
Bera-Gourmet: a contra-contra cultura em uma identidade ribeirinha, por Rafael Andrade

Bera-Gourmet: A contra-contra cultura em uma identidade ribeirinha
Rafael Ademir Oliveira de Andrade
profrafaelsocio@gmail.com
Primeiro ponto para entendermos nosso ponto de vista: precisamos definir o que é um ribeirinho. Segundo as pesquisadoras Elisângela Menezes e Rúbia Sousa (2017¹), o ribeirinho é aquele que vive essencialmente das relações com o rio e suas mudanças, assim como são aqueles impactados pelos grandes projetos infraestruturais que mudam seus leitos. Essencialmente, o morador de uma grande mansão, funcionário público do alto escalão que usa o rio como uma bela visão no fim de tarde não é um ribeirinho. Entender esta diferença é fundamental para compreendermos como “morar na beira de um rio” não é suficiente para classificar alguém como pertencente a este rio, é preciso absorver/viver dos festejos, alimentos, modos de produção da vida que perpassam tal vida.
Nosso segundo ponto é o que é o movimento beradero (ou beiradeiro) em Rondônia. Em texto escrito recentemente com dois colegas (2024²) – um antropólogo e um expoente e criador do movimento beradeiro – concluímos que este movimento nasce como uma contracultura rebelde de oposição ao viralatismo rondoniense-amazônida que absorvia arte do Sul/Sudeste/Centro-Oeste como formas legítimas de arte e que a arte local – essencialmente marcada por questões indígenas é nordestinas – era considerada inferior. Nesta mesma conexão a palavra beradero era expressão utilizada por migrantes (e seus descendentes) das Regiões ditas superiores intelectual e culturalmente como forma de ofender, “você é beradero” era uma expressão para dizer “você é burro ou incapaz” para o caboclo rondoniense. O movimento social beradero surge então como forma de ressignificar a palavra, tornando-a expressão de resistência, orgulho identitário, relacionado às pautas ambientais, étnicas e da desigualdade social que abarca Rondônia e a Amazônia como um todo.
A discussão central deste texto é justamente entender como o movimento beradero (que remonta à última década do século XX) foi incorporado pela cultura de mercado e se tornou uma forma de contra-contra cultura na Rondônia de hoje.
Para isto, vamos debater rapidamente dois conceitos, visando pautar criticamente nosso olhar:
(a) Mercantilização da cultura em Bourdieu³, que é quando elementos culturais são transformados em objetos do mercado, grande parte pela dependência do campo artístico-cultural do campo econômico, marcado pela ideologia capitalista-burguesa e na Amazônia pela sua franca expansão em situação semi-anômica e
(b) Adorno e Horkheimer em Dialética do Esclarecimento (19854) debatem que lógica do mercado impõe uma padronização das obras artísticas, esvaziando seu conteúdo crítico e tornando-as mero entretenimento ou, mais recentemente, adicionamos que se ligar às questões loco-regionais é uma forma lucrar em cima de uma identidade e uma intencionalidade de resistência.
Organizando os dois pensamentos, consideramos que devido a faceta cultural de resistência do movimento beradero em Rondônia impedir uma forma de apropriação mais eficaz de recursos político-econômicos houve (e há) no estado uma massificação do uso da palavra bera/beradeiro/beiradeiro para fins de lucro, objetificando uma reivindicação legítima do movimento social beradeiro.
Andando pela capital de Rondônia, Porto Velho, ou jogando a palavra “bera” nas redes sociais será possível encontrar uma gama de restaurantes, lanchonetes, veículos de mídia e artistas que utilizam em seus nomes a palavra bera ou similares (beradeiro/beradeiro/beira). Ao passo que em uma primeira vista pode-se pensar isto enquanto algo positivo, não é.
Gostaria de fazer como meus colegas sociólogos, vou debater a partir de analogias. Ao passo que é importante muita gente ter colocado “Guarani Kaiowá” em seu nome nas redes sociais, em que medida o capital social ganho por essas pessoas ao se associarem à causa indígena realmente impactou positivamente no movimento étnico brasileiro? Eduardo Viveiros de Castro em “”No Brasil, todo mundo é índio, exceto quem não é” (20065) debate que embora a cultura brasileira tenha sido profundamente influenciada por povos indígenas, a identidade indígena é frequentemente negada ou apenas aceita quando se encaixa em certos estereótipos. Assim, o Brasil valoriza a “indianidade” como um elemento folclórico, mas não reconhece plenamente os direitos e a existência real dos povos indígenas e mais recentemente, adiciono, a indianidade é usada como forma de lucro de diversos tipos de capital, social, político e em alguns casos, econômico.
Da mesma forma o termo bera e suas associações é tomado enquanto uma forma de lucrar: de ganhar clientes, simpatias populares, conexão com políticos, memórias afetivas e até aí temos mais uma assimilação ideológica do capitalismo tardio do que é considerado sustentável, regional, folclórico, exótico, uma repetição do velho colonialismo.
É preciso questionar então alguns cenários: Primeiro, em que medida a utilização dos “termos beras” devem ser incentivados – inclusive por nós apoiadores do movimento – como forma de determinar nossos consumos ao passo que não existe, na prática, relação alguma com o que é ali vendido ou mesmo se o negócio se relaciona de alguma forma com a rede produtiva (de todas as formas de produção, cultural à econômica) dos beradeiros/ribeirinhos. Os “restaurantes beras” compram dos grandes produtores que estão explorando ou acabando com as formas tradicionais de existência na Amazônia ou estão de alguma forma visando alimentar a sobrevivência deste ser-viver amazônico?
