o resultado foi a proposta de um programa de competência em informação, e que se tornou neste ano um artigo para a Revista de Informação na Sociedade Contemporânea (RISC).
Em 2023 a Liinc em Revista promoveu uma edição sobre desinformação e eu, com a professora Marianna Zattar, submetemos um artigo onde observamos à luz da Ciência da Informação as questões convergentes entre a autoridade epistêmica e as autoridades eclesiásticas nas comunidades evangélicas brasileiras. E como a falta de distinção entre o epistêmico e o espiritual pode promover confusões a respeito de informações disseminadas no meio das comunidades.
O artigo tornou-se o mote para realizarmos em 2024 um curso de curta duração na Escola de Inverno do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT), onde eu e a professora Zattar apresentamos as questões informacionais e desinformativas com os professores Gustavo Saldanha e Maria Nélida González de Gómez.
Enquanto isso, a Unirio abria um edital para seleção de bolsistas de iniciação científica, no mesmo período em que o meu projeto de pesquisa foi aprovado com essa temática. No edital conseguimos uma vaga para estudar os dados referentes às igrejas evangélicas brasileiras, e nesse ano novamente fomos contemplados com uma bolsa PIBIC.
No final do ano de 2024 a recepção à temática foi boa no XXIV Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação (Enancib), ocorrido em Vitória, Espírito Santo, recebendo um prêmio de segundo lugar no Grupo de Trabalho 1, que trata de Epistemologia e Estudos Históricos da Ciência da Informação. Na mesma época, o edital de pós-doutoramento PIPD da CAPES e o projeto foi aprovado em primeiro lugar.
A construção dessa linha de pesquisa ocorreu ao longo de dois anos e, por isso, em 2025 percebeu-se que era necessário promover um espaço para essa discussão de forma oficial, legitimando a discussão em linhas de pesquisa. Era necessário formalizar os estudos referentes à ética, epistemologia e a política de informação em comunidades, numa perspectiva social e religiosa, levando em consideração aspectos importantes para os membros, de modo a mapear dimensões relevantes e compreender como isso reverbera no meio e numa perspectiva macro, em fluxos diversos. E nesse percurso inicial estamos com uma única linha de pesquisa, Informação em Comunidades Evangélicas, concentrando discussões e produções de pesquisa voltadas para os evangélicos brasileiros, e as nuances que caracterizam essa população que, em menos de quarenta anos, subiu de cerca de seis por cento da população para 26,9% dos brasileiros a partir dos dez anos de idade (IBGE, 2022)
Além de estudantes de graduação (com e sem bolsa) e de pós-graduação interessados no assunto, há bibliotecários e, curiosamente, todos são egressos da Unirio. Em destaque, houve a chegada de Fernanda Barros, doutoranda e bolsista CAPES, que concorreu ao Prêmio Jabuti Acadêmico com um livro que trata sobre a desinformação nas eleições presidenciais no Brasil.
E como produção de pesquisa houve a apresentação de duas comunicações orais na Jornada de Iniciação Científica 2025 da Unirio, uma comunicação oral apresentada no XXV Enancib ocorrido no Rio de Janeiro e dois artigos aprovados em revistas da área da BCI, uma brasileira e outra de Portugal.
Como agenda de pesquisa, o grupo tem interesse em realizar atividades no campo empírico entre os evangélicos, a fim de confrontar as observações feitas a partir de dados publicados na literatura com personagens locais, abrindo novas frentes discursivas. E de igual modo abrir uma nova linha de pesquisa sobre informação em comunidades católicas. E acreditamos que a melhor maneira de realizar estudos na BCI seja conhecendo e assimilando as formas de uso das informações legitimadas pelas comunidades religiosas.
Referências
FIGUEIREDO, Márcia Feijão de; ZATTAR, Marianna. Autoridades cognitivas versus autoridades eclesiásticas e espirituais: as comunidades evangélicas brasileiras e a desinformação. Liinc em Revista, Rio de Janeiro, v. 19, n. 2, 2023. Disponível em: https://doi.org/10.18617/liinc.v19i2.6628 . Acesso em: 05 jan. 2026.
GONÇALVES, Talita Nunes Silva; FIGUEIREDO, Márcia Feijão de. Proposta de um programa de competência em informação para comunidades evangélicas. Revista Informação na Sociedade Contemporânea, Natal, v. 9, 2025. Disponível em: https://doi.org/10.21680/2447-0198.2025v9n1ID37903 . Acesso em: 05 jan. 2026.
Sobre a autora
Professora do Departamento de Processos Técnicos Documentais e do Programa de Pós-Graduação em Biblioteconomia da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Líder do Grupo Informação em Comunidades Religiosas da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro.
Doutora e mestra em Ciência da Informação pelo convênio entre o Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia e a Universidade Federal do Rio de Janeiro. Bacharela em Biblioteconomia pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro.
Redação: Márcia Feijão de Figueiredo
Fotografia: Márcia Feijão de Figueiredo
Diagramação: Iasmim Farias Campos Lima