Em alguns “lugares beras” (aqui já escrevo com ironia) não há sequer a estética ribeirinha no local: a comida é estrangeira, as bandeiras/artes são estrangeiras, as tatuagens/grafias remontam a símbolos norte-americanos, o bera da fachada desses lugares é só uma “jatuarana de loca” forma como meu pai e seus amigos chamavam a matrinchã vendida como jatuarana para os gringos (locas) que nada sabem sobre peixe, ou seja, é só pra enganar besta (como aqui também falamos).
O segundo ponto é de que forma os “lugares bera” ao se fortalecerem nas estruturas locais estão de fato se associando ao movimento identitário ou esvaziando-o. Com todas as ressalvas, o uso do termo bera por quem pouco se associa é similar àqueles que se dizem indígenas apenas para ter destaque nas redes sociais ou, em casos extremos, usurpar direitos das populações tradicionais. Aqui em Rondônia não é incomum ver agentes anti-indígenas afirmarem que são indígenas pois suas bisavós foram e por isto possuem “lugar de fala” na retirada de direito, estão genética/historicamente autorizados, mesmo que hoje não se filiem de forma alguma as culturas ou identidades indígenas.
Em outros termos, o uso do termo bera (ou indígena) por pessoas que não fortalecem tais movimentos acaba tendo na prática o efeito contrário: “se tudo pode ser bera, nada é bera”. Aí não há necessidade de esforço algum pelo contato real com a estética, história, necessidades, organizações que surgem desses lugares na beira do rio.
Fica a pergunta de quanto desses “beras” desceram o madeirão para eternizar a guitarrada como Altomar e a galera do Beradelia, quantos se organizaram no Coletivo Mura e sua busca por territorialização, quantos estão na batalha das ideias como Ákilaz, Samuel e o Quilomboclada, quantos estão nas ruas e canoas debatendo a estética Beradeira como Marcela e Najaira, quantos estão nos editais, academias, pesquisas, órgão públicos e manifestos lutando pelo debate sobre a cultura? E do outro lado, quanto desses “bera” estão lucrando com a desarticulação daquilo que os colegas acima citados – e tantas/os outras/os – estão buscando?
Para finalizar, gostaria de ampliar a escala do debate. Assim como em Rondônia a identidade beradera (e similares) é usurpada pelo capital local para o lucro simbólico e/ou econômico, podemos aferir que o termo Amazônia também é utilizado, mas por uma escala ainda mais ampla do capitalismo? E de que forma podemos nós, amazônidas, resistir aos avanços desses ataques que acabam somando ao fim do nosso amado território? Este texto, exploratório e provocativo, busca incomodar, ou melhor, socializar meu incômodo.
Nota do autor:
[1] MENEZES, Elisângela Ferreira; SOUSA, Rúbia Elza Martins de. As subjetividades da realidade vivenciada no espaço ribeirinho: juventude e gênero na comunidade de Nazaré. In: SEMINÁRIO INTERNACIONAL FAZENDO GÊNERO 11 & 13th WOMEN’S WORLDS CONGRESS, 2017, Florianópolis. Anais […]. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2017. Disponível em: https://www.wwc2017.eventos.dype.com.br/resources/anais/1499478593_ARQUIVO_ARTIGO-FAZENDOGENERO.pdf . Acesso em: 14 maio 2025.
[2] MOREIRA, Akilaz Correa; ANDRADE, Rafael Ademir Oliveira de; CAETANO, Renato Fernandes. “DEUS É PAI, TUPÃ, SOU BERADÊRO”: a construção de uma identidade amazônida-rondoniense-resistente. Revista Diálogos: Economia e Sociedade, v. 8, n. 2, p. 19–27, 2024. Disponível em: https://periodicos.saolucas.edu.br/index.php/dialogos/article/view/2660 . Acesso em: 14 maio 2025.
[3] BOURDIEU, Pierre. Regras da Arte: gênese e estrutura do campo literário. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
[4] ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento. São Paulo: Companhia das Letras, 1985.
[5] VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. No Brasil, todo mundo é índio, exceto quem não é. In: RICARDO, Beto; RICARDO, Fany (org.). Povos indígenas no Brasil: 2001/2005. São Paulo: Instituto Socioambiental, 2006. p. 41–49. Disponível em: https://pib.socioambiental.org/files/file/PIB_institucional/No_Brasil_todo_mundo_%C3%A9_%C3%ADndio.pdf . Acesso em: 14 maio 2025.
Sobre o autor:
Rafael Ademir Oliveira de Andrade
Professor do Centro Universitário São Lucas. Professor do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente da Universidade Federal de Rondônia. Pesquisador e Coordenador do Laboratório de Pesquisa em Populações Negligenciadas da Amazônia – LEPONA.
Pesquisador Associado ao grupo de pesquisa “Biotecnologia e Educação Aplicadas à Saúde Única: Pesquisa e Conhecimento de Excelência na Amazônia Ocidental (CONEXAO)” da Fundação Oswaldo Cruz Rondônia.
Doutor em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente, Mestre em Educação e Bacharel em Sociologia pela Universidade Federal de Rondônia. Pós-Doutor em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente pela Universidade Federal de Rondônia.
Redação: Rafael Ademir Oliveira de Andrade
Foto: Rafael Ademir Oliveira de Andrade
Diagramação: Pedro Ivo Silveira Andretta









